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Subject: Re: Mercado sem assalariamento?!?...


Author:
José Manuel Correia
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Date Posted: 13/08/04 16:51
In reply to: Guilherme Statter 's message, "Re: Mercado sem assalariamento?!?..." on 13/08/04 1:40

Tentemos clarificar duas ou três questões que me parecem, no mínimo, confusas.
1-Diz o Statter: "Gostaria que indicasse uma situação no passado em que foi possível a acumulação sem exploração". Clarifico o meu ponto de vista. Produzir excedentes não é equivalente de efectivar acumulação. Mas a acumulação, a reaplicação produtiva do excedente com vista a mantê-lo ou ampliá-lo, não teve apenas origem na pilhagem e na trapaça (embora não se possa esquecer o seu contributo para o desenvolvimento acelerado do capitalismo). Após a longa fase comunitarista, o período histórico que precedeu o capitalismo não conheceu apenas senhores e servos mas também mercadores e produtores independentes, e muitos destes últimos não foram transformados em proletários mas em honrados capitalistas. O que quero dizer, no fundo, é que o produto excedente não proveniente da exploração do trabalho alheio foi aplicado na acumulação. O que não significa que a exploração não tenha constituído a principal fonte da acumulação.
2-Diz também o Statter: "É justamente à sua apropriação (pelos próprios produtores ou pelos seus "ordenadores" (contratuais ou à força...)), é que se chama "exploração". Tal como em "explorar a terra"...". Julgo haver alguma confusão em relação ao conceito "exploração", que sempre foi usado para significar apropriação do produto excedente por outrém que não o seu produtor, portanto, o inverso do que afirma. O que me afasta da conceptualização marxista é o facto de Marx ter posto a ênfase da exploração na apropriação pelo capitalista do produto excedente criado (gerado) pela força de trabalho. Através de simples raciocínios lógicos pode demonstrar-se que esta acepção marxista está errada (não de agora, mas desde sempre), pois o que caracteriza a exploração é o condicionamento (extra-económico, logo político) do valor de troca de certas mercadorias, onde se inclui a força de trabalho, e é precisamente a troca desigual que caracteriza o capitalismo.
Daqui a discordância com outra acepção marxista de que as mercadorias se trocam pelo seu valor. É que se assim fosse a troca seria uma mera troca de equivalentes onde eventualmente todos seriam produtores e as assimetrias de desenvolvimento, a existirem, seriam bem menores, e o capitalismo... não seria capitalismo.
Em relação a este meu ponto de vista, dou apenas uma pequena achega. Mesmo entre as mercadorias industriais, chamesmos-lhe assim, produzidas com factores produtivos do mesmo tipo, a troca é desigual, na proporção das respectivas eficiências produtivas em relação à eficiência média (aqui considerada como representativa do valor), isto é, as mercadorias produzidas com menor quantidade daqueles factores são trocadas por outras com maior quantidade deles, na proporção das eficiências com que foram produzidas. Mas em relação à força de trabalho, uma mercadoria muito singular, diga-se de passagem, que não é produzida pelos processos industriais ou capitalistas, a troca não só é desigual como arbitrária, dado que para a sua produção não são quantificados os factores produtivos força de trabalho e meios de trabalho (neste caso metabólicos) e apenas as matérias-primas. Embora não possam ser quantificados não quer dizer que o seu valor não possa ser fixado pelos seus detentores, de modo a entrarem na formação do valor de troca da força de trabalho. Só que a dispersão dos produtores desta mercadoria, a sua existência em quantidade independente da procura, a necessidade extrema do produtor, etc., etc., faz com que o seu valor máximo seja fixado pelo Estado do capital (através da conjugação salário-período de trabalho). Não é o facto de o Estado, hoje em dia, fixar salários mínimos e períodos de trabalho máximos que desmente a sua intervenção na regulação extra-económica da força de trabalho. Basta pensar no tipo de intervenção do Estado em situações de correlação de forças favorável ou numa greve em sectores chave, e no modo como gere os fluxos migratórios.
3-Não julgo que todos os capitalistas sejam parasitas, nem que todos os trabalhadores produzam excedentes (alguns, eventualmente, não justificarão o salário), nem que entre os assalariados não haja factores objectivos de divisão, nem que apenas existam duas classes sociais, etc. Nada disso. Não tenho uma visão da realidade a duas cores, ainda que matizadas, porque sem grande esforço se pode reconhecer que o arco-íris social é multicolor, diversificado e complexo. Tão pouco sou apologista do modo de produção capitalista nem enquanto objecto teórico formal abstracto, nem das sua variantes real-concretas, mas também não sou apologista de qualquer socialismo ou comunismo, quer enquanto objecto teórico formal abstracto, quer nas suas variantes real-concretas. A organização económica-social não é objecto que se produza a gosto, mas produto de miríadas de lutas de interesses nos mais variados campos que lhe dão forma ao longo de tempos que não se compadecem com a bitola das nossas vidas.
Julgo ser escusado construir novos objectos sociais ideais ou andar agarrado a versões míticas de objectos ideais do passado. A realidade concreta já é suficiente motivadora para a intervenção social nas tais lutas concretas por objectivos concretos que ajudam a desconstruir o que de mau tem o capitalismo realmente existente, que é muito. Porque, afinal, nem tudo é mau para todos (embora seja absolutamente mau para alguns), e porque não há melhor.
As minhas desculpas pela extensão.
JMC.


