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Date Posted:13/08/04 1:40 In reply to:
José Manuel Correia
's message, "Re: Mercado sem assalariamento?!?..." on 12/08/04 20:07
>Permitam-me entrar na conversa para discordar.
Eu por mim permito, concerteza!!!
Começo por lembrar que aquela frase era mesmo uma provocação "minuciosamente preparada" (enfim, tanto quanto se deve preparar um tema para discussão, num Mestrado em que nos pagam - com dinheiros públicos - para dar aulas...)
E o resultado obtido nas duas ou três aulas seguintes dava origem a muitas e interessantes discussões e esclarecimentos. Tais como algumas das reflexões que aqui expende o amigo J.M.Correia.
A ver...
É comum a gente referir sempre as descobertas ou ensinamentos de Marx àcerca da exploração. Nos seus escritos Marx projecta sempre (ou quase...) a ideia de um "capitalista" explorador e dos "seus" trabalhadores explorados. Sabemos também que Marx extrapola e refere sistematicamente a classe dos "capitalistas" e a classe dos "assalariados". Mas não podemos ficar-nos por aí... Temos que extrapolar para a globalidade das classes "capitalistas" à escala do planeta, o mesmo fazendo para todas as classes que são exploradas.
E é aqui que "a porca torce o rabo", como soe dizer-se:
Utilizando apenas e tão só os termos de referência de Karl Marx (embora alguns já avançados pelos clássicos antes dele), mas extrapolando para o colectivo social vamos "recapitular" apenas alguns elementos:
1. O salário de subsistência é o equivalente às necessidades de reprodução de uma família média de trabalhadores PARA FICAREM "exactamente" (...) COMO ESTÃO.
2. As "mais-valias" (que resultam da exploração) assumem MUITAS formas e feitios. E não são todas absorvidas pelos "capitalistas" em consumo ostentatório.
Parte vai para isso (os "luxos"..., a "boa vida"), outra parte vai para "investimento" (quando as coisas estão "a subir", vão para "investimento produtivo"; quando as coisas estão "estagnadas" (ou mesmo a "descer"), vão para investimento especulativo-financeiro"... enfim, predominantemente).
3. Muitos dos "capitalistas" até trabalham que se fartam... Aliás inúmeros estudos feitos em todos os países mais industrializados revelam hábitos de trabalho perfeitamente irracionais. Até inventaram o termo "workaholic"... Pessoalmente até conheço alguns...
O que faz com que muitos desses "capitalistas" (numéricamente até são a esmagadora maioria) tenham pleno direito a receberem o seu (deles) ordenado (ou comissões sobre resultados, ou lá o que seja...), SEM CONTARMOS AQUI COM participações nos LUCROS!!!
4. Ainda está por inventar um sistema produtivo que não exija "cargos de chefia" ou de "direcção" ou de "coordenação"... A forma como as pessoas chegam a ser "chefes", "managers", "directores" ou "coordenadores", já é uma outra história. Importante, mas outra...
Ou seja, o amigo J.M.Correia desculpar-me-á, mas o mundo não está "simplesmente" dividido em dois: de um lado os "exploradores" e do outro lado os "explorados". São demasiadas as situações em que se fica sem saber "quem é que explora quem"!
Agora passando aos seus argumentos:
>Em meu entender, o
>passado comprovou que é possível acumulação sem
>exploração.
Gostaria que indicasse uma situação no passado em que foi possível a acumulação sem exploração. Não sou doutor em História mas posso indicar-lhe alguns livros de historiadores (que se reclamam do marxismo) que defendem exactamente a tese oposta.
>Aliás, de que vivem os
>exploradores se não de parte da exploração não afecta
>à acumulação?
Parece estar aqui a partir do princípio de que TODOS os "capitalistas" são uns parasitas sociais. Que não há nenhuns "capitalistas" que tenham passado a vida a formar empresas produtdoras de bens e serviços (de que provavelmente o J.M.Correia faz uso correntemente).
Há-de certamente concordar que muitos dos "capitalistas" se limitam a viver (ainda que muito bem...) de grandes ordenados, que são chorudos, mas não deixam de ser ordenados e que pagam uma determinada "prestação social".
>Logo, se o trabalho humano é, desde há
>muito, passível de gerar excedentes, estes podem muito
>bem reverter para acumulação ou desenvolvimento da
>capacidade produtiva.
Claro que o trabalho é desde há muito passível de gerar excedentes. Antes do Capitalismo, durante e depois (será, concerteza). É justamente à sua apropriação (pelos próprios produtores ou pelos seus "ordenadores" (contratuais ou à força...)), é que se chama "exploração". Tal como em "explorar a terra"...
E como a aplicação (reprodutiva) desses excedentes se chama "acumulação", temos que
"não há acumulação sem exploração"!!!
Quanto ao resto, acho que tem razão... Mas acaba por re-definir a ideia de "exploração", quando diz que:
>Aquilo que designamos por exploração é, afinal, uma
>repartição desigual do produto, por condicionamento
>extra-económico do valor de troca da força de
>trabalho, e não, como decorria da teoria marxista, uma
>extorsão de um sobreproduto criado exclusivamente pelo
>detentor da força de trabalho. Tanto assim é que cada
>vez mais o trabalho humano directo, vivo, participa em
>menor quantidade na produção e o sobreproduto é cada
>vez maior. A questão não é, pois quem cria, mas quem
>se apropria e na proporção em que o faz.
E quando diz:
>O melhor seria a aquisição da
>consciência do salariato, nomeadamente, para lutar por
>outras proporções da distribuição da riqueza criada e
>por mais direitos de participação na tomada de decisão
>social em geral,
estamos 100% de acordo. Era aliás isso mesmo que eu queria dizer ao F.P.Redondo quando lhe dizia que o problema (para mim) não é a "exploração", mas sim a "consciencialização dos processos da mesma".
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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