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Jerónimo de Sousa deputado constituinte
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Date Posted: 25/04/05 9:12:27
entrevista
Jerónimo de Sousa deputado constituinte
"Até diziam que comíamos crianças"
DN, 25/04/05
As eleições para a Assembleia Constituinte foram decisivas para a instauração do regime democrático?
Foram fundamentais. Independentemente do resultado notável que foi a aprovação da própria Constituição da República, as eleições em si mesmas encerraram um valor intrínseco de manifestação de liberdade e de configuração do próprio regime democrático.
Presumo que tenha sido a primeira vez na vida em que votou. Lembra-se do que sentiu naquele momento?
Foi a primeira vez. Em 1975, correspondeu a um grande acto de liberdade, de realização pessoal e colectiva. Lembro-me das filas imensas que existiam em todas as assembleias de voto. Era o exercício de um direito que continha muita dose de liberdade.
O resultado eleitoral do PCP, que teve 12,5% dos sufrágios, ficou aquém das suas expectativas nessa altura?
Houve um elemento importante nessa altura o MFA falava muito do socialismo. O Partido Socialista acabou por capitalizar com isto. Além disso, existiam na altura muitos preconceitos em relação ao PCP. Havia muita gente com a ideia de que os comunistas roubavam as terras, comiam criancinhas, matavam os velhotes... Este grande fundamentalismo tinha consequências eleitorais nalgumas regiões do País.
Durante a campanha eleitoral, o PCP chegou a mostrar simpatia pelos apelos ao voto em branco feitos por elementos do MFA. Reconhece hoje que isso possa ter prejudicado o partido?
Pode ter havido alguma influência [negativa] de sectores esquerdistas e radicais que tinham, aliás, influência no próprio MFA. Mas o determinante foi a orientação de participação activa e plena neste combate eleitoral para a Constituinte.
Acreditou que seria implantado a curto prazo o socialismo em Portugal?
Admito ter havido momentos em que a nossa perspectiva era essa. Jovem na altura, certamente fiquei entusiasmado com a ideia da construção de uma sociedade nova onde o socialismo poderia ser uma meta.
A extrema-esquerda terá prejudicado o processo, com alguns excessos radicais?
O PCP pagou por alguns excessos de grupos esquerdistas em relação à Igreja, à embaixada de Espanha... Houve o caso República, o caso Rádio Renascença... A esta distância sabe-se quem foram os principais mentores desses actos, mas sobrava sempre para os comunistas. Aliás, muitos desses grupos afirmavam-se também comunistas. Isto era usado como instrumento pela extrema-direita para alimentar o anticomunismo. Ainda assim, e com o desconto devido aos excessos naturais de um processo revolucionário - e também nós, com certeza, cometemos excessos -, não foi isso que acabou por ser determinante.
Que recordação mais forte guarda da Assembleia Constituinte?
Foram tempos de grande turbulência. Mas também foram tempos de grandes debates de ideias. Descobri então que um operário pode ser deputado de corpo inteiro. É evidente que eu não sabia fazer uma lei sobre a greve, mas sabia como se fazia uma greve. Há uma condição fundamental para que um deputado possa exercer plenamente o seu programa manter sempre uma ligação à vida.
É hoje frequente dizer-se que há 30 anos o Parlamento tinha deputados com mais envergadura intelectual e maior capacidade política. Confirma?
Os tempos são diferentes. Nessa altura havia mais confronto, mais debate de ideias, mais conteúdo ideológico nas intervenções. Houve, de facto, uma geração muito marcante de políticos em todas as bancadas. Desde Cunhal, na bancada do PCP, a Mário Soares [PS], a Sá Carneiro [PPD/PSD], a Freitas do Amaral ou Amaro da Costa [CDS]...
O seu ex-camarada Vital Moreira teve um papel fundamental na elaboração da Constituição.
Não quero fazer julgamentos sobre o seu percurso. Falando dessa época concreta, tenho de reconhecer que teve um papel importante.
A Constituição tem sido desvirtuada?
Sim, ao longo de sucessivas revisões. A evolução da situação política levou a que fosse significativamente alterada e até mutilada em questões como a saúde, a segurança social ou a economia. Num quadro de comemorações do 25 de Abril, dir-se-á que é uma revolução inacabada, que é um Abril inacabado, com uma Constituição que sofreu os efeitos da relação de forças hoje existente na nossa sociedade.
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