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Subject: Re: Mercado sem assalariamento?!?...


Author:
Guilherme Statter
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Date Posted: 14/08/04 0:26
In reply to: José Manuel Correia 's message, "Re: Mercado sem assalariamento?!?..." on 13/08/04 23:12

Pois... isto é como as cerejas...
Vejamos então que reflexões se me oferecem a propósito dos comentários de J.M.Correia:

>1-Alargar o conceito de exploração até à
>auto-exploração, parece-me um pouco forçado, não só
>pela significação que tradicionalmente lhe foi
>atribuído, como pelo non-sense que traduz, já que com
>a auto-exploração todos podemos bem...;
O problema aqui é um de "linguagem 'ciêntífica'"... A linguagem em que se entendem os investigadores (para o caso economistas, sociólogos, antropólogos e historiadores).
Como disse, limito-me a seguir o uso consensual que é feito (por investigadores marxistas e não marxistas), da expressão "auto-exploração". Acrescento que a ideia (do foro da ética) de que a exploração pode ser "mais ou menos justa", ou de que "com essa exploração pode a gente bem", não tem cabimento em metodologias de investigação socio-económica.

>3-A teoria marxista da exploração através da
>apropriação do produto excedente criado pela força de
>trabalho não tem consistência.
Gostaria era de ver a demonstração. Isto, claro, adentro dos termos de referência do proprio marxismo, na medida em essa demonstração, para ser ela mesma coerente, não pode introduzir variáveis analíticas estranhas ao paradigma que se critica.
Entretando, continua J.M.Correia:
>Na concepção marxista,
>que aqui em nada difere da dos economistas clássicos,
>o valor das mercadorias é o que custa produzi-las;
>neste sentido, o capitalista compra a força de
>trabalho pelo seu valor e fica quite, não rouba nada a
>ninguém, porque o valor excedente criado pertence ao
>proprietário das forças produtivas. A coisa muda de
>figura se o capitalista não compra a força de trabalho
>pelo valor que os seus produtores lhe atribuem, mas
>pelo valor que lhe é imposto por coerções
>extra-económicas.
Eu não diria que a "coisa muda figura". O que acontece com as coerções extra-económicas é apenas (...) uma maior ou menor intensificação da taxa de exploração.

>É que se o valor da força de
>trabalho é o do salário de subsistência, o que custa
>reproduzir o trabalhador e a sua família, não se
>compreende a diversificação salarial das diferentes
>profissões na mesma época e região, em que o número de
>calorias suficiente não varia para manter vivo um
>trabalhador braçal ou um trabalhador qualificado (ou
>antes pelo contrário), nem da mesma profissão na mesma
>região mas em diferentes épocas.
Aqui é que a "porca torce o rabo" (como soe dizer-se). E adianto-me já ao Ponto 4.) da exposição de J.M.Correia.
É que não se trata apenas (...) de manter o trabalhador vivo (as calorias...), mas sim de o reproduzir (com as suas qualificações tecnologicamente actualizadas). Devo lembrar que Marx explicou com algum detalhe que o tal salário mínimo de subsistência era social e culturalmente determinado. Hoje é capaz de incluir o necessário e suficiente para que cada trabalhador possa comprar um telemóvel, um televisor (ou dois...), um PC, ligação à Internet, mandar os filhos para uma escola técnica, etc. etc... Além de que o custo de reprodução de um neurocirurgião é francamente mais elevado do que o custo de reprodução de um advogado ou de um contabilista. Mas assinalo que isto até é dos rudimentos da teoria laboral do trabalho, tal como formulada por Marx, que até difere de forma radical dos clássicos que o antecederam!

>Agora se o salário é
>a parte do produto compatível com uma determinada taxa
>de lucro, a coisa muda de figura.
Aqui estar-se-á (?...) a cometer o êrro de confundir as causas com os efeitos. Uma determinada taxa de lucro condiciona certamente a procura efectiva da força-de-trabalho. O que pode levar à sua sub-valorização (ou sobre-valorização), conforme as circunstâncias históricas concretas. Eu, por exemplo, tive a sorte de há 35 anos atrás ter "tropeçado" numa profissão então em ascensão (a Informática, ainda nem tinha esse nome...). Com a escassez da oferta eu (e muitos outros, claro!!!) beneficiei de uma sobrevalorização conjuntural que se foi diluindo ao longo dos ultimos 20 ou 30 anos... Mas isso não impede que o valor intrínseco da minha força de trabalho tivesse sido determinado pelo custo social de produzir os profissionais como eu. Entretanto são 'N' as profissões que entretanto pura e simplesmente deixaram de existir...
Por outro lado, quando diz que
>4-O valor da força de trabalho não pode ser
>quantificado como o das restantes mercadorias por um
>pequeno detalhe: é que ela não é produzida com os
>mesmos factores de produção...
Aqui receio bem que estejamos mesmo em profunda divergência.
É que na produção de seres humanos os processos sociais e biológicos de reprodução da força-de-trabalho não são (DE UM ESTRITO PONTO DE VISTA DE ENGENHARIA SOCIAL!!!) muito diferentes da produção de golfinhos ou focas amestradas, ou de gado bovino para alimentar a cadeia mundial de "fast food". Por muito que isto possa chocar algumas mentes mais bem pensantes.

