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Subject: Re: Mercado sem assalariamento?!?...


Author:
José Manuel Correia
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Date Posted: 15/08/04 11:47
In reply to: Guilherme Statter 's message, "Re: Mercado sem assalariamento?!?..." on 14/08/04 0:26

Apesar de herético, não sou militante, não pretendo catequizar ninguém. Daí entrar nestas conversas de modo informal e despretensioso, apenas com a intenção de manifestar outro ponto de vista.

Por outro lado, tenho por experiência que os "fiéis" ou chegam à heresia por si próprios, por esforço de reflexão (mais facilmente, se adoptam a metodologia das ciências), ou não vão lá. Se começam por tornar-se ecléticos, integrando na doutrina o que lá não está, se passam a aceitar um ou outro erro e limitação e se repetem os aspectos da doutrina apenas como retórica inconsciente, mais tarde ou mais cedo acabarão por chegar à heresia, se para tanto tiverem pachorra... e capacidade de abstracção.
Mas não posso deixar de reconhecer que a fé é uma graça e tanto e com uma capacidade de adaptação do arco da velha!

Lembro,porém, que os marxistas, em geral, são muito piores que o Marx: nem lhe chegam aos calcanhares em capacidade de abstracção nem tão pouco compreenderam o que de mais interessante ele formulou. Daí que que o melhor seja um retorno a Marx e, fundamentalmente, ao Capital (à obra dada como acabada e não a outros rascunhos não aproveitados).

Em meu entender, para criticar o Marx impõe-se que o tenhamos compreendido, doutro modo não descortinamos as inconsistências e as incoêrencias. E criticá-lo não envolve qualquer menosprezo pela sua obra, visa apenas tentar compreender melhor o modo de produção capitalista e, a partir dele, o capitalismo realmente existente (que é um objecto diferente daquele).

Mas seguir o Marx, falar em nome das suas concepções, deveria obedecer à mesma preocupação. Infelizmente, por comodidade, os fiéis preferem a repetição das ladainhas das liturgias e raramente se dão ao trabalho de conhecer os evangelhos.

JMC.


