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Subject: Afinal alguém sabe Inglês aqui


Author:
observador curioso
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Date Posted: 10/01/05 22:53:38
In reply to: Monoglota 's message, "Re: Da Natureza e Causas da Generosidade das Nações" on 10/01/05 21:39:59

E abaixo o elitismo pseudo intelectual!



>>Acabo de receber este editorial.
>>Como me parece muito oportuno transcrevo uma parte.
>>Peço desculpa a quem não ler bem Inglês.
>>
>Para esses, cá está em portugues:
>
>O outro tsunami
>por John Pilger
>
>Os cruzados ocidentais, Estados Unidos e Grã-Bretanha,
>estão a dar às vítimas do tsunami uma ajuda inferior
>ao custo de um bombardeiro Stealth ou de uma semana da
>sangrenta ocupação do Iraque. O gasto com a festa da
>próxima posse de George Bush reconstruiria grande
>parte da linha costeira do Sri Lanka. Bush e Blair
>aumentaram as suas primeiras gotas de "ajuda" só
>quando ficou claro que os povos de todo o mundo
>estavam espontaneamente a oferecer milhões e que se
>anunciava um problema de relações públicas. A actual
>"generosa" contribuição do governo de Blair é um
>dezasseis avos dos 800 milhões de libras gastos com o
>bombardeamento do Iraque antes da invasão e cerca de
>um vigésimo da doação de 1000 milhões de libras,
>conhecida como empréstimo suave (soft loan), ao
>militares indonésios a fim de que pudessem adquirir
>caças-bombardeiros Hawk.
>
>Em 24 de Novembro, um mês antes do abalo do tsunami, o
>governo Blair deu o seu apoio a uma feira de armas em
>Djakarta "destinada a preencher a necessidade urgente
>de as forças armadas [indonésias] reverem as suas
>capacidades de defesa", relatou o Jakarta Post. Os
>militares indonésios, responsáveis pelo genocídio no
>Timor Leste, assassinaram mais de 200 mil civis e
>"insurrectos" em Aceh. Entre os expositores na feira
>de armas estava a Rolls-Royce, fabricante dos motores
>para os Hawks, os quais, juntamente com os veículos
>blindados Scorpion fornecidos pela Grã-Bretanha,
>metralhadoras e munições, estavam a aterrorizar e
>matar o povo em Aceh até ao dia em que o tsunami
>devastou a província.
>
>O governo australiano, actualmente a cobrir-se de
>glória com a sua modesta resposta ao desastre
>histórico acontecido aos seus vizinhos asiáticos,
>treinou secretamente as forças especiais da Indonésia,
>Kopassus, cujas atrocidades em Aceh estão bem
>documentadas. Isto está em conformidade com os 40 anos
>de apoio australiano à opressão na Indonésia,
>notavelmente com a sua devoção ao ditador Suharto
>enquanto as suas tropas ensanguentavam um terço da
>população do Timor Leste. O governo de John Howard —
>notório pelo seu aprisionamento de crianças que
>procuravam asilo — está actualmente a desafiar o
>direito marítimo internacional ao negar a Timor Leste
>o que lhe é devido em royalties do petróleo e do gás,
>cujo valor monta a US$ 8 mil milhões. Sem esta
>receita, Timor Leste, o país mais pobre do mundo, não
>pode construir escolas, hospitais e estradas ou
>proporcionar trabalho ao seu jovem povo, 90 por cento
>do qual está desempregado.
>
>A hipocrisia, o narcisismo e a propaganda de ludibrio
>dos senhores do mundo e do seus apaniguados estão em
>perseguição cerrada. Abundam superlativos quanto às
>suas intenções humanitárias enquanto a divisão da
>humanidade entre vítimas valiosas e não valiosas
>domina o noticiário. As vítimas de um grande desastre
>natural são valiosas (embora não se saiba por quanto
>tempo) ao passo que as vítimas dos desastres imperiais
>fabricados pelo homem são sem valor e frequentemente
>não mencionáveis. De certo modo, os repórteres não
>podem induzir-se a si próprios a relatar o que está a
>acontecer em Aceh, apoiado pelo "nosso" governo. Este
>espelho moral que só reflecte um lado permite-nos
>ignorar um rastro de destruição e carnificina que
>constitui um outro tsunami.
>
>Considere as agruras do Afeganistão, onde a água limpa
>é desconhecida e a morte de recém-nascidos é comum. Na
>conferência do Partido Trabalhista em 2001, Tony Blair
>anunciou a sua famosa cruzada para "reordenar o mundo"
>com a promessa: "Ao povo afegão, assumimos este
>compromisso... Nós não o abandonaremos...
>trabalharemos convosco para assegurar [que se encontra
>um caminho] para sair da pobreza miserável que é a sua
>presente existência". O governo Blair estava prestes a
>tomar parte na conquista do Afeganistão, no qual
>morreram 25 mil civis. Em todas as grandes crises
