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Subject: Re: A miopia ocidental E Não SÓ , face à China


Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 6/09/04 10:46
In reply to: Jorge Nascimento Rodrigues 's message, "A miopia ocidental face à China" on 5/09/04 10:44

Estes dados são suficientemente objectivos para colocar a China na ordem do dia.
É que se os "ocidentais " pensam o que pensam sobre a realidade deste país ,também há muitas ideias feitas nos sectores progressistas que pecam por idealismo e falta de informações objectivas.
A ideia da China como " um País 2 Sistemas" é no mínimo polémica.
Como travar o galopar do capitalismo para além das fronteiras das " Zonas Económicas Especiais"? ,como legitimar a crescente disparidade de rendimentos entre a empobrecida agricultura e a florescente vida urbana? Como alimentar a ideia de que a direcção do PCC quer realmente o socialismo ,como afirmaram seus representantes na reunião de ppartidos irmãos realizada recentemente na cidade do México ?







Europeus e americanos olham o maior país do Planeta só
>pelo lado da dimensão potencial do mercado de consumo
>ou pelos salários de miséria óptimos para
>"deslocalizações". Mas são cegos a tudo o resto - aos
>sectores de tecnologia intensiva, às marcas globais
>emergentes, ao milhão de investigadores científicos,
>aos próprios sinais da geo-estratégia da potência
>emergente.
>
>Colou-se a etiqueta de "fábrica do mundo",
>especializada na "parte inferior" da cadeia de valor,
>nas chamadas commodities e na pirataria de produtos, e
>não se vislumbra a floresta. Peter Williamson, um
>inglês no INSEAD em Paris e em Singapura, e um dos
>teóricos da doutrina das "metanacionais", explica o
>que o levou a estudar a ascensão do país que em 2050
>terá o maior PIB do mundo.
>
>A China entrou definitivamente no radar ocidental.
>Subitamente não há publicação académica, especializada
>ou generalista que não puxe o país mais populoso do
>mundo para tema de capa. A revista brasileira "Veja"
>publicou recentemente um dossiê sobre "o planeta
>China", a última edição de 2003 da revista
>norte-americana de geo-política Foreign Affairs
>aborda-a no tema central ("China Takes off") e até a
>revista académica da gestão, Harvard Business Review
>(HBR), lhe dedicou o destaque ("HBR Spotlight: China
>Tomorrow").
>
>Para fechar este ramalhete de media, a consultora
>Goldman Sachs presenteou-a no próprio dia do
>aniversário da proclamação por Mao Zedong da actual
>República Popular da China com uma notícia que vai
>mudar o mundo - em 2039 a China ultrapassará os
>Estados Unidos em termos de PIB, e será a economia
>número um de meados do século XXI. Aquele país
>asiático vive, de facto, um período de euforia, em que
>o recente primeiro voo espacial tripulado foi a cereja
>em cima do bolo.
>
>O leitor perguntar-se-á do porquê deste súbito
>frenesim mediático. A resposta é, porventura,
>simplista - são sinais de uma mudança geo-política e
>geo-económica de fundo, óbvia, que não é mais possível
>ignorar. A China deverá passar a estar
>obrigatoriamente no SEU radar.
>
>Os intelectuais e ideólogos chineses falam já da
>legitimidade de uma nova postura - daguo xintai, ou
>mentalidade de grande potência.
>
>Os factos falam por si
>
>O facto mais marcante dos últimos anos é, sem dúvida,
>a emergência da China como potência económica mundial
>no século XXI. Hoje, ainda, está atrás da Alemanha, do
>Reino Unido e da França em termos de PIB. Mas em 2008
>- o ano dos Jogos Olímpicos - ultrapassará o PIB da
>Alemanha, ficando à frente daqueles países-chave da
>União Europeia. E, segundo o estudo da Goldman Sachs,
>ultrapassará o Japão em 2015 e os Estados Unidos em
>2039.
>
>Este calendário de ultrapassagens em 40 anos tem uma
>consequência geo-política imediata - o chamado Grupo
>dos 6 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido,
>França e Itália), ou dos 7 ou 8 (com a Rússia e
>Canadá), ficará obsoleto. «O G 6 não terá outra opção
