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Date Posted: 1/05/05 22:13:52
Lénine e o Comunismo hoje
(uma resposta a Domingos Abrantes)
1/5/05
Fez bem o camarada Domingos Abrantes em evocar o 135º aniversário de Lénine.
É certo que a sua evocação parece quase que por inteiro copiada de um discurso de Konstantin Tchernenko, em especial na incoerência com que fala acerca de democracia. Mas tem o mérito de, à sua maneira, chamar um pouco a atenção para a figura de Lénine e a importância do seu legado político. Por outro lado, é reveladora de problemas que o comunismo, enquanto movimento e projecto político, enfrenta nos dias de hoje.
Lénine é, efectivamente, uma figura incontornável da história do movimento comunista. Cuja obra, com particular destaque para a Revolução de Outubro, é fundamental conhecer e compreender, sem receio de encarar aspectos seus menos louváveis. Mesmo que, como dizia Enrico Berlinguer nos anos oitenta, a força propulsora dessa revolução já se tenha exaurido.
É que, em grande medida:
a) foi a partir daí, de Lénine, da Revolução de Outubro e do regime a que sucedeu a esta, que se formaram os partidos comunistas e principais características destes;
b) foi a partir daí que surgiu aquela que, por muito que tenha falhado, foi até hoje a mais importante experiência de uma tentativa prática de construção do socialismo, de concretização do ideal comunista;
c) foi a partir dessa origem genética e da sua degeneração, que surgiu a profunda crise que o movimento comunista ainda hoje enfrenta, e que ficou evidenciada com o descalabro dos regimes da União Soviética e seus satélites por volta de 1990.
Para abrir novas perspectivas ao comunismo é fundamental aprender com os acertos e os erros de Lénine, da sua obra e dos seus sucedâneos. Com a perspectiva do materialismo dialéctico perante a história e suas contradições. Não como um sacristão diante da pureza de um santo.
O discurso do camarada Domingos Abrantes é bem revelador das dificuldades de se ser comunista hoje. Tomo a liberdade de lhe fazer o seguinte resumo: Um dia há de cair do céu um novo Outubro. Até lá o mais importante é o partido.
Isto é um discurso de quem desistiu de ser comunista, de quem desistiu de pelo menos tentar desenvolver uma efectiva acção transformadora da sociedade. É que a verdadeira revolução nunca será um sonho etéreo ou uma espécie de dia do juízo final, mas uma construção que começa no aqui, no hoje, no real – feita de momentos e métodos ora propriamente revolucionários, ora assumidamente reformistas.
É certo que é fundamental um instrumento de unidade, organização e acção, sob a forma ou não de partido. Mas não pode ser isso o mais importante para um comunista. Porque não é um fim em si mesmo, mas um instrumento. Substituível portanto. E como dizia Álvaro Cunhal, “onde quer que sejam liquidados partidos comunistas existentes, os trabalhadores e os povos acabarão por criá-los de novo, com esses ou com outro nome, mas com os mesmo objectivos fundamentais”.
O mais importante para um comunista é agir para concretizar o seu ideal de transformar a sociedade capitalista numa sociedade de “liberdade igualitária” - como Luís Sá apreciava definir o comunismo.
Nada a ver com a preservação de uma igreja à espera do dia do juízo final!
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