>>Permitam-me entrar na conversa para discordar.
>Eu por mim permito, concerteza!!!
>Começo por lembrar que aquela frase era mesmo uma
>provocação "minuciosamente preparada" (enfim, tanto
>quanto se deve preparar um tema para discussão, num
>Mestrado em que nos pagam - com dinheiros públicos -
>para dar aulas...)
>E o resultado obtido nas duas ou três aulas seguintes
>dava origem a muitas e interessantes discussões e
>esclarecimentos. Tais como algumas das reflexões que
>aqui expende o amigo J.M.Correia.
>A ver...
>É comum a gente referir sempre as descobertas ou
>ensinamentos de Marx àcerca da exploração. Nos seus
>escritos Marx projecta sempre (ou quase...) a ideia de
>um "capitalista" explorador e dos "seus" trabalhadores
>explorados. Sabemos também que Marx extrapola e refere
>sistematicamente a classe dos "capitalistas" e a
>classe dos "assalariados". Mas não podemos ficar-nos
>por aí... Temos que extrapolar para a globalidade das
>classes "capitalistas" à escala do planeta, o mesmo
>fazendo para todas as classes que são exploradas.
>E é aqui que "a porca torce o rabo", como soe dizer-se:
>Utilizando apenas e tão só os termos de referência de
>Karl Marx (embora alguns já avançados pelos clássicos
>antes dele), mas extrapolando para o colectivo social
>vamos "recapitular" apenas alguns elementos:
>1. O salário de subsistência é o equivalente às
>necessidades de reprodução de uma família média de
>trabalhadores PARA FICAREM "exactamente" (...) COMO
>ESTÃO.
>2. As "mais-valias" (que resultam da exploração)
>assumem MUITAS formas e feitios. E não são todas
>absorvidas pelos "capitalistas" em consumo
>ostentatório.
>Parte vai para isso (os "luxos"..., a "boa vida"),
>outra parte vai para "investimento" (quando as coisas
>estão "a subir", vão para "investimento produtivo";
>quando as coisas estão "estagnadas" (ou mesmo a
>"descer"), vão para investimento
>especulativo-financeiro"... enfim, predominantemente).
>3. Muitos dos "capitalistas" até trabalham que se
>fartam... Aliás inúmeros estudos feitos em todos os
>países mais industrializados revelam hábitos de
>trabalho perfeitamente irracionais. Até inventaram o
>termo "workaholic"... Pessoalmente até conheço
>alguns...
>O que faz com que muitos desses "capitalistas"
>(numéricamente até são a esmagadora maioria) tenham
>pleno direito a receberem o seu (deles) ordenado (ou
>comissões sobre resultados, ou lá o que seja...), SEM
>CONTARMOS AQUI COM participações nos LUCROS!!!
>4. Ainda está por inventar um sistema produtivo que
>não exija "cargos de chefia" ou de "direcção" ou de
>"coordenação"... A forma como as pessoas chegam a ser
>"chefes", "managers", "directores" ou "coordenadores",
>já é uma outra história. Importante, mas outra...
>Ou seja, o amigo J.M.Correia desculpar-me-á, mas o
>mundo não está "simplesmente" dividido em dois: de um
>lado os "exploradores" e do outro lado os
>"explorados". São demasiadas as situações em que se
