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Subject: Re: Karol Wojtila, um polonês


Author:
Mário Contini
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Date Posted: 3/04/05 17:25:50
In reply to: Frei Bento Domingues 's message, "A Igreja Católica é só o Papa?" on 3/04/05 11:01:14

Karol Wojtila, um polonês

Mário Contini

02.04.2005 | Wojtila pegou na biblioteca do Vaticano uma revista de estudos marxistas e a levou para o conclave que o elegeu. Carregava-o debaixo do braço para lá e para cá. A atitude provocou sorrisos entre seus colegas cardeais. Um deles lhe perguntou, brincando: “Não é sacrilégio ler essa revista aqui?” O polonês respondeu com outra brincadeira: “Tenho a consciência tranquila”, disse, sorrindo.

O direito canônico interdita as candidaturas formais antes e durante o conclave. Mas as conversas a dois, as articulações de grupos e as discussões informais correm soltas. Donde parece razoável concluir que, mesmo não estando explicitamente em campanha, o manusear da revista marxista era usado por Wojtila como um esclarecimento acerca do que pensava. Era uma tomada de posição. Como se ele dissesse: venho de um país comunista, estudei o assunto, sei como combatê-lo.

Depois de cinco dias de escrutínios, o conclave estava bloqueado. Nenhum candidato obtinha a maioria. O austríaco Franz König, o espanhol Narciso Arnau e o belga Maximilien de Furstenberg arrastam suas fichas para Wojtila, que parece indeciso. Ele só topa a candidatura depois de falar, em lágrimas (foi uma das raríssimas vezes que foi visto chorando), com seu superior hierárquico, o primaz da Polônia. Os dois tinham uma relação fria e respeitosa. Stefan Wyszynski lhe diz: “Se você for escolhido, terá de aceitar. Pela Polônia”.

Em 16 de outubro de 1978, Wojtila aceitou sentar no trono de São Pedro. Pela Polônia. Contra o comunismo.

***

Quase dois anos depois, em novembro de 1980, Ronald Reagan é eleito presidente dos Estados Unidos. O papa e o presidente tinham em comum o anticomunismo. Compartilhavam também uma noção clara do papel que os meios de comunicação desempenham, numa sociedade de massas, nos campos da política e da religião. Reagan e Wojtila eram ex-actores que, no poder, colocaram em prática todos os truques do metiê. Reagan estava mais atualizado: fizera carreira no cinema, na televisão, na publicidade, em sindicatos e lobbies. João Paulo II era mais versátil na capacidade de expressão. Além de actor, era dramaturgo e poeta, teólogo e tribuno de púlpito, falava italiano e arranhava outros idiomas.

***

Momentos depois de ser eleito, João Paulo II dirigiu-se à multidão na Praça de São Pedro, para a sua primeira benção urbi et orbi. Falou em italiano. Inseguro, perguntou: “Vocês me compreendem bem? Não sei se poderei me exprimir na sua língua... na nossa língua italiana. Se eu errar, me corrijam”. Si mi sbaglio, mi corrigerete. “Corrigerete” é um latinismo, um erro menor. O actor estava no seu elemento, seduzindo o público italiano. Nos meses e anos seguintes, esse estilo de comunicação percorreria o mundo, em turnês colossais. Surgia o papa pop, o papa superastro, o papa-para-multidões.

Dias depois da benção da cidade e do mundo, na missa solene de inauguração, João Paulo II fez a sua célebre exortação: “Não tenham medo!” Ela talvez reste como divisa do seu pontificado. O Non abbiate paura é interpretado como um apelo ao enfrentamento com o comunismo. O que o papa disse foi o seguinte:

“Não tenham medo de acolher o Cristo e aceitar o seu poder. Não tenham medo! Abram todas as grandes portas ao Cristo. Ao seu poder salvador, abram as fronteiras dos Estados, os sistemas econômicos e políticos, os vastos campos da cultura, da civilização, da cultura e do desenvolvimento. Não tenham medo!”

O trecho é ambíguo. Ele parece se dirigir tanto ao rebanho como aos infiéis. Num caso, o pastor estaria apelando os fiéis a abrir as portas dos poderes constituídos. Noutro, o apelo seria aos incréus, visando a sua conversão ao catolicismo. E afinal, medo de quem, de quê? A construção negativa é igualmente intrigante. Ela faz com que sobressaia o medo, e não o seu contrário, a coragem.

***

Entre a inauguração de João Paulo II e a posse de Reagan três factos de grande importância histórica se sucederam. Em abril de 1979, à frente de um processo revolucionário, o aiatolá Khomeini proclama a República Islâmica no Irão. Em dezembro do mesmo ano, a União Soviética invade o Afeganistão. Em agosto de 1980, uma poderosa onda de greves se estende por toda a Polónia.

A proclamação da República Islâmica e a subseqüente invasão da embaixada americana em Teerã são o sinal da emergência da jihad, da guerra contra os cruzados católicos, os judeus e o “Grande Satã”, os Estados Unidos . A invasão do Afeganistão tem um duplo significado. A longa luta, a derrota e a humilhante retirada soviética, dez anos depois, aceleram a crise final do comunismo. E a resistência afegã serve de berço para toda uma geração de combatentes – foi na guerra contra os soviéticos que se formaram Osama Bin Laden e a Al Qaeda. Esses acontecimentos, que moldam o presente, são acompanhados tangencialmente pelo pontífice.

Em contrapartida, a crise polonesa é acompanhada com enorme interesse. Contrariando seus hábitos, João Paulo II passa a assistir aos noticiários da televisão e a ler jornais para saber o que se passa no seu país natal. Sua posição é de, por meios diplomáticos, pressionar a burocracia comunista a não reprimir as greves, que começam com reivindicações sindicais e logo adquirem carácter político e levam à formação do sindicato Solidariedade, o primeiro independente da ditadura comunista. Publicamente, ele faz exortações para todos os lados. O recado final é uma espécie de “calma, gente!”

***

Há uma outra intervenção, clandestina. A partir das greves, e progressivamente, se formará a Santa Aliança entre o Vaticano e o governo Reagan. O presidente americano não era católico. Sua religiosidade não era das mais profundas. Mas ele entendeu imediatamente que a crise polonesa era uma oportunidade de golpear o sistema soviético. E entendeu também que o papa polonês poderia ajudá-lo enormemente.

Reagan se aproximou de João Paulo II por meio de Willian Casey, o chefe da CIA. Papa-hóstia de ir à missa todo dia, Casey virou amigo do papa. Passaram a trocar informações. Ele até mostrou a Wojtila fotos de satélite mostrando concentração de tropas soviéticas na fronteira polonesa.

Uma facção da direção do Solidariedade, encabeçada pelo operário (desempregado) Lech Walesa tinha laços estreitos com a Igreja. Dezenas de milhões de dólares do governo americano foram entregues ao Solidariedade graças à intermediação do Vaticano.

Fácil dizer que o Solidariedade foi manipulado pela CIA. Fácil e errado. O Sindicato expressava a aspiração operária à independência do Estado e da burocracia comunista. Almejou e disputou o poder polítco por meio dos métodos tradicionais dos trabalhadores: as greves, as manifestações, a agitação. Mas sua direcção, expressando a vontade do papa, que era cacifado pelo dólares americanos, parou nas reivindicações democráticas.

Walesa tomou o poder. Seu governo foi desastroso. Ao tentar se reeleger, foi derrotado, esmagado nas urnas. Ao papa, pouco importava. O demónio comunista havia sido exorcizado. (...)

msconti@nominimo.ibest.com.br

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