>Pois... isto é como as cerejas...
>Vejamos então que reflexões se me oferecem a propósito
>dos comentários de J.M.Correia:
>
>>1-Alargar o conceito de exploração até à
>>auto-exploração, parece-me um pouco forçado, não só
>>pela significação que tradicionalmente lhe foi
>>atribuído, como pelo non-sense que traduz, já que com
>>a auto-exploração todos podemos bem...;
>O problema aqui é um de "linguagem 'ciêntífica'"... A
>linguagem em que se entendem os investigadores (para o
>caso economistas, sociólogos, antropólogos e
>historiadores).
>Como disse, limito-me a seguir o uso consensual que é
>feito (por investigadores marxistas e não marxistas),
>da expressão "auto-exploração". Acrescento que a ideia
>(do foro da ética) de que a exploração pode ser "mais
>ou menos justa", ou de que "com essa exploração pode a
>gente bem", não tem cabimento em metodologias de
>investigação socio-económica.
>
>>3-A teoria marxista da exploração através da
>>apropriação do produto excedente criado pela força de
>>trabalho não tem consistência.
>Gostaria era de ver a demonstração. Isto, claro,
>adentro dos termos de referência do proprio marxismo,
>na medida em essa demonstração, para ser ela mesma
>coerente, não pode introduzir variáveis analíticas
>estranhas ao paradigma que se critica.
>Entretando, continua J.M.Correia:
>>Na concepção marxista,
>>que aqui em nada difere da dos economistas clássicos,
>>o valor das mercadorias é o que custa produzi-las;
>>neste sentido, o capitalista compra a força de
>>trabalho pelo seu valor e fica quite, não rouba nada a
>>ninguém, porque o valor excedente criado pertence ao
>>proprietário das forças produtivas. A coisa muda de
>>figura se o capitalista não compra a força de trabalho
>>pelo valor que os seus produtores lhe atribuem, mas
>>pelo valor que lhe é imposto por coerções
>>extra-económicas.
>Eu não diria que a "coisa muda figura". O que acontece
>com as coerções extra-económicas é apenas (...) uma
>maior ou menor intensificação da taxa de exploração.
>
>>É que se o valor da força de
>>trabalho é o do salário de subsistência, o que custa
>>reproduzir o trabalhador e a sua família, não se
>>compreende a diversificação salarial das diferentes
>>profissões na mesma época e região, em que o número de
>>calorias suficiente não varia para manter vivo um
>>trabalhador braçal ou um trabalhador qualificado (ou
>>antes pelo contrário), nem da mesma profissão na mesma
>>região mas em diferentes épocas.
>Aqui é que a "porca torce o rabo" (como soe dizer-se).
>E adianto-me já ao Ponto 4.) da exposição de
>J.M.Correia.
>É que não se trata apenas (...) de manter o
>trabalhador vivo (as calorias...), mas sim de o
>reproduzir (com as suas qualificações tecnologicamente
>actualizadas). Devo lembrar que Marx explicou com
>algum detalhe que o tal salário mínimo de subsistência
>era social e culturalmente determinado. Hoje é capaz
>de incluir o necessário e suficiente para que cada
>trabalhador possa comprar um telemóvel, um televisor
>(ou dois...), um PC, ligação à Internet, mandar os
>filhos para uma escola técnica, etc. etc... Além de
>que o custo de reprodução de um neurocirurgião é
>francamente mais elevado do que o custo de reprodução
>de um advogado ou de um contabilista. Mas assinalo que
>isto até é dos rudimentos da teoria laboral do
>trabalho, tal como formulada por Marx, que até difere
>de forma radical dos clássicos que o antecederam!
>
>>Agora se o salário é
>>a parte do produto compatível com uma determinada taxa
>>de lucro, a coisa muda de figura.
>Aqui estar-se-á (?...) a cometer o êrro de confundir
>as causas com os efeitos. Uma determinada taxa de
>lucro condiciona certamente a procura efectiva da
>força-de-trabalho. O que pode levar à sua
>sub-valorização (ou sobre-valorização), conforme as
>circunstâncias históricas concretas. Eu, por exemplo,
>tive a sorte de há 35 anos atrás ter "tropeçado" numa
>profissão então em ascensão (a Informática, ainda nem
>tinha esse nome...). Com a escassez da oferta eu (e
>muitos outros, claro!!!) beneficiei de uma
>sobrevalorização conjuntural que se foi diluindo ao
>longo dos ultimos 20 ou 30 anos... Mas isso não impede
>que o valor intrínseco da minha força de trabalho
>tivesse sido determinado pelo custo social de produzir
>os profissionais como eu. Entretanto são 'N' as
>profissões que entretanto pura e simplesmente deixaram
>de existir...
>Por outro lado, quando diz que
>>4-O valor da força de trabalho não pode ser
>>quantificado como o das restantes mercadorias por um
>>pequeno detalhe: é que ela não é produzida com os
>>mesmos factores de produção...
>Aqui receio bem que estejamos mesmo em profunda
>divergência.
>É que na produção de seres humanos os processos
>sociais e biológicos de reprodução da
>força-de-trabalho não são (DE UM ESTRITO PONTO DE
>VISTA DE ENGENHARIA SOCIAL!!!) muito diferentes da
>produção de golfinhos ou focas amestradas, ou de gado
>bovino para alimentar a cadeia mundial de "fast food".
>Por muito que isto possa chocar algumas mentes mais
>bem pensantes.
>
>>5-No modo de produção capitalista, a troca não é, de
>>modo algum, uma troca de equivalentes, a começar pela
>>troca desigual com a mercadoria força de trabalho, mas
>>não é nem mesmo na troca entre mercadorias produzidas
>>no mesmo sistema de referenciação do valor, e mesmo
>>tomando para padrão do valor o padrão marxista tempo
>>de trabalho abstracto socialmente necessário. Por
>>variadas razões que seria fastidioso enumerar, a troca
>>capitalista é feita na proporção da eficiência
>>produtiva (ou o que designa também por produtividade),
>>e o que ela efectiva é a redistribuição do lucro (dado
>>à partida);
>Concordo que a troca capitalista é feita na proporção
>da eficiência produtiva, mas chamo a atenção para o
>facto de isso incluir/abranger/subsumir o pagamento da
>força-de-trabalho pelo seu equivalente em bens e
>serviços necessários à sua reprodução social. E o
>facto de a troca capitalista conter também uma
>redistribuição do lucro não invalida em nada (bem pelo
>contrário!) a teoria laboral (marxista) do valor.
>Receio é que tenhamos desta "malfadada" teoria
>leituras um tanto ou quanto diferentes...
>
>>6-A teoria do valor ou o valor como tempo de trabalho
>>abstracto socialmente necessário (a teoria do valor
>>laboral, como o Statter se lhe refere) é outro
>>lamentável equívoco do Marx (que em nada lhe retira o
>>mérito por tê-la produzido). Ela adapta-se melhor a um
>>modo de produção anterior do que ao modo de produção
>>capitalista; a taxa de mais-valia constante, taxas de
>>lucro inversamente proporcionais à composição
>>orgânica, etc., etc., e a teoria da taxa de lucro
>>tendencialmente decrescente, dela derivada,
>>comprovam-no sobejamente. Embora para se discutir este
>>assunto seja necessário conhecê-lo, já que de outro
>>modo pode tornar-se inteligível, podemos resumir que o
>>padrão marxista do valor como tempo de trabalho
>>abstracto socialmente necessário é ineficaz na troca
>>capitalista, visto esta ser uma troca aleatória
>>(intermediada pelo dinheiro e desfasada no tempo), na
>>qual o valor das mercadorias consumidas como forças
>>produtivas se pode desviar, para mais ou para menos,
>>do valor tomado como padrão (problema que Marx tentou
>>resolver, infrutíferamente, com a chamada
>>transformação dos valores em preços de produção), e
>>que a partir dessa deformação toda e qualquer
>>determinação do valor passar a ser... indeterminada!
>
>Bom... aqui os equívocos são de facto demasiados...
>Desde logo o desfasamento no tempo e a intermediação
>do dinheiro... Já havia no Império Romano e entre as
>dinastias chinesas. Já vi referido por ilustres
>historiadores que um dos mais significativos
>contributos da civilização judaica para a nossa global
>civilização, foi justamente a ideia do juro...
>Depois, ao dizer-se que Marx falhou ao tentar resolver
>o chamado problema da transformação de valores em
>preços, seria bom lembrar que outros seus seguidores
>se encarregaram disso. E, tanto quanto sei, a
>contento...
>Se fôr preciso (e sem recorrer a grandes matemáticas)
>até eu me atrevo a explicar com algum detalhe, o que
>aliás já tive ocasião de aqui fazer (no DotmeCome.com).
>Finalmente, dizer que
>"a taxa de mais-valia constante, taxas de lucro
>inversamente proporcionais à composição
>orgânica, etc., etc., e a teoria da taxa de lucro
>tendencialmente decrescente, dela derivada",
>"comprovam sobejamente" que a teoria do valor laboral
>é "um lamentável equívoco de Marx" ou que "ela se
>adapta melhor a um modo de produção anterior do que ao
>modo de produção
>capitalista",
>É algo que deixa completamente baralhado. Pelo
>insólito de se afirmar como prova, exactamente o posto
>daquilo que é consensual (entre marxistas, claro), mas
>que vai ganhando terreno entre outros investigadores
>tais como os da escola institucionalista ou mesmo da
>escola keynesiana (a esses eu chamarei antes de
>"marxistas envergonhados")...
>Se o amigo José Manuel Correia tivesse para isso
>pachorra, sugeria-lhe a leitura do texto que aqui
>coloquei sobre a "Tendencia Decrescente ou Queda
>Tendencial da Taxa de Lucro"... É rudimentar e está
>algo atabalhoado (não satisfaz mínimamente os
>'standards' exígiveis para publicação formal em
>revistas da chamada "comunidade ciêntífica", mas as
>ideias mestras da demosntração estão lá.
>E creio, que por hoje é tudo.
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter

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