>5-No modo de produção capitalista, a troca não é, de
>modo algum, uma troca de equivalentes, a começar pela
>troca desigual com a mercadoria força de trabalho, mas
>não é nem mesmo na troca entre mercadorias produzidas
>no mesmo sistema de referenciação do valor, e mesmo
>tomando para padrão do valor o padrão marxista tempo
>de trabalho abstracto socialmente necessário. Por
>variadas razões que seria fastidioso enumerar, a troca
>capitalista é feita na proporção da eficiência
>produtiva (ou o que designa também por produtividade),
>e o que ela efectiva é a redistribuição do lucro (dado
>à partida);
Concordo que a troca capitalista é feita na proporção da eficiência produtiva, mas chamo a atenção para o facto de isso incluir/abranger/subsumir o pagamento da força-de-trabalho pelo seu equivalente em bens e serviços necessários à sua reprodução social. E o facto de a troca capitalista conter também uma redistribuição do lucro não invalida em nada (bem pelo contrário!) a teoria laboral (marxista) do valor. Receio é que tenhamos desta "malfadada" teoria leituras um tanto ou quanto diferentes...

>6-A teoria do valor ou o valor como tempo de trabalho
>abstracto socialmente necessário (a teoria do valor
>laboral, como o Statter se lhe refere) é outro
>lamentável equívoco do Marx (que em nada lhe retira o
>mérito por tê-la produzido). Ela adapta-se melhor a um
>modo de produção anterior do que ao modo de produção
>capitalista; a taxa de mais-valia constante, taxas de
>lucro inversamente proporcionais à composição
>orgânica, etc., etc., e a teoria da taxa de lucro
>tendencialmente decrescente, dela derivada,
>comprovam-no sobejamente. Embora para se discutir este
>assunto seja necessário conhecê-lo, já que de outro
>modo pode tornar-se inteligível, podemos resumir que o
>padrão marxista do valor como tempo de trabalho
>abstracto socialmente necessário é ineficaz na troca
>capitalista, visto esta ser uma troca aleatória
>(intermediada pelo dinheiro e desfasada no tempo), na
>qual o valor das mercadorias consumidas como forças
>produtivas se pode desviar, para mais ou para menos,
>do valor tomado como padrão (problema que Marx tentou
>resolver, infrutíferamente, com a chamada
>transformação dos valores em preços de produção), e
>que a partir dessa deformação toda e qualquer
>determinação do valor passar a ser... indeterminada!

Bom... aqui os equívocos são de facto demasiados...
Desde logo o desfasamento no tempo e a intermediação do dinheiro... Já havia no Império Romano e entre as dinastias chinesas. Já vi referido por ilustres historiadores que um dos mais significativos contributos da civilização judaica para a nossa global civilização, foi justamente a ideia do juro...
Depois, ao dizer-se que Marx falhou ao tentar resolver o chamado problema da transformação de valores em preços, seria bom lembrar que outros seus seguidores se encarregaram disso. E, tanto quanto sei, a contento...
Se fôr preciso (e sem recorrer a grandes matemáticas) até eu me atrevo a explicar com algum detalhe, o que aliás já tive ocasião de aqui fazer (no DotmeCome.com).
Finalmente, dizer que
"a taxa de mais-valia constante, taxas de lucro inversamente proporcionais à composição
orgânica, etc., etc., e a teoria da taxa de lucro
tendencialmente decrescente, dela derivada", "comprovam sobejamente" que a teoria do valor laboral é "um lamentável equívoco de Marx" ou que "ela se adapta melhor a um modo de produção anterior do que ao modo de produção
capitalista",
É algo que deixa completamente baralhado. Pelo insólito de se afirmar como prova, exactamente o posto daquilo que é consensual (entre marxistas, claro), mas que vai ganhando terreno entre outros investigadores tais como os da escola institucionalista ou mesmo da escola keynesiana (a esses eu chamarei antes de "marxistas envergonhados")...
Se o amigo José Manuel Correia tivesse para isso pachorra, sugeria-lhe a leitura do texto que aqui coloquei sobre a "Tendencia Decrescente ou Queda Tendencial da Taxa de Lucro"... É rudimentar e está algo atabalhoado (não satisfaz mínimamente os 'standards' exígiveis para publicação formal em revistas da chamada "comunidade ciêntífica", mas as ideias mestras da demosntração estão lá.
E creio, que por hoje é tudo.
Cordiais saudações,
Guilherme Statter

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Replies:
Subject Author Date
Re: Mercado sem assalariamento?!?...José Manuel Correia15/08/04 11:47


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