Ângelo Novo, recorrendo a uma fórmula muito usual em literatura, resolve publicar extractos de uma carta, que ele intitula de um jovem comunista, para depois se entreter a fazer grandes considerandos sobre o cunhalismo e o PCP.
A sua prosa, contrariamente, penso eu, a outros escritos seus sobre estes assuntos, é de uma grande virulência e refaz, principalmente em relação ao PREC, tudo aquilo que os esquerdistas, de todos os matizes, disseram sobre o PCP e Cunhal. José Mário Branco, chamava-lhe o “fascista branco”, dado o cabelo branco de Cunhal, e o MRRP denominava os militantes do PCP de social-fascistas, socialistas por fora e fascistas por dentro – oportunamente retomarei este tema, porque ele foi importante para o movimento operário – e ainda recentemente, na TSF, Saldanha Sanches apelidava assim o PCP. Ora é neste contexto, que não deve ser desconhecido para o Sr. Ângelo Novo, que vem retomar as mesmas calúnias que muitos daqueles movimentos esquerdistas bolsavam na altura sobre o PCP, dado que muitas das questões que levanta não são meramente teóricas, mas sim factuais.
Mas comecemos pela teoria, se assim desejar – todas as referências são feitas de core, sem qualquer consulta a material bibliográfico. Como sabe o “Rumo à Vitória” foi escrito depois de Cunhal ter fugido da prisão e em luta contra uma corrente que na altura se manifestava na direcção do PCP, o chamado desvio de direita, reflexo do XXº Congresso do PCUS, que teve lugar em 1956, que defendia a passagem pacífica do fascismo à democracia. Cunhal, introduz ao arrepio dessa corrente, e até contra os comunistas espanhóis, a noção do levantamento nacional armado. É interessante verificar, que o 25 de Abril, não sendo rigorosamente um levantamento nacional armado, como o preconizado por Cunhal, teve nos seus desenvolvimentos alguns aspectos que se lhe assemelham.
Por outro lado, juntamente com esta noção, foi-lhe acrescentado o de revolução democrática e nacional, que seria de facto um estádio que permitiria posteriormente o avanço para o socialismo. Sem pretender discutir agora o que foi no movimento comunista a teoria da revolução por diferente estádios, lembraria unicamente que aquilo que se preconizava para Portugal vinha direitinho, das grandes alianças antifascistas e nacionais que se formaram, durante a Segunda Guerra Mundial, e que permitiram a resistência armada ao nazi-fascismo.
Ora a revolução democrática e nacional, juntamente com o levantamento nacional armado, pretendia juntar no campo social todas as camadas anti-monopolistas, e no campo político todos os antifascistas.
Foi contra esta opção, que correspondeu a uma tradição do anti-fascismo nacional e da luta contra o nazi-fascismo, que, por essa época, se levantaram primeiro os homens da FAP – Xico Martins e companhia - e depois todos os múltiplos grupos esquerdistas, que sempre defenderam, quer teoricamente quer na prática, que não poderia existir uma aliança social entre pequenos e médios patrões e trabalhadores, e que o objectivo político seria sempre lutar pela revolução socialista. Coisa que mais uma vez Ângelo Novo, retomando a linguagem desbragada desses tempos, vem relançar. Este facto acarretou que nas pseudo-eleições de 69 o inimigo principal do MRRP, ou daquilo que o antecedeu, fosse CEUD e o Mário Soares e não os fascistas. Lamentavelmente, assemelhando-se muito ao que hoje se passa com o PCP actual.
É interessante verificar que a influência do programa da revolução democrática e nacional foi tão grande, que algumas das suas formulações foram retomadas no programa do MFA.
Mas passemos agora ao PREC, que diz o Ângelo Novo: Repara bem, nem um mês tinha passado sobre o golpe fascista de Spínola, dito da "maioria silenciosa", travado nas ruas por uma admirável mobilização popular. As massas estavam permanentemente nas ruas e a revolução num poderoso ascenso. E o PCP o que faz? Pois revê o seu programa, deitando pressurosamente pela borda fora a "ditadura do proletariado", um conceito essencial do marxismo.
Diz o que todos os esquerdistas poderiam dizer, que o golpe da “maioria silenciosa” foi travado pela mobilização popular, e que o PCP, apesar do ascenso das lutas, retira do seu programa a “ditadura do proletariado”. Já se sabe que se esquece de dizer quem é fez a “admirável mobilização popular”. Para Ângelo Novo a mobilização popular foi expontânea e as barricadas em redor de Lisboa foram da iniciativa das “massas”. Só quem não viveu a época e leu apressadamente alguns textos pode acreditar, ao contrário do que disseram Spínola e alguns dos seus colaboradores, que queriam impor o estádio de sítio, que não era o PCP que estava por detrás da mobilização popular e das barricadas em redor de Lisboa. Se quer o meu testemunho pessoal, que o Sr. acha que é um arrazoada desconexo, eu e outros camaradas fomos mobilizados para estar na Ponte 25 de Abril. Portanto Sr. Ângelo Novo não invente, nem tente destorcer a história.
Quanto à “ditadura do proletariado”, contra aquilo que o Sr. pensa, foi um assunto bastante discutido na altura, que serviu de pedra de toque para que todos os esquerdista acusassem o PCP de partido revisionista, na melhor das hipóteses, ou social-fascista, na pior. Hoje retomar este tema da “ditadura do proletariado”, parece-me ridículo, mas se estiver interessado poderemos, noutra ocasião, discutir este assunto.
Depois vem este desconchavo: Participou efectivamente na reforma agrária alentejana (enfim, fazia parte da revolução "democrática"), depois de os militares do COPCON lhe terem escancarado a porta. Mas o movimento popular urbano e grande parte da mobilização operária (e toda a de cunho anti-capitalista) passou-lhe completamente ao lado. Andou basicamente aos papéis e a apanhar bonés ao longo de todo o PREC. Como um forcado trapalhão, ora tentava aplacar pelos cornos o touro da revolta e criatividade popular, ora lhe agarrava a cauda deixando-se arrastar um bocadinho. Se de facto houve algum esboço de revolução socializante isso deveu-se inteiramente à "esquerda militar" do MFA (e em especial ao cabeçudo do Vasco Gonçalves), a quem o PCP teve que, por algum tempo, dar um apoio muito relutante. Assim que o Vasco caiu, o PCP aproveitou logo a primeira oportunidade para firmar um acordo de rendição muito pouco honroso com o "grupo dos 9".
Este texto é de um grande primarismo. Retomar neste termos a participação do PCP no PREC só pode sair de uma de alguém que, passado 30 anos, ainda continua acreditar em histórias da carochinha e nada reflectiu sobre o que se passou. No meu texto anterior, que o Sr. considera um arrazoada desconexo, dou resposta a muitas destas afirmações gratuitas. Por falta de tempo, ou como diz o Sr. Ângelo Novo por ociosidade, fico-me por aqui. Reconhecendo que em relação às posições posteriores do PCP sobre a transição para o socialismo e a democracia avançada para o Século XXI seria necessário uma discussão mais aprofundada, mas que dificilmente se pode balizar por intervenções do tipo daquelas que o Sr. aqui trouxe.
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