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Date Posted: 3/09/04 21:19
Numa resposta a Paulo Fidalgo, diz-nos J.M.Correia o seguinte:
"A minha teoria da exploração não é esta, como está bem explícito na minha intervenção, e a resumo novamente: na troca, o vendedor de uma mercadoria cede a utilidade e o benefício que o comprador obtém com ela; a força de trabalho não é factor produtivo necessário e suficiente para a produção das mercadorias em geral; as mercadorias não são vendidas pelos seus valores (marxistas); por muitas razões, a força de trabalho é vendida abaixo do valor pela relação de forças em que se realiza a sua alienação (valor que o Estado burguês se encarrega de não permitir que ultrapasse dimensão que ponha em causa uma determinada taxa de lucro)."
Vamos a ver se esta teoria (ainda que resumida, claro) se pode analizar e mínimamente discutir:
1. "na troca, o vendedor de uma mercadoria cede a utilidade e o benefício que o comprador obtém com ela;"
Nisto não me parece que haja nada que contra-argumentar.
2. "a força de trabalho não é factor produtivo necessário e suficiente para a produção das mercadorias em geral"
Aqui já teremos que fazer algumas observações.
2.A - Hoje por hoje, de facto já não é muito fácil imaginar mercadorias produzidas só pela força de trabalho. Portanto, é razoável admitir que "a força de trabalho não é factor produtivo suficiente". Precisará sempre de quaisquer máquinas ou ferramentas.
2.B - Quanto à afirmação de que "a força de trabalho não é factor produtivo necessário para a produção das mercadorias em geral", já teremos que expressar reservas. Ou pelo menos simples ignorância.
Pergunta-se então, quais são essas mercadorias que são produzidas sem um infinitésimo de força-de-trabalho?
3. "as mercadorias não são vendidas pelos seus valores (marxistas);"
É uma afirmação que, embora requeira demonstração, se pode aceitar a título provisório até na medida em que o autor se propõe oferecer uma visão alternativa. Em todo o caso cabe lembrar que os preços por que são vendidas as mercadorias não são (nem deixam de ser 'marxistas').
São preços determinados pelas curvas de Oferta e Procura prevalecentes em cada mercado concreto. Sendo que, na perspectiva marxista esses preços oscilam sempre à volta de valores determinados por combinações variáveis de diversos tipos de 'capital' e de 'trabalho'.
4. "por muitas razões, a força de trabalho é vendida abaixo do valor pela relação de forças em que se realiza a sua alienação (valor que o Estado burguês se encarrega de não permitir que ultrapasse dimensão que ponha em causa uma determinada taxa de lucro)."
Para este autor, teremos então que, independentemente da forma como é (ou não) determinada o valor da força-de-trabalho, esta é vendida abaixo do seu valor.
Creio que podemos concluir que estaríamos então sistemáticamente perante situação de sobre-exploração. Isto claro para utilizar a terminologia do marxismo clássico. Na medida em que, para o marxismo clássico ou ortodoxo, mesmo quando a força-de-trabalho é vendida pelo seu exacto valor (de reprodução, etc...), mesmo aí há lugar ao processo de exploração.
O autor remete assim a questão para a "relação de forças". Ou seja da intervenção da Política no jogo de "oferta e procura" de força-de-trabalho nos mercados de trabalho.
Parece-me pois que J.M.Correia adopta como sua a posição dos clássicos da Economia Política (Adam Smith, David Ricardo ou John Stuart Mill, entre outros, claro), tão claramente criticada (apenas naquilo que se impunha) por Karl Marx.
Estaríamos assim em presença de um "ricardiano"?
Há muitos e é uma opção que há que respeitar...
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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