Author:
Guilherme Statter
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 19/12/04 22:26:20
Muito se tem discutido neste forum sobre "democracia" ("popular" , "burguesa" e outras coisas mais), assim como sobre Socialismo e o que é que "isso" pode querer significar para cada um dos participantes.
Presumo que muitos conhecerão a estória dos quatro homens cegos e da respectiva definição de um elefante... Ou seja, muitas vezes é mais fácil mostrar o que é (uma escada em caracol, por exemplo) do que estar a discutir definições (a minha é mais bonita do que a tua, nhé, nhé, nhé, nhé....).
A menos que se pretenda aprofundar ou diversificar conceitos já consensualmente aceites na comunidade social em que nos inserimos, é capaz de ser pouco produtivo, ou mesmo inútil, perder tempo a demonstrar que a "nossa" definição é que é boa. Ou mais "operacional".
Aquilo que hoje e aqui proponho é um outro exercício. A separação clara de águas entre
(1) a discussão do que se entenda por "democracia" (popular, socialista, comunistas...) enquanto situação de chegada (ou cenário a alcançar) e
(2)a discussão das diversas e possíveis vias de lá chegar.
Por exemplo, a minha visão de uma sociedade democracia socialista tem como característica básica a "igualdade de oportunidades" para todos os membros dessa sociedade.
É tão simples como isso.
Só que essa "igualdade de oportunidades" implica da parte da colectividade (chamemos-lhe "Estado", só por facilidade de linguagem) um poder e uma vontade activa de intervenção permanente no sentido de "corrigir desigualdades" de partida as quais foram historica ou biologicamente determinadas.
Como é natural, esse "poder e vontade activa de intervenção" (por parte do Estado) leva-nos direitinhos à velhíssima questão da "luta de classes".
E é aqui que é urgente – da parte de entidades como o PCP (ou da Renovação Comunista...) – re-abrir e actualizar o estudo da actual estrutura de classes.
Em Portugal, na União Europeia e no resto do Mundo.
A situação que temos. Para ver se acordamos numa qualquer estratégia para chegar ao tal "cenário" que acima referimos.
Embora eu não alinhe nas teses do sr. Erik Olin Wright (designadamente quando ele descarta a marxista Teoria Laboral do Valor), não quero deixar de repetir a recomendação para que se utilize o esquema analítico ou grelha de leitura por ele desenvolvida para estudar a estrutura de classes.
O critério fundamental é marcadamente de inspiração marxista e consiste na relação entre aquilo que cada um ou cada grupo contribui para a produção de excedentes (ou mais-valias) e aquilo que cada um ou cada grupo "recebe em troca".
Isto (esta análise), claro que é para ser feita à escala da sociedade como um todo.
Mostra-nos os diversos grupos sociais e o seu posicionamento em relação ao aparelho produtivo, os seus interesses e as suas motivações.
Vem tudo isto a propósito de uma entrevista do Jerónimo de Sousa a uma cadeia de TV em que ele referia (e até com justeza) o problema do desmantelamento de uma certa fracção do aparelho produtivo "nacional" (português).
Estas "aspas" e este parentesis não são inocentes, claro.
Estou a pensar na estrutura de propriedade do capital destas ou daquelas empresas (concretas, que operam em Portugal) e de qual o interesse para os trabalhadores portugueses de que esta ou aquela empresa seja "portuguesa" ou não.
Assim sendo é capaz de ser urgente que entidades como o PCP (ou a Renovação Comunista...) se decidam a re-abrir o debate sobre a estrutura do "nosso" aparelho produtivo, tendo em linha de conta, as suas capacidades técnicas quer em termos de máquinas e métodos, quer (sobretudo) em termos de capacidades profissionais e de "saber-fazer".
É que, como diz um ditado francês (peço desculpa mas não me lembro agora do equivalente – se o há – em lingua portuguesa):
“Chassez le naturel et ça revient au galop”
É que estas coisas das sociedades humanas concretas e objectivas (aquelas em que vivemos, não as utopias que podemos imaginar...) são também "coisas da Natureza".
Importa assim analizar concretamente aquilo que objectivamente temos à nossa frente.
Por exemplo,Quais os operários, técnicos, contramestres, engenheiros e contabilistas que temos. E quais os seus interesses e motivações.
Tudo isso levando em linha de conta o efeito da ideologia (designadamente o consumismo arvorado em motor da economia...) sobre as motivações e expectativas das classes trabalhadoras.
De um ponto de vista histórico e de respeito pelas lutas passadas, é capaz de ser muito bonito invocar o desmantelamento de parte do "nosso" aparelho produtivo. Mas de um ponto de vista de eficacidade política hoje, aqui e agora, é capaz de ser perfeitamente inútil (e até contraproducente) estar numa de "chover no molhado" sobre uma Siderurgia, uma CUF ou uma Sorefame que já foram.
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
|