| Subject: A morte do Papa |
Author:
Ana Drago
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Date Posted: 8/04/05 17:53:08
Morte do Papa: Intervenção de Ana Drago no Parlamento
Quinta, 07 Abril 2005
Sr. Presidente, Sr.s Deputados,
João Paulo II protagonizou um pontificado importante na história da Igreja do século XX. Ao longo de 27 anos batalhou pelas suas convicções, cruzou o mundo tentando dar a conhecer a sua fé, e a sua visão para uma Igreja católica fortalecida no limiar de um novo milénio. O fruto desse trabalho e desse percurso é hoje patente no pesar sentido por tantos católicos pelo seu falecimento, um pouco por todo o mundo. O Bloco de Esquerda apresenta as suas condolências a todos eles, e em particular aos homens e mulheres católicos da sociedade portuguesa.
O percurso do Papa João Paulo II deixa-nos perante um legado importante, sobre o qual devemos saber reflectir e analisar de modo sério e sereno. É o respeito pelas convicções que João Paulo II tão empenhadamente protagonizou que nos deve afastar de um qualquer unanimismo falso, indiferente ou indulgente, sobre o que significou o seu percurso, e sobre o que ele nos oferece para discutir o futuro das sociedades contemporâneas.
O Papa João Paulo II apresentou-se ao mundo em nome de uma determinada visão dos crentes e da Igreja Católica no mundo actual. Em nome dessa visão, foi uma voz forte na crítica de uma sociedade injusta, tantas vezes violenta e não solidária, que tem vindo a ser moldada nas últimas décadas por um modelo de globalização predatória e iníqua.
Foi em nome dessa visão que foi opositor frontal da guerra contra o Iraque, ordenada por Bush, que acusou de ser contrária ao direito internacional e ao direito primeiro, sobre o qual se sustentam todos os outros, que é o direito à paz. Foi em nome dessa visão que deu sinais, que não devem ser esquecidos, sobre a necessidade de um diálogo entre religiões, como caminho central para construir uma ordem mundial harmoniosa e cooperante, assente no respeito pela diversidade da vivência religiosa.
Mas, de modo contraditório, o pontificado do Papa João Paulo II deixa-nos também uma Igreja Católica menos plural, menos tolerante da diversidade da interpretação teológica, onde os movimentos sociais católicos de matriz progressista foram ignorados e ou mesmo silenciados.
Tendo-se batido por uma determinada concepção da dignidade humana, infelizmente, o Papa João Paulo II deixa-nos uma Igreja Católica que, sob o seu pontificado, dá pouco espaço à autonomia moral dos indivíduos, e que regrediu significativamente no que toca ao papel que prescreve às mulheres seja na sociedade, seja no interior da própria Igreja.
A concepção que advogou sobre a sexualidade é hoje, aliás, insustentável. Em tempos de pandemia do HIV/SIDA, com a dimensão de catástrofe social e humana no continente africano e no Sudoeste Asiático, a sua visão desconfiada face à sexualidade e a interdição do uso de contraceptivos colocou a Igreja numa posição conservadora, sem defesa possível, porque não responde aos problemas que as sociedades modernas nos colocam.
Esta câmara representa a pluralidade da expressão política da sociedade portuguesa como o voto de pesar que hoje discutimos diz, e diz bem. Mas nesse exacto sentido, aqui, no lugar da representação democrática da comunidade política, tendo em conta o valor primordial da laicidade do Estado, deveria ser dado como certo que esta câmara deve abster-se de usar nos seus votos e nas suas resoluções uma terminologia que é património exclusivo de uma confissão religiosa como a expressão ³Sua Santidade² que é usada no texto do voto , ou fazer passar por consensual o que não o é na sociedade e na representação política como seja a celebração da Concordata entre o Estado português e o Estado do Vaticano, no texto interpretada como uma mais valia, e que não no nosso entender não o é.
Por esta razão, o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda não se revê e discorda do texto do voto de pesar que agora discutimos. Porque a laicidade não deve ser olhada como mera retórica instrumental do Estado moderno: ela é o garante essencial da liberdade religiosa. E esse garante deve-nos alertar para que, independentemente da importância social de uma dada confissão, nenhuma pode ser tratada como ³mais oficial², porque nenhuma pode ser oficial.
Se discordamos dos considerandos do texto, associamo-nos, contudo, na sua expressão de condolências aos católicos e às católicas pelo falecimento do papa João Paulo II.
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