>fica sem saber "quem é que explora quem"!
>Agora passando aos seus argumentos:
>>Em meu entender, o
>>passado comprovou que é possível acumulação sem
>>exploração.
>Gostaria que indicasse uma situação no passado em que
>foi possível a acumulação sem exploração. Não sou
>doutor em História mas posso indicar-lhe alguns livros
>de historiadores (que se reclamam do marxismo) que
>defendem exactamente a tese oposta.
>
>>Aliás, de que vivem os
>>exploradores se não de parte da exploração não afecta
>>à acumulação?
>Parece estar aqui a partir do princípio de que TODOS
>os "capitalistas" são uns parasitas sociais. Que não
>há nenhuns "capitalistas" que tenham passado a vida a
>formar empresas produtdoras de bens e serviços (de que
>provavelmente o J.M.Correia faz uso correntemente).
>Há-de certamente concordar que muitos dos
>"capitalistas" se limitam a viver (ainda que muito
>bem...) de grandes ordenados, que são chorudos, mas
>não deixam de ser ordenados e que pagam uma
>determinada "prestação social".
>
>>Logo, se o trabalho humano é, desde há
>>muito, passível de gerar excedentes, estes podem muito
>>bem reverter para acumulação ou desenvolvimento da
>>capacidade produtiva.
>Claro que o trabalho é desde há muito passível de
>gerar excedentes. Antes do Capitalismo, durante e
>depois (será, concerteza). É justamente à sua
>apropriação (pelos próprios produtores ou pelos seus
>"ordenadores" (contratuais ou à força...)), é que se
>chama "exploração". Tal como em "explorar a terra"...
>E como a aplicação (reprodutiva) desses excedentes se
>chama "acumulação", temos que
>"não há acumulação sem exploração"!!!
>Quanto ao resto, acho que tem razão... Mas acaba por
>re-definir a ideia de "exploração", quando diz que:
>>Aquilo que designamos por exploração é, afinal, uma
>>repartição desigual do produto, por condicionamento
>>extra-económico do valor de troca da força de
>>trabalho, e não, como decorria da teoria marxista, uma
>>extorsão de um sobreproduto criado exclusivamente pelo
>>detentor da força de trabalho. Tanto assim é que cada
>>vez mais o trabalho humano directo, vivo, participa em
>>menor quantidade na produção e o sobreproduto é cada
>>vez maior. A questão não é, pois quem cria, mas quem
>>se apropria e na proporção em que o faz.
>
>E quando diz:
>>O melhor seria a aquisição da
>>consciência do salariato, nomeadamente, para lutar por
>>outras proporções da distribuição da riqueza criada e
>>por mais direitos de participação na tomada de decisão
>>social em geral,
>estamos 100% de acordo. Era aliás isso mesmo que eu
>queria dizer ao F.P.Redondo quando lhe dizia que o
>problema (para mim) não é a "exploração", mas sim a
>"consciencialização dos processos da mesma".
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter

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Replies:
Subject Author Date
Re: Mercado sem assalariamento?!?...Guilherme Statter13/08/04 20:51


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