Author:
Revivalista inveterado
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Date Posted: 15/03/05 13:21:11
In reply to:
Joana Lopes
's message, "José Gil e os portugueses (I)" on 14/03/05 16:15:36
Pois é: preferimos assistir à História do que fazê-la...
>Li Portugal Hoje - O Medo de Existir de José
>Gil numa tarde, talvez demasiado depressa, e cheguei
>ao fim com um sentimento confuso de frustração e com a
>impressão de ter apenas lido uma introdução ao que
>esperava encontrar.
>
>Acontece que nos dias que se seguiram, durante uma
>campanha eleitoral de triste memória, dei por mim a
>pensar frequentemente no livro, fui relê-lo e percebi
>como é importante.
>
>Diz José Gil que o 25 de Abril se recusou "a inscrever
>no real os 48 anos de autoritarismo salazarista", que
>nunca se fez o luto do fascismo e
>que, por isso, "o que se quis apagar insiste em
>permanecer e sobrevive no medo e na irresponsabilidade.
>
>Não posso estar mais de acordo. Os portugueses
>convenceram-se de que a revolução foi exemplar porque
>não foi vingativa, quiseram acreditar que os cravos
>nas espingardas encerravam por si só uma etapa negra,
>ficaram felizes porque Américo Tomás, Marcelo Caetano
>e os pides foram apeados, mas tentaram esquecê-los
>rapidamente, em nome dos amanhãs que cantavam, e nunca
>mais quiseram verdadeiramente ocupar-se deles.
>
>Isto fez com que não construíssem a democracia
>diferenciando-a e consolidando-a com o passado
>fascista. (Seria interessante aprofundar o que se
>passou noutros países, sobretudo em Espanha, para
>comparar factos, atitudes e consequências.) Penso que
>assim se criou ou se agravou um hábito de
>desresponsabilização colectiva. Não estará aqui uma
>das causas no nosso atraso, da apatia e da falta de
>iniciativa que nos coloca hoje na cauda da Europa ?
>
>A perda de memória passou a aplicar-se às figuras da
>história recente: Cavaco Silva já pode voltar a ser
>herói, Guterres vai a caminho e Santana Lopes só terá
>que ser suficientemente paciente para esperar.
>
>O processo de esbatimento estendeu-se também ao que se
>passou após o 25 de Abril, nomeadamente ao PREC. Como
>é que as verdadeiras fracturas que atravessaram este
>período evoluíram até se chegar à actual vitória com
>59% do chamado "povo de esquerda"? É importante
>revisitar este período. Li recentemente alguns jornais
>publicados nas vésperas das Legislativas de 1976 e
>fiquei a pensar que temos que tentar perceber o que é
>que é que ficou do processo revolucionário, como e
>onde. Há que pôr por escrito muita coisa antes que a
>memória viva desapareça. Seria também interessante que
>surgissem obras de ficção que permitissem aos jovens
>vivências de factos e ambientes. Não por revivalismo
>bacoco, mas porque só se poderá agir bem no presente
>se se conhecer e interiorizar o que está para trás.
>
>Não deixemos que as memórias fiquem reduzidas à
>sobrevivência de umas quantas palavras de ordem como
>"Fulano amigo, o povo está contigo" (para qualquer
>bicho careto) ou "Assim se vê a força do PP"!...
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