Tomei a iniciativa de trazer este artigo aqui para o Fórum dotecome porque me parece muito bom, bastante pertinente e merecedor de reflexão e discussão.
Toca naquele que será, em grande medida, no meu modesto ver, o problema chave para o comunismo actual: ultrapassar, ainda pois, concepções teóricas marcadas pelo estalinismo; recuperar as anteriores concepções comunistas que o estalinismo reprimiu e, em grande medida, conseguiu apagar; ultrapassar visões idealistas, nomeadamente acerca de Lénin, do partido bolchevique e da revolução de Outubro. Resumindo: há que superar a tremenda debilidade ideológica (expressão utilizada por Julio Anguita em finais de 1989) e o descrédito em que caiu o comunismo. Escalpelizar a história da União Soviética e das outras experiências falhadas de construção do socialismo que ela influenciou é fundamental. No sentido de tornar claro, como dizia Luís Sá, que não é em concepções sectárias e autoritárias, de limitação de liberdades e direitos que radica a essência do comunismo - antes muito pelo contrário. Ou seja: o chamado socialismo real não foi (nem os seus resquícios são) socialismo. E esclarecer ainda como é que em nome de um ideal tão justo e libertário se cometeram monstruosidades - para que nunca mais se repita e esclarecer os caminhos efectivos para a transformação da sociedade e a construção do socialismo.
Tenho no entanto a apontar a este artigo de Paulo Fidalgo um erro que me parece fundamental. A dada altura refere divergências que teriam sido dirimidas ainda em ambiente de democracia partidária no início da década de 1920 e que deram depois azo à emergência de Estaline. Enfim trata-se uma visão semelhante à que outro dirigente da Renovação Comunista, Edgar Correia, apresentou numa algo recente entrevista ao Diário de Notícias: que no final dos anos 20 do século passado se deu uma degeneração do PCUS.
Assim até parece que o estalinismo nasceu de geração espontânea!... O que Paulo Fidalgo chama de democracia partidária era mais uma oligarquia pluralista, num partido deformado pela guerra civil e pela degradação social da Rússia... um partido literalmente de guerra, de uma guerra onde ia sendo aniquilado... centralizado e militarizado - muito mais do que durante a clandestinidade. E o Estaline? Não era, desde 1912 membro do restrito comité central no interior da Rússia? No início da Revolução de 1917 até era um moderado defensor de uma revolução democrático-burguesa... Durante a Revolução de Outubro terá tido um papel mais relevante do que Bukarine... Os líderes intelectuais bolcheviques continuavam a discutir ideias... mas Estaline era mais próximo das camadas intermédias do partido, menos dotadas teoricamente, um tanto alheadas das discussões teóricas, militarizadas numa guerra fraticida e numa sociedade em decomposição. O partido tinha no início de 1917 uns 25 mil membros. Finda a guerra civil terá um milhão ou perto disso. A maior parte aderiu ao partido durante a guerra civil, marcados, formados por esta. Nunca tiveram tempo nem formação para estudar marxismo. Sobreviveram. Querem viver. A ‘oposição de esquerda’, nomeadamente Trotski não queria acabar com a NEP. Pretendia a industrialização simultaneamente com a NEP. A colectivização dos campos era necessária. O capitalismo rural (produção para o mercado) mitigara-se banstante com a revolução e a guerra. Propriedades muito pequenas, sem meios técnicos modernos etc. Para Trotski, a colectivização era para ser induzida económicamente e pelo exemplo de cooperativas pioneiras. Estaline só abandonou a NEP numa situação de crise ( os camponeses recusavam-se a vender produtos agrícolas para as cidades, ameaça de fome nas cidades) O regime fundara-se com o apoio da classe operária urbana mas era estrangeiro no campesinato - a esmagadora maioria da população. Outro factor a ter em conta nisto tudo é o isolamento da revolução num só país e perante a hostilidade e ameaça de guerra das grandes potências. Estaline foi um tirano, assassino em massa. Mas não nasceu assim. Foi-se fazendo. E o período que antecedeu a sua ascensão à liderança do regime... já era uma ditadura de partido único, um regime autoritário que governava sem o apoio e a legitimidade da esmagadora maioria da população, que de modo algum era imune à interacção com a sociedade - e à profunda regressão que esta conheceu com a guerra civil.
Resumindo, penso que Paulo Fidalgo não tem em devida conta as transformações operadas na sociedade e no próprio partido. E idealiza o partido no período anterior à ascensão de Estaline.
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