>se não responder a este terramoto geo-económico e
>geo-político», diz-nos Peter Williamson, do INSEAD,
>que escreveu um artigo no dossiê da HBR. «Os membros
>do G 6 terão de fazer dois ajustamentos - ligar-se
>ainda mais estreitamente à emergência da China, da
>Índia, do Brasil e da Rússia; e prosseguir a
>integração da Europa se esta quiser continuar a ter
>influência num mundo de gigantes».
>
>A ascensão do PIB chinês nesta primeira metade do
>século baseia-se na dinâmica de crescimento: 8% no
>quinquénio até 2005, 7% entre 2005 e 2010, 6% entre
>2010 e 2015 e 5% entre 2015 e 2020, segundo
>estimativas da Goldman Sachs. Nenhum outro grande país
>"maduro" ou emergente terá um crescimento deste tipo -
>a Índia, Rússia e Brasil terão médias anuais mais
>baixas. Ou seja, a "locomotiva" mundial vai estar
>centrada na China.
>
>Os responsáveis chineses passaram a ter plena
>consciência do que designam por zhanlue jiyuqi, ou
>oportunidade estratégica neste século. Também visível
>no plano geo-político.
>
>Nesta base, os responsáveis chineses passaram a ter
>plena consciência do que designam por zhanlue jiyuqi,
>ou oportunidade estratégica. Também visível no plano
>geo-político.
>
>Depois dos ciclos ideológicos dos anos 60 e 70 -
>revolução cultural, combate ao "revisionismo"
>soviético, teoria dos "três mundos" e oposição ao
>hegemonismo das duas superpotências de então -, a
>China abriu o ciclo do "take off" com as reformas
>económico-politicas encabeçadas por Deng Xiaoping no
>final dos anos 70 que permitiram um crescimento médio
>anual de 9% ao longo de quase um quarto de século,
>entre 1978 e 2002. Depois desta primeira "fase", a
>liderança chinesa começou a olhar para fora, sobretudo
>depois da queda do Muro de Berlim - a estratégia de
>emergência no plano diplomático acelerou-se com marcos
>recentes importantes como o Tratado com a Rússia e a
>adesão à Organização Mundial do Comércio.
>
>Os ocidentais fazem a "leitura" de que se trata para a
>China de reganhar apenas um papel "regional" na Ásia
>Pacífico, contrabalançando o papel geo-político dos
>Estados Unidos (e das suas alianças com a Coreia do
>Sul ou Taiwan, ou mais recentemente com a Índia) e a
>força da economia japonesa (apesar da crise em que
>está envolvida, continua a ser a segunda economia do
>mundo). O que leva os ocidentais a uma visão limitada
>da emergência chinesa.
>
>Mais do que "fábrica do mundo"
>
>A mesma miopia dos ocidentais é patente na apreciação
>do papel da China nas cadeias mundiais de valor
>económico.
>
>A análise ocidental tende a olhar a China como a
>actual "fábrica" de mercadorias ("commodities", na
>designação técnica) a baixo custo. Os salários médios
>na China são 2,1% dos norte-americanos, o que também
>compara positivamente com os outros destinos de
>"outsourcing" como a Índia ou o segundo anel de
>"tigres" (como Indonésia, Filipinas e Malásia), que
>são mais caros.
>
>Fruto dessa imagem, a China passou de 3,9% das
>exportações mundiais em 2000 para 6% em 2002 e passou
>a ser o principal destino dos fluxos mundiais de
>investimento directo estrangeiro desde 2002, tendo
>ultrapassado os próprios Estados Unidos. Em 2004
>transformar-se-á no número dois mundial em termos de
>"stock" acumulado de capital estrangeiro, logo a
>seguir aos Estados Unidos.
>
>Em 2004 transformar-se-á no número dois mundial em
>termos de "stock" acumulado de capital estrangeiro,
>logo a seguir aos Estados Unidos.
>
>Os principais "clusters" da China ligados à sua
>especialização internacional são os isqueiros, com 70%
>do mercado mundial, o calçado, com 50%, os brinquedos,
>com 30%, e os acessórios de roupa com 20%.
>
>Contudo, por baixo destes números está uma realidade
>mais complexa. O país é cada vez mais um "hub" duplo
>na cadeia de valor - importa massivamente componentes
>e partes intermédias dos "tigres" asiáticos e do Japão
>- e daí os défices com Taiwan, Coreia do Sul, Japão,
