| Subject: Re: É preciso rediscutir o papel do esquerdismo no processo revolucionário |
Author:
Fernando Antunes
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Date Posted: 13:32:26 05/01/04 Sat
In reply to:
paulo fidalgo
's message, "É preciso rediscutir o papel do esquerdismo no processo revolucionário" on 13:04:57 05/01/04 Sat
Há 30 anos, no meu grupo de amigos era o único do PCP. Os outros ou alinhavam pela LCI, ou pelo MES, ou eram da LUAR, ou da UDP ou das brigadas. Um dos meus irmãos era do MRPP.
Dávamo-nos todos bem, éramos amigos, passámos noites em grandes discussões, viemos a Lisboa a todas as manifestações dos SUV’s, disputámos paredes nas colagens de cartazes e insultámo-nos uns aos outros sem mais consequências.
Quando foi do assalto à Embaixada de Espanha, fui o único que se recusou a participar e ficou em casa. Quando foi do discurso do Vasco Gonçalves em Almada, foi a única vez que não lhes telefonei a oferecer boleia, porque o Vasco Gonçalves era então o maior divisor entre nós todos.
Mas lembro-me quando saí da sauna em que se tinha transformado aquele pavilhão gimno-desportivo de ter dado de caras com a maior parte deles. Tinham ficado em casa a ouvir o discurso pela rádio e às tantas não resistiram, meteram-se no carro e vieram a correr chegando quando já estava a acabar...
Antes, até essa altura, foram noites e dias de furiosas discussões de todos contra mim em particular e o PCP em geral. Todos nos lembramos do que então éramos acusados, particularmente pelo MRPP, mas todos nos lembramos também que essas críticas não eram denunciadas pelos outros, que alinhavam com elas...
Porque sabia (e sei) da justeza do que fazíamos e defendíamos (nós os comunistas, os do PCP) essas discussões ajudaram a reforçar ainda mais as minhas convicções. Na altura cada um ficou com as suas – ninguém convenceu ninguém.
Com o tempo, com a vida, com a família, fomo-nos separando. Eu saí da terra, fico muito contente quando na Festa do Avante vou encontrando um ou outro. Falamos dos filhos, perguntamos pelos outros, vamos sabendo que um é vereador do PS que outro é Director disto ou daquilo (fingimos todos acreditar que é por competência e direito). Eu continuo no PCP. O meu irmão formou-se, tem casa com piscina para os fins-de-semana e só frequenta a família no Natal. E já não discutimos. Já não vale a pena.
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