2 - está naturalmente em causa a questão da democracia. É uma evidência que a democracia burguesa de um Thomas Jefferson divide o cidadão político do homem privado, dito económico. A resposta marxista a esta divisão, é a de a superar num sistema onde homem e cidadão sejam a mesma coisa. Isso significa que o exercício da cidadania tem de aumentar em todos os seus eixos, muito para além da limitada concessão burguesa. Concessão que aliás está cada vez mais ameaçada porque a burguesia tem dificuldade crescente em lidar com a democracia formal que tolerou no passado (tese Democracy against capitalism, Ellen Maiksens Wood). No aprofundamento da democracia, a igualdade formal jurídica, funde-se com a socialização da produção e abre o caminho para a democracia socialista (the process of democratization, Lukács 1968). Em resumo, se há marxistas que opôem cidadania à luta de classes, como será o caso de Álvaro Cunhal, muitos outros acham que o caminho do aprofundamento dos conflitos vai de par com mais cidadania e de modo algum podem concordar, e eu também não concordo, com a ideia que a cidadania é o inimigo da classe operária.
3 - a prova de que há imensos conflitos que não segregam directamente de uma base classista - o que significa que podem ser ligados com uma dinâmica de classe mas não são necessariamente de base de classe - é o facto talvez para muitos surpreendente que o grande projecto ofensivo da esquerda portuguesa e do PCP em particular, tenha sido nos últimos anos a causa do aborto. Esta causa tem ressonância de classe mas mobiliza os portugueses de maneira muito para além das classes e é um clássico conflito que se arruma fora do quadro típico da luta de classes. Mas podemos certamente encontrar a grande luta sul-americana pela autonomia face ao imperialismo e pela regeneração nacional e isso entronca bastante para além de uma mera lógica de classe. Aliás as lutas de índole nacional, desde os movimentos de libertação das colónias à luta pela libertação do Quebec,são um clássico argumento dos pós-modernos para contestarem a direccionalidade da história baseada na luta de classes. Mas isso é outra história
4 - quando se sublinham os aspectos não classistas numa dada situação não se está a negar o papel da luta de classes nem a secundarizá-lo. Está-se a dizer que uma dada situação é plurideterminada e que afunilar tudo num único ovo do cesto é dar abébias aos inimigos da revolução.
5 - no seu manifesto fundador o Partido Europeu da Esquerda dá nota do esforço de combinar um programa classista e não classista
6 - dizes que a luta de classes se sobrepõem às medidas de equilibrio. Não compreendo onde é que a valorização das contradições não directamente classistas significa qualquer equilíbrio. A ideia é desquilibrar mais e não equilibrar
7 - talvez com exemplos se possa chegar a uma visão mais próxima do que eu quero dizer. Vamos recuar por momentos ao conflito da co-inceneração na zona de Coimbra. Qual foi o determinante da mais valia no alinhamento dos actores então em contenda?
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