>ASEAN e Austrália - e re-processa-as em produtos
>finais para o seu mercado doméstico e para a
>exportação, nomeadamente para os Estados Unidos (de
>onde resulta um superavit para a China). Esta dinâmica
>de duplo "hub" tem colocado inclusive na ordem do dia
>a agenda da integração económica na Ásia Pacífico -
>quer através da APEC como da ASEAN - e motivado
>discussões acaloradas sobre a necessidade de uma moeda
>única no futuro, refere-nos Peter Williamson.
>
>Contudo, é muito parcial julgar que a China joga
>apenas na "parte inferior" da cadeia de valor. Como
>nos referiu Peter Williamson: «Quer a China, quer a
>Índia não se ficarão pela posição de fábrica de
>'commodities'. No nosso artigo na HBR referimos
>numerosos exemplos de empresas chinesas que começaram
>pela 'parte mais baixa' da cadeia de valor para criar
>volume, mas que rapidamente se moveram para o valor
>acrescentado, para segmentos mais sofisticados».
>
>Por isso, a China tem entrado cada vez mais na área
>das tecnologias de informação (TI), quer no hardware
>como no software. As exportações chinesas nesta área
>são já 30 a 40% das suas exportações totais - o que
>aproxima a China dos outros "tigres" (mais de 50% das
>exportações da Malásia e Filipinas são nas TI; 50% no
>caso de Singapura, 45% no caso da Coreia do Sul e 40%
>nos casos da Tailândia e Taiwan).
>
>Segundo um estudo do Deutsche Bank Research, a China
>(juntamente com Hong Kong e Macau) já lidera o mercado
>mundial em 8 das 12 categorias de produtos da
>electrónica de consumo - mais de 50% do mercado de
>leitores de DVD, mais de 30% dos gravadores de DVD,
>dos computadores de secretária e dos "notebooks", mais
>de 25% nos telemóveis, TV a cores, PDA (assistentes
>pessoais digitais) e auto-rádios.
>
>Ainda que muita gente, no Ocidente, não o reconheça, a
>China está a começar a competir também em indústrias
>intensivas em conhecimento.
>
>Também no campo do software, segundo a revista
>Business Week (Agosto de 2003), a China poderá
>alcançar a posição da Índia - o principal local do
>mundo de "outsourcing" nesta área - em 2006-2007.
>
>O próprio "indicador de preparação para a economia do
>conhecimento" - criado pelo Deutsche Bank - revela
>que, numa escala de 1 a 10, com um máximo de 8,22 para
>os Estados Unidos, a China se situa já acima do meio
>da tabela, com 5,14, ainda que abaixo da Coreia do Sul
>(6,62), do Japão (6,82), e de Taiwan (7,15). «Ainda
>que muita gente, no Ocidente, não o reconheça, a China
>está a começar a competir também em indústrias
>intensivas em conhecimento», alerta, uma vez mais, o
>professor do INSEAD.
>
>Desconhecimento ainda maior é o relativo às marcas
>globais emergentes "born in China". «As grandes marcas
>dos EUA, japonesas e europeias não têm prestado
>atenção ao que chamámos de 'dragões escondidos'. São
>míopes sobre a China, apenas vendo a dimensão do
>mercado interno. Mas a China também é fonte de
>concorrência mundial. Na China olha-se a entrada na
>Organização Mundial do Comércio como a grande
>oportunidade para penetrar nos mercados ocidentais com
>produtos chineses! Os ocidentais esquecem-se disto em
>regra», sublinha-nos Peter Williamson.
>
>O governo chinês apoia abertamente 22 grandes empresas
>com potencial global, seis das quais pretendem entrar
>na galeria das 500 maiores do mundo e as outras 16
>afirmar marcas globais. Entre elas são de citar, a
>Haier com 50% do mercado de pequenos frigoríficos dos
>EUA, a Galanz com 1/3 do mercado mundial de
>microondas, a Legend com 20% do mercado mundial de
>placas-base dos computadores e a China International
>Marine Containers com 40% do mercado internacional de
>contentores refrigerados.
>
>Jorge Nascimento Rodrigues, Dezembro 2003, versão
>original publicada na revista Ideias & Negócios

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Replies:
Subject Author Date
Re: A miopia ocidental E Não SÓ , face à ChinaJosé Manuel Faria 6/09/04 18:20


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