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Vítor Dias, no "Semanário", 04/02/05
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Date Posted: 5/02/05 0:35:30
Aviso
Vítor Dias*, Semanário, 04/02/05
(...)
A segunda observação tem a ver com um enésimo testemunho de que alguns responsáveis do Bloco de Esquerda parecem ter caído em pequeninos no caldeirão da arrogância e da sensibilidade tipo flor de estufa.
Com efeito, beneficiando de um privilégio que naquelas páginas não é concedido a qualquer comunista, Fernando Rosas, em artigo no “Público” (2/2), onde coloca o BE no centro do mundo, veio a lamentar “esta opção do PCP acerca de quem são os adversários nesta disputa eleitoral, privilegiando os ataques ao PS e ao BE”.
Por detrás desta falácia não está apenas que, sem especial admiração, Fernando Rosas reduza o discurso real dos dirigentes do PCP aos títulos ou temas que, em regra, a imprensa escolhe e, segundo os quais, parece que só o PCP sempre “ataca” alguém.
Está também e sobretudo a ideia de que o BE é uma entidade política vocacionada para um estatuto singular de impunidade e intocabilidade, que lhe permite tudo sobre os outros e que aos outros nada permite sobre o BE.
É assim que o BE pode espalhar, num folheto de propaganda, que foi ele que inscreveu na agenda política a despenalização do aborto e que foi com ele que começou a reforma fiscal, a resposta à violência doméstica contra as mulheres, a consideração dos toxicodependentes como doentes em vez de serem presos e também que se fez frente às direitas no poder, mas já o PCP não pode lembrar que, em todas essas causas ou batalhas, o PCP teve ou um papel pioneiro ou fundamental que só por intrínseca desonestidade política se pode querer apagar ou menosprezar.
E, do mesmo passo, á também assim que, por exemplo, Miguel Portas pode chamar “milagreiro” ao programa eleitoral do PCP ou sentenciar que entre a Europa que o PCP defende e Europa nenhuma não há diferença, ou que Teixeira Lopes pode atrevidamente fustigar uma suposta “intolerância” do PCP na sua vida interna, é claro que nada disto são “ataques” ao PCP sendo apenas um inocente e irrepreensível debate de ideias.
Mas ainda e para terminar: é esta mesma condenável atitude mental que pode explicar que Fernando Rosas possa escrever artigos devastadores sobre a orientação do PS (por vezes, bem mais vilolentos que as posições do PCP) e depois venha, com o ar mais tranquilo deste mundo e copiando curiosamente Manuel Alegre, acusar o PCP de fazer do PS o seu “adversário principal”.
Finalmente, uma curta mas necessária observação – tipo declaração para a acta – sobre o lixo que foi despejado para cima e para dentro da campanha eleitoral.
Apenas para dizer que podem chamar-nos conservadores, defensores do autismo político ou cultores de princípios rígidos e formais e que podem querer demonstrar-nos que só a entrada do lixo no espaço público formal (designadamente imprensa, rádio e televisão) assegura a sua denúncia crítica, mas – tudo visto e ponderado – continuamos a pensar que foi um mau passo que a imprensa séria começasse a dizer que havia “boatos” e que a campanha ia ser “suja” (e os leitores a perguntar “mas quais são?” ou “mas suja porquê?”) e que o lixo devia ter sido firmemente confinado aos circuitos clandestinos e cobardes onde vogava.
*Dirigente do PCP
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