>humanitárias de que se tem memória, nenhum país sofreu
>mais e nenhum foi menos ajudado. Apenas 3 por cento de
>toda a ajuda internacional gasta no Afeganistão foi
>para a reconstrução, 84 por cento é para a "coligação"
>conduzida pelos militares americanos e o resto são
>migalhas para ajuda de emergência. Aquilo que é muitas
>vezes apresentado como rendimento da reconstrução é
>investimento privado, tais como os US$ 35 milhões que
>financiarão um proposto hotel de cinco estrelas,
>sobretudo para estrangeiros. Um conselheiro do
>ministro dos assuntos rurais contou-me em Cabul que o
>seu governo recebera menos de 20 por cento da ajuda
>prometida ao Afeganistão. "Nós não temos dinheiro
>suficiente para pagar salários, sem falar em plano de
>reconstrução", disse ele.
>
>A razão, naturalmente que não falada, é que os afegãos
>estão entre as vítimas menos valiosas. Quando um
>helicóptero americano canhoneou repetidamente uma
>remota aldeia rural, matando até 93 civis, um oficial
>do Pentágono foi levado a declarar: "As pessoas ali
>estão mortas porque nós quisemos que elas morressem".
>
>Tornei-me agudamente consciente deste outro tsunami
>quando cobri o Cambodja em 1979. Após uma década de
>bombardeamento americano e de barbaridades do Pol Pot,
>o Cambodja jazia tão prostrado como Aceh está hoje. A
>doença somava-se à fome e o povo sofria um trauma
>colectivo que poucos podiam explicar. Mas durante nove
>meses após o colapso do regime do Khmer Vermelho não
>chegou qualquer ajuda efectiva de governos ocidentais.
>Ao invés disso, um embargo ocidental apoiado pela
>China foi imposto ao Cambodja, negando-lhe
>virtualmente toda a maquinaria de recuperação e
>assistência. O problema para os cambojanos era que os
>seus libertadores, os vietnamitas, tinham vindo do
>lado errado da guerra fria, pois recentemente haviam
>expulsado os americanos da sua pátria. Aquilo
>tornava-os vítimas não valiosas, descartáveis.
>
>Algo semelhante, o amplamente silenciado cerco imposto
>ao Iraque durante a década de 1990 e intensificado
>durante a "libertação" anglo-americana. Em Setembro
>último a Unicef relatou que a desnutrição entre as
>crianças iraquianas havia duplicado sob a ocupação. A
>mortalidade infantil está agora aos níveis do Burundi,
>mais elevada do que no Haiti e no Uganda. Há pobreza
>lancinante e uma escassez crónica de remédios. Os
>casos de cancro estão a aumentar rapidamente,
>especialmente cancro da mama, a poluição radioactiva
>está generalizada. Mais de 700 escolas estão
>danificadas por bombardeamentos. Dos milhares de
>milhões que se disse terem sido afectados à
>reconstrução no Iraque, apenas US$ 29 milhões foram
>gastos, a maior parte dos quais com mercenários a
>protegerem estrangeiros. Pouco disto é notícia no
>ocidente.
>
>Este outro tsunami é em escala mundial, provocando 24
>mil mortes a cada dia devido à pobreza, à dívida e à
>divisão que são os produtos de uma super-seita chamada
>neoliberalismo. Isto foi reconhecido pelas Nações
>Unidas em 1990 quando convocou os Estados mais ricos
>para uma conferência em Paris com o objectivo de
>activar um "programa de acção" para resgatar as nações
>mais pobres do mundo. Uma década depois, todos os
>compromissos assumidos pelos governos ocidentais foram
>virtualmente rompidos, tornando a asneirada de Gordon
>Brown acerca de o G8 "partilhar o sonho britânico" de
>acabar com a pobreza naquilo mesmo — uma asneirada.
>Muito poucos governos ocidentais honraram a "linha de
>base" das Nações Unidas e concederam uns miseráveis
>0,7 por cento ou mais do seu rendimento nacional à
>ajuda além-mar. A Grã-Bretanha deu apenas 0,34 por
>cento, tornando o seu "Department for International
>Development" uma brincadeira de mau gosto. Os EUA
>deram 0,14 por cento, a porcentagem mais baixa de
>qualquer Estado industrial.
>
>Em grande medida invisível e não imaginável pelos
>ocidentais, milhões de pessoas sabem que as suas vidas
>foram declaradas supérfluas. Quando tarifas e
>subsídios a alimentos e combustível são eliminados sob
>um diktat do FMI, pequenos agricultores e camponeses
>sem terra sabem que enfrentam o desastre, razão porque
>os suicídios entre agricultores são epidémicos.
>Somente os ricos, diz a Organização Mundial de
>Comércio, podem proteger as suas indústrias e
>agricultura internas; somente eles tem o direito de
>subsidiar exportações de carne, cereais e açúcar e
>fazer dumping deles nos países pobres a preços
>artificialmente baixos, destruindo assim vidas e meios
