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Subject: Re: O Doutor


Author:
Observador lucido
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Date Posted: 26/03/05 22:47:57
In reply to: Miguel Poiares Maduro 's message, "O Doutor" on 26/03/05 15:50:37

Texto magnifico e pungente! Mostra o arcaismo da sociedade
portuguesa, com a sua mania dos titulos e o esclerosamento das suas universidades. O estilo sarcastico justifica-se. Denunciar é obra meritoria. Um novo Eça, precisa-se. É doloroso que tudo o que foi aqui descrito seja verdadeiro.

>
>height="450"
>src="
http://www.dotecome.com/blog/imagens/doutor-2.jpg"
> width="370" border="0" />

>O Doutor
>
>por Miguel Poiares Maduro
>
>
>Por favor, esta semana «escreve algo ligeiro»,
>pediram-me. O problema é que, ultimamente, só me
>ocorrem ideias «pesadas». Deve ser o peso da
>responsabilidade, já que a consciência não a tenho
>pesada. Pensei em aligeirar algo sério mas temia que
>me chamassem pouco sério. O que se pretendia era algo
>ligeiro escrito sem ligeireza. Acho que acabei por
>escrever sobre algo pesado com grande ligeireza.
>
>Somos um país de doutores diz-se. É um equívoco: somos
>um país de drs. e engenheiros. E está tão vulgarizado
>que basta entrar num qualquer restaurante desconhecido
>para obtermos o título: «Sai um bacalhau à Braz para o
>doutor». Já tenho uns 20 doutoramentos honoris causa
>concedidos por diferentes restaurantes. Em Portugal, o
>serviço ao cliente vai ao extremo de nos licenciarem
>antes de começar a refeição! Mas este dr. não tem
>doutoramento e a nossa obsessão com títulos é tanta
>que logo se encontrou uma distinção: quem é doutor por
>extenso é Professor Doutor, seja ou não professor. E
>os professores que não são doutores, são apenas
>«sotores». Substituímos a sociedade de classes pela
>sociedade de títulos.
>
>Somos «marcados» pelo título. Durante muitos anos em
>Portugal, ministros só doutores. Um título abre muitas
>portas em Portugal. Por isso é que não deve parecer
>(parecer é tudo neste caso) nada fácil obtê-lo. O
>valor do «título» está no acesso que comporta a um
>círculo restrito (ser um dos poucos) e na autoridade
>que comporta («quem fala, fala a título de_»). E nada
>é mais exemplar a este respeito que o «título» de
>doutor e a forma como se lhe acede: com uma tese de
>doutoramento. Eu que sou doutor tenho de saber com
>certeza.
>
>Em primeiro lugar, a tese de doutoramento deve
>comprovar a adesão do candidato ao grupo: a sua
>fidelidade à escola que lhe concede o título. Ao
>contrário do que afirmam alguns, a tese não tem de
>constituir uma contribuição original para a ciência.
>Deve sim consistir numa contribuição original sobre as
>ideias do orientador da tese (em particular se forem
>as minhas!). Na medida do possível, o candidato deve
>abster-se de tomar posição própria, pois tal é sinal
>de arrogância científica. Pode sim adoptar a posição
>anteriormente expressa pelo orientador da tese. Se o
>orientador da tese não tiver posição, o candidato pode
>adoptar uma posição sui generis. Esta deve congregar
>elementos de todas as teses anteriores, de tal forma
>que não possa ser associada a nenhuma nem criticada
>por se lhes opor. É desejável que o candidato
>apresente a sua tese (se quiser arriscar ter uma) no
>meio de 350 outras pretensas teses. Pode ser que,
>desta forma, a tese passe despercebida.
>
>Em segundo lugar, a tese deve transpirar autoridade
>científica. Mas esta não