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Subject: O meu testemunho


Author:
Maria Augusta Torres Pires
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Date Posted: 23:36:56 12/12/07 Wed

Testemunho de Augusta Torres Pires

11 de Dezembro de 2007

Hoje completam-se seis anos do meu sofrimento como doente fibromiálgica. Por essa razão, quero deixar aqui o meu testemunho para aquelas pessoas que se identificam e confrontam no dia-a-dia com esta doença.
Chamo-me Maria Augusta Gonçalves Torres Pires, tenho 49 anos e sou professora do 1º ciclo do Ensino Básico. Neste momento, exerço a minha actividade profissional na escola EB 2,3/S de Valença, destacada na Educação Especial( leccionando crianças que são portadoras de deficiência).
Ao longo deste tempo, tenho sofrido dores horríveis que, por vezes, se tornam insuportáveis. Dores essas que me tiram a vontade de viver e não me deixam realizar as tarefas mais simples do dia-a-dia. Tantas coisas que eu adorava fazer e que agora não tenho capacidade para as realizar!
Por vezes, são dores generalizadas por todo o corpo. Outras vezes, são dores localizadas, como: costas, ombros, pescoço, ancas, joelhos, cotovelos, pulsos e peito. Estas dores provocam-me um mal-estar geral, uma revolta interior por não poder aproveitar o que de bom a vida tem para me dar e uma grande frustração por não encontrar uma solução para o meu problema.
Logo pela manhã, já me levanto cansada e com dores. Mas, o pensar que tenho os “meus” meninos que me esperam na escola, faz com que eu vá à luta e não baixe os braços. Porque eles precisam de mim e eu descobri que eles são a minha melhor terapia. Enquanto estou na escola, eu tenho dores, mas há momentos em que me esqueço delas de tão absorta que estou no trabalho que faço com eles. É um trabalho bastante desgastante mas, ao mesmo tempo, aliciante e motivador. Temos momentos de muita alegria, ternura e cumplicidade, mas também acontece de haver momentos de grande stress e nervosismo. Cada objectivo que é alcançado, é uma vitória para eles e uma grande satisfação para mim. Adoro trabalhar com eles, são muito amigos, carinhosos e respeitadores. Que mais poderia eu desejar destas crianças que, no dia a dia, me retribuem com o seu sorriso e a sua meiguice, tudo aquilo que eu lhes possa dar.
Com o passar do tempo, fui criando uma “máscara” para que as pessoas que lidam comigo diariamente não se apercebam do meu mal-estar e não sofram com isso. Mesmo assim, nesse estado de sofrimento, consigo sorrir, sentir-me feliz e dar ânimo àqueles que dele necessitam. Sempre fui uma pessoa lutadora, por isso, não vou baixar os braços e desistir mas, pelo contrário, vou continuar a lutar com todas as minhas forças.
Passei três anos sem conseguir saber o que realmente estava a acontecer comigo. Andei a saltar de médico em médico e de especialidade em especialidade, mas não desisti de procurar . Todos os exames médicos que realizei não acusavam qualquer anomalia, a não ser uma hérnia discal na zona lombar (L5,S1), Escoliose e tendinites nos ombros.
Até que encontrei o Dr. Gouveia de Almeida (reumatologista) que descobriu qual era o meu problema e a quem agradeço do fundo do meu coração, não só por descobrir a minha doença, mas também por me ter elucidado como deveria lidar com ela. Quando o médico me disse que era uma doença que não tinha cura, fiquei triste. Mas, ao mesmo tempo senti-me aliviada por alguém me ter ajudado a descobrir afinal o que se passava comigo. Aconselhou-me a fazer a medicação que me receitou (anti-depressivo, relaxante muscular, anti-epiléctico e um ansiolítico para ter um sono repousante), assim como, a fazer exercício físico. Explicou-me que a medicação me iria ajudar a ter uma melhor qualidade de vida e que não deveria deixar de fazê-la.
