Não resisti a reproduzir aqui um texto do José Rafael Nascimento publicado hoje no DN. Afinal as coisas ainda são mais complicadas do que parece:
A essência da realidade
É impossível que algo ou alguém tenha criado o primeiro criador, sem que ele próprio tenha sido criado por outro. Por isso, nada pode existir, nem mesmo as suas dívidas. Ao juiz que recusar o argumento, lembre que a cada momento deixamos de ser quem éramos, além de que não faz sentido aplicar uma pena adicional a quem já está condenado à morte pelo simples facto de ter nascido. A não ser que, por prazer ou redenção, prefira o sofrimento, caso em que o mal até viria por bem.
O presente não passa de uma intersecção do passado com o futuro, os quais também não existem porque um já foi e o outro ainda há-de ser. Se inventar uma máquina do tempo, sempre pode comprar a taluda ou matar o seu avô, mudando assim o seu destino. Sem presente, não vale a pena falar do que quer que seja, e quem o faz só pode estar errado. Tanto mais errado quanto mais certo pensa que está.
A realidade é uma ilusão e o horror ao vazio explica porque tantos, sempre os mesmos, se esforçam por dizer tanto e tão pouco sobre uma realidade que não existe, através de um mediático postigo que descontextualiza e adultera. Mas a verdade é que também eu minto sempre, pelo que jamais saberei se aquilo que digo é falso ou verdadeiro, tal como ignoro por que, sendo tão inteligente, não consigo ser rico.
Adoro os paradoxos. Não só lhes acho piada, como considero indispensável tê-los em conta para compreender a realidade. Se não, vejamos: somos reis e escravos do consumo, defendemos a igualdade e a diferença, vivemos sós entre mais gente, a rapidez tira-nos tempo e com mais informação sentimos a incerteza.
Na política, busca-se a quadratura do círculo: ganham os que perdem, promete-se o que não se cumpre e o abaixamento de nível rende votos, engrandecendo políticos menores. Em compensação, votamos para «deseleger», permitindo a eleição de quem não gostaríamos de ver lá. Quanto pior revela-se sempre melhor, razão por que se trocássemos a União Europeia pela Africana, não só passaríamos do último para o primeiro lugar como talvez déssemos valor ao que perdíamos.
Felizmente, todo o senão tem uma bela e eu tive umas férias calmas por ter ficado onde estava, enquanto a confusão partia com quem a queria deixar. Você nunca mais terá de trabalhar porque, para chegar ao emprego, precisará sempre de cumprir metade da distância que lhe falta percorrer e, como continuará a ter aquilo que não perdeu, continuará rico porque não perdeu qualquer fortuna. Com esse dinheiro, poderá até importar as pirâmides do Egipto, tendo o cuidado de juntar as pedras com a mesma geometria e garantir que os egípcios não construirão novas pirâmides.
Apesar de só saber que nada sei, continuo a achar que a realidade não existe, tal como o ovo e a galinha nunca se precederam mutuamente. Reconheço, contudo, que não se pode ter opinião sobre o que não existe, pelo que a minha opinião é necessariamente falsa e, afinal, a realidade existe mesmo. Não se pode é estar certo disso, pode você ter a certeza.