>de vida.
>
>A Indonésia, outrora descrita pelo Banco Mundial como
>"um aluno modelo da economia global", é um caso
>evidente. Muitos daqueles levados à morte em Sumatra
>no Boxing Day foram desapropriados pelas políticas do
>FMI. A Indonésia tem uma dívida impagável de U$ 100
>mil milhões. O World Resources Institute diz que a
>portagem deste tsunami fabricado pelo homem atinge
>13-18 milhões de mortes de crianças por ano em todo o
>mundo, ou 12 milhões de crianças abaixo da idade de
>cinco anos, segundo um Relatório de Desenvolvimento
>Humano das Nações Unidas. "Se 100 milhões foram mortos
>nas guerra formais do século XX", escreveu o cientista
>social australiano Michael McKinley, "por que são eles
>privilegiados em compreensão em relação às mortes
>anuais de crianças desde 1982 devido aos programas de
>ajustamento estrutural?".
>
>Que o sistema que provoca isto tenha a democracia como
>o seu grito de guerra é uma zombaria que os povos de
>todo o mundo cada vez entendem melhor. Está a aumentar
>o nível de consciência, o que proporciona mais do que
>esperança. Desde que os cruzados em Washington e
>Londres malbarataram a simpatia mundial pelas vítimas
>do 11 de Setembro de 2001 a fim de acelerar a sua
>campanha de dominação, avança uma inteligência pública
>crítica e encara Blair e Bush como mentirosos e as
>suas acções culpáveis como crimes. A presente efusão
>de ajuda às vítimas do tsunami entre pessoas comuns no
>ocidente é uma recuperação espectacular das políticas
>de comunidade, moralidade e internacionalismo negadas
>pelos governos e pela propaganda corporativa. Ao ouvir
>turistas retornando de países abalados, dominado pela
>gratidão pelo modo gentil e expansivo como alguns dos
>mais pobres entre os pobres lhes deram abrigo e
>cuidaram deles, ouve-se a antítese das "políticas" que
>só cuidam da avareza.
>
>"A mostra mais espectacular de moralidade pública que
>o mundo já viu", foi como a escritora Arundhati Roy
>descreveu a cólera anti-guerra que sacudiu o mundo
>quase dois anos atrás. Um estudo francês estima agora
>que 35 milhões de pessoas manifestaram-se naquele dia
>de Fevereiro [de 2003] e afirma que nunca houve nada
>como isso, e que era apenas o princípio.
>
>Isto não é retórica; a renovação urbana não é um
>fenómeno, é ao invés a continuação de uma luta que por
>vezes pode parecer estar congelada mas é uma semente
>por baixo da neve. Tome-se a América Latina, há muito
>declarada invisível e supérflua no ocidente. "Os
>latino-americanos foram treinados para a impotência",
>escreveu outro dia Eduardo Galeano. "Uma pedagogia
>transmitida desde tempos coloniais, ensinada por
>soldados violentos, professores timoratos e frades
>fatalistas, enraizou nas nossas almas a crença de que
>a realidade é intocável e que tudo o que podemos fazer
>é engolir em silêncio as desgraças que cada dia nos
>traz". Galeano estava a celebrar o renascimento da
>democracia real na sua pátria, o Uruguai, onde o povo
>votou "contra o medo", contra a privatização e seu
>cortejo de indecências. Na Venezuela, as eleições
>municipais e estaduais de Outubro marcaram um crédito
>para a nona vitória democrática do único governo do
>mundo que partilha a sua riqueza petrolífera com os
>mais pobres do seu povo. No Chile, o último dos
>militares fascistas apoiados pelos governos
>ocidentais, nomeadamente Thatcher, estão a ser
>processados por forças democráticas revitalizadas.
>
>Estas forças são parte de um movimento contra a
>desigualdade, a pobreza e a guerra que se tem
>levantado nos últimos seis anos e é mais diverso, mais
>empreendedor, mais internacionalista e mais tolerante
>para com as diferenças do que qualquer coisa que tenha
>conhecido na vida. É um movimento livre do fardo de um
>liberalismo ocidental que acredita representar uma
>forma superior de vida; os mais sábios chamam a isto
>colonialismo com outro nome. Os mais sábios também
>sabem que assim como a conquista do Iraque está a
>desconjuntar-se, assim também todo o sistema de
>dominação e empobrecimento poderá igualmente
>desfazer-se.
>
>O original encontra-se em
>http://pilger.carlton.com/print e em
>The New Statesman, edição de 10/Jan/2005.
>
>Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
>10/Jan/05

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Replies:
Subject Author Date
Re: Afinal alguém sabe Inglês aquiGuilherme Statter11/01/05 11:55:07


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