Comecei a frequentar aulas de hidroginástica na piscina de Vila Nova de Cerveira, duas vezes por semana e a andar a pé. No princípio andava 5 minutos e tinha de me sentar, agora já consigo fazer as minhas caminhadas (30 a 40 minutos). Não ando todos os dias. Mas, sempre que posso, vou caminhar para a beira do rio Minho, que fica perto da minha casa . É um sítio maravilhoso, muito calmo e que me transmite muita paz e a tranquilidade que necessito para me sentir mais calma e relaxada. O Dr. Gouveia só não continua a ser o meu médico, porque se torna penoso fazer a viagem ao Porto (ir e vir no mesmo dia).
Neste momento, a médica que me acompanha é a Dr.ª Iva Brito, também reumatologista, e a quem agradeço tudo o que tem feito por mim. Além de ser uma óptima profissional é uma pessoa muito humana. Por vezes, há momentos em que basta uma palavra ou um gesto para que nos sintamos melhor e, principalmente, mais aliviados e a senhora Dr.ª muito tem feito por mim nesse aspecto. Continuo a fazer a medicação (que neste momento, está reduzida para o anti-epiléctico e o ansiolítico) e o exercício físico, pois é fundamental para que eu me sinta melhor e capaz de enfrentar o meu dia a dia.
Tive de mudar certos hábitos e de me adaptar à nova realidade. Não posso dizer que foi fácil. Passei por momentos muito difíceis, em que não aceitava a minha nova condição de não conseguir fazer as coisas que até esse momento fazia sem custo e que agora se tornam penosas e, por vezes, impossíveis de fazer.
No princípio da minha doença, andava muito deprimida, não tinha vontade de sair, de conviver e, por vezes, chegava a ser mal compreendida por parte de algumas das pessoas que me rodeavam. Mas, tive sempre o apoio do meu marido que, mesmo pensando (algumas vezes) que o tratamento que estava a fazer não iria resultar, nunca deixou de me apoiar e de me acompanhar. Assim como os meus filhos, que também têm sofrido com o meu estado de saúde. Por muito que eu queira esconder e não lhes dar essa preocupação, já tem acontecido de chegarem a casa e eu estar estendida na carpete da sala, ou deitada na cama para aliviar as minhas dores. Tenho a certeza que sofrem ao verem-me nesse estado.
Hoje vivo com algumas limitações mas, o facto de ter pessoas que me amam e me apoiam dá-me esperanças para continuar a minha luta e pensar que existe um amanhã que será melhor que hoje.
Senti necessidade de escrever este testemunho, para de algum modo libertar o meu espírito e falar abertamente sobre esta doença. Espero que também sirva para ajudar alguém que se encontre nesta situação,que não pense que está sozinho e que haverá sempre um amanhã pelo qual temos de lutar.
Parafraseando Madre Teresa de Calcutá: “ A VIDA É VIDA: LUTA POR ELA”.
Não poderia finalizar este testemunho sem deixar um agradecimento a todas as pessoas (familiares, amigos ou outras) que, de alguma maneira, me têm ajudado nesta caminhada.
Um obrigada, com um carinho muito especial àqueles que tanto amo: ao meu marido Egas Pires, aos meus filhos Hugo e André e à minha nora Sónia.
- À minha irmã Fernanda (Nu).
- À tia do meu marido, Rosalina Pires.
- À minha amiga Mimi Lages.
- Ao Doutor Gouveia (reumatologista).
- À Doutora Iva Brito (reumatologista).
- À Andreia (fisioterapeuta).
- Ao Luís Quarteu (monitor de hidroginástica).
- A ti Leo (osteopata crânio sacral), que tanto me tens ajudado a aliviar a minha dor (quer a nível físico, quer a nível emocional), um agradecimento muito especial e que Deus te ajude e proteja para que possas continuar a ajudar aqueles que sofrem.
O meu muito obrigada a todos.

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