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Guilherme Statter
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Date Posted: 14/01/05 16:11:20
O caso da África do Sul
Por razões que não importa muito aqui detalhar, mas que se poderão adivinhar ao longo deste curto texto, a África do Sul é bem capaz de poder ser considerada o país emblemático do funcionamento do sistema capitalista à escala planetária do "sistema-mundo".
Uma espécie de laboratório de ciências sociais. Ali se cruzam todas as perspectivas analíticas: a etnia, a classe, a cultura, o economismo, a industria, a agricultura, o comércio, a demografia, o meio ambiente... a geografia, a geologia e a história.
A África do Sul começa por ser inserida no sistema-mundo em expansão (no século XVII) pela simples razão de estar ali onde está... A meio caminho (marítimo) entre as duas extremidades então mais desenvolvidas e economicamente activas da economia mundial. A Europa e a Ásia de Leste e Sudeste. Começou por ser uma espécie de estação de reabastecimento nas rotas transcontinentais da Companhia holandesa das Índias Orientais.
Primeiras conclusões: O emergente capitalismo privado dos holandeses foi "mais esperto" do que o "temporão mercantilismo" do estado português.
E foi a geografia que primeiro determinou a inserção da África do Sul no "sistema-mundo".
Depois de dois séculos de relativa autarcia com base numa agricultura e pastorícia rudimentares, a descoberta de diamantes em Kimberley e de ouro no Transvaal (último quartel do século XIX), a África do Sul tornou-se na "última fronteira" da expansão do sistema no virar do século XIX para o século XX. Para lá convergiram grandes capitais, (britânicos, alemães, belgas, franceses) e aventureiros e trabalhadores vindos da Europa, da Califórnia e da Austrália. Era mais uma – a última – "corrida ao ouro".
Em pouco mais de 20 anos a economia agro-pastoril dos africanderes ("holandeses" nativos...) e dos africanos "propriamente ditos", transformou-se numa economia industrial "vibrante" e "em grande expansão". Também ali houve uma espécie de "revolução ‘bolchevique’" (a Rebelião do Rand) em 1922. Esmagada com a intervenção directa das forças armadas.
Segundas conclusões:O capitalismo em expansão aproveita todas as oportunidades de aplicação rentável e não brinca em serviço quando os seus investimentos são ameaçados.
Por outro lado, foi a geologia quem determinou um segundo modo de incorporação no "sistema-mundo".
Depois de esmagada a "Rebelião do Rand" foi preciso arrumar a casa e garantir mão-de-obra para as explorações mineiras, para as actividades industriais subsidiárias e para as explorações agrícolas comerciais emergentes.
Sucede que os "africanos" (os negros...) tal como outros povos, gostam pouco de trabalhar "de borla" para outros e preferiam continuar na sua tradicional economia de subsistência. Assim como assim...
Sucede também que as minas de ouro da África do Sul – sendo embora as maiores reservas conhecidas de todo o mundo – têm uma densidade de mineral "puro" MUITO mais baixa do que noutras jazidas conhecidas. Para produzir um quilo de ouro são precisas 100 toneladas de minério em bruto, sendo que esse minério em bruto está por vezes a dois ou três (e até quatro...) quilómetros de profundidade.
Moral da estória: só com uma mão-de-obra MUITO barata é que aquilo vale a pena.
Solução: um regime social de regulação e aproveitamento da mão-de-obra único na história da Humanidade. Vulgarmente conhecido por "apartheid".
Terceira conclusão: Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
O "mar" é aqui a potência naval britânica que em princípios do século XX ainda dominava os oceanos. E a economia mundial claro. A "rocha" são aqui os africanderes ("nativos" de origem europeia, predominantemente holandeses, franceses e alemães) e enraízados na agrico-pastorícia. E a quem os britânicos endossaram o encargo de "gerir" o capitalismo para ali transplantado.
Está-se mesmo a ver quem é o mexilhão desta estória...
Ao fim de mais ou menos uns 80 anos, os africanderes alcançaram o seu objectivo primordial: a paridade social e económica com os antigos senhores britânicos, que os tinham submetido depois da Guerra dos Boers. Até o Lenine escreveu sobre isso... a tal guerra.
Na década de Oitenta do século XX, os capitalistas africanderes "falavam" já de igual para igual com os seus pares britânicos (e de outras nacionalidades...).
Moral desta estória: o que era bom era acabar com esta vergonha do "apartheid" e dar o poder à esmagadora maioria da população. Além de que "isto" (a gestão deste sistema) já dava mais chatices que benefícios...
Quartas conclusões:O capitalismo acabou por contribuir decisivamente para uma (para muito boa gente) surpreendente transição democrática. E foi a tecnologia (designadamente instrumentos de mobilidade do capital financeiro como a Rede SWIFT) que permitiram aos capitalistas africanderes o integrarem-se de forma plena na globalidade do "sistema-mundo".
Depois da transição democrática e a chegada ao poder do ANC (com a ajuda e participação da "CGTP" e do PC lá do sítio), alguns grandes grupos financeiros pediram e obtiveram autorização para transferir as suas sedes para Londres (entre outros "paraísos financeiros").
No caso da Anglo-American Corporation (com um património em todo o mundo que é estimado em cerca de duas vezes o PIB português) a companhia obteve autorização para transferir a sua sede mundial para Londres passando a estar aí – na Bolsa de Londres, claro - aquilo que eles designam por "listagem primária". A razão invocada foi a de que a Bolsa de Joanesburgo era demasiado pequena para as ambições e necessidades de capitalização (através da cotação em bolsa) da AAC e dos seus "grandes projectos".
Mas eis senão quando, passados uns tempos, numa entrevista a um periódico inglês, o chefão máximo da AAC afirmou – em Londres - que os investimentos na África do Sul continham um considerável elemento de risco.
O Presidente da África do Sul (Thabo Mbeki) "foi aos arames" (sentiu-se aldrabado...).
Quinta e última conclusão: A globalização tem destas coisas...
Entretanto a África do Sul continua a ter um dos maiores índices de desigualdade social e económica do mundo. Apesar de tudo e por força de algumas résteas de keynesianismo e por força da "CGTP" e do PC lá do sítio, aquilo (as desigualdades) tem melhorado um pouco.
Por outro lado, a herança estrutural é mesmo MUITO pesada. Aquilo continua a ser um gigantesco campo mineiro – com algumas fábricas de empresas multinacionais para "alegrar a paisagem" (se você é o felizardo condutor de um Mercedes-Benz Série C, é capaz de conduzir um carro fabricado em Port Elizabeth). Mas de resto, os problemas estruturais de recursos humanos...
A África do Sul (que nunca teve nenhuma ditadura comunista... eh eh eh) tem cerca de 40% de desemprego... O HIV/SIDA assumiu proporções endémicas (estima-se que um em cada dois jovens de 15 anos vai morrer de Sida...)
Mas, como é evidente, nada disto tem a ver com o funcionamento do sistema capitalista, à escala global do nosso "sistema-mundo".
São os brancos africanderes que eram uns malandros... E os brancos ingleses que são uns hipócritas.
É, só pode ser...
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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