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Subject: Acumulação Sem exploração


Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 16/08/04 11:16
In reply to: Guilherme Statter 's message, "Re: Mercado sem assalariamento?!?..." on 13/08/04 1:40

Caro Guillherme Statter , Se a acumulação capitalista decorreu da apropriação da mais valia de uma força de trabalho quasi inesgotável , podemos referir que existem exemplos históricos de que esta se pôde realizar sem a sobreexploração observada no dealbar do capitalismo

Serão exemplos marcantes dessa exploração - a indústria textil em Inglatera , a agricultura extensiva no sul d e o despontar da indústria automóvel nos USA.

A acumulação ,levada a cabo na ex URSS teve contornos diferentes, numa Rússia já com sectores integrados no capitalismo ,teve necessidade após a Revolução de Outubro de dar um " salto de gigante " a caminho da sua autonomia e do progress industrial.

Não houve exploração sobre os trabalhadores e ,nesse sentido, o processo de acumulação passou pelo trabalho voluntário, em não poucos casos, pela utilização de reclusos e por uma inegável disciplina no trabalho, em alguns casos forçada , sem que a apropriação privada desse esforço que se quis e foi colectivo , fosse o seu leitmotiv.





O resultado e os fins reais desse esforço , isso já é outra história...>>Permitam-me entrar na conversa para discordar.
>Eu por mim permito, concerteza!!!
>Começo por lembrar que aquela frase era mesmo uma
>provocação "minuciosamente preparada" (enfim, tanto
>quanto se deve preparar um tema para discussão, num
>Mestrado em que nos pagam - com dinheiros públicos -
>para dar aulas...)
>E o resultado obtido nas duas ou três aulas seguintes
>dava origem a muitas e interessantes discussões e
>esclarecimentos. Tais como algumas das reflexões que
>aqui expende o amigo J.M.Correia.
>A ver...
>É comum a gente referir sempre as descobertas ou
>ensinamentos de Marx àcerca da exploração. Nos seus
>escritos Marx projecta sempre (ou quase...) a ideia de
>um "capitalista" explorador e dos "seus" trabalhadores
>explorados. Sabemos também que Marx extrapola e refere
>sistematicamente a classe dos "capitalistas" e a
>classe dos "assalariados". Mas não podemos ficar-nos
>por aí... Temos que extrapolar para a globalidade das
>classes "capitalistas" à escala do planeta, o mesmo
>fazendo para todas as classes que são exploradas.
>E é aqui que "a porca torce o rabo", como soe dizer-se:
>Utilizando apenas e tão só os termos de referência de
>Karl Marx (embora alguns já avançados pelos clássicos
>antes dele), mas extrapolando para o colectivo social
>vamos "recapitular" apenas alguns elementos:
>1. O salário de subsistência é o equivalente às
>necessidades de reprodução de uma família média de
>trabalhadores PARA FICAREM "exactamente" (...) COMO
>ESTÃO.
>2. As "mais-valias" (que resultam da exploração)
>assumem MUITAS formas e feitios. E não são todas
>absorvidas pelos "capitalistas" em consumo
>ostentatório.
>Parte vai para isso (os "luxos"..., a "boa vida"),
>outra parte vai para "investimento" (quando as coisas
>estão "a subir", vão para "investimento produtivo";
>quando as coisas estão "estagnadas" (ou mesmo a
>"descer"), vão para investimento
>especulativo-financeiro"... enfim, predominantemente).
>3. Muitos dos "capitalistas" até trabalham que se
>fartam... Aliás inúmeros estudos feitos em todos os
>países mais industrializados revelam hábitos de
>trabalho perfeitamente irracionais. Até inventaram o
>termo "workaholic"... Pessoalmente até conheço
>alguns...
>O que faz com que muitos desses "capitalistas"
>(numéricamente até são a esmagadora maioria) tenham
>pleno direito a receberem o seu (deles) ordenado (ou
>comissões sobre resultados, ou lá o que seja...), SEM
>CONTARMOS AQUI COM participações nos LUCROS!!!
>4. Ainda está por inventar um sistema produtivo que
>não exija "cargos de chefia" ou de "direcção" ou de
>"coordenação"... A forma como as pessoas chegam a ser
>"chefes", "managers", "directores" ou "coordenadores",
>já é uma outra história. Importante, mas outra...
>Ou seja, o amigo J.M.Correia desculpar-me-á, mas o
>mundo não está "simplesmente" dividido em dois: de um
>lado os "exploradores" e do outro lado os
>"explorados". São demasiadas as situações em que se
>fica sem saber "quem é que explora quem"!
>Agora passando aos seus argumentos:
>>Em meu entender, o
>>passado comprovou que é possível acumulação sem
>>exploração.
>Gostaria que indicasse uma situação no passado em que
>foi possível a acumulação sem exploração. Não sou
>doutor em História mas posso indicar-lhe alguns livros
>de historiadores (que se reclamam do marxismo) que
>defendem exactamente a tese oposta.
>
>>Aliás, de que vivem os
>>exploradores se não de parte da exploração não afecta
>>à acumulação?
>Parece estar aqui a partir do princípio de que TODOS
>os "capitalistas" são uns parasitas sociais. Que não
>há nenhuns "capitalistas" que tenham passado a vida a
>formar empresas produtdoras de bens e serviços (de que
>provavelmente o J.M.Correia faz uso correntemente).
>Há-de certamente concordar que muitos dos
>"capitalistas" se limitam a viver (ainda que muito
>bem...) de grandes ordenados, que são chorudos, mas
>não deixam de ser ordenados e que pagam uma
>determinada "prestação social".
>
>>Logo, se o trabalho humano é, desde há
>>muito, passível de gerar excedentes, estes podem muito
>>bem reverter para acumulação ou desenvolvimento da
>>capacidade produtiva.
>Claro que o trabalho é desde há muito passível de
>gerar excedentes. Antes do Capitalismo, durante e
>depois (será, concerteza). É justamente à sua
>apropriação (pelos próprios produtores ou pelos seus
>"ordenadores" (contratuais ou à força...)), é que se
>chama "exploração". Tal como em "explorar a terra"...
>E como a aplicação (reprodutiva) desses excedentes se
>chama "acumulação", temos que
>"não há acumulação sem exploração"!!!
>Quanto ao resto, acho que tem razão... Mas acaba por
>re-definir a ideia de "exploração", quando diz que:
>>Aquilo que designamos por exploração é, afinal, uma
>>repartição desigual do produto, por condicionamento
>>extra-económico do valor de troca da força de
>>trabalho, e não, como decorria da teoria marxista, uma
>>extorsão de um sobreproduto criado exclusivamente pelo
>>detentor da força de trabalho. Tanto assim é que cada
>>vez mais o trabalho humano directo, vivo, participa em
>>menor quantidade na produção e o sobreproduto é cada
>>vez maior. A questão não é, pois quem cria, mas quem
>>se apropria e na proporção em que o faz.
>
>E quando diz:
>>O melhor seria a aquisição da
>>consciência do salariato, nomeadamente, para lutar por
>>outras proporções da distribuição da riqueza criada e
>>por mais direitos de participação na tomada de decisão
>>social em geral,
>estamos 100% de acordo. Era aliás isso mesmo que eu
>queria dizer ao F.P.Redondo quando lhe dizia que o
>problema (para mim) não é a "exploração", mas sim a
>"consciencialização dos processos da mesma".
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter

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Replies:
Subject Author Date
Re: Acumulação Sem exploraçãoGuilherme Statter16/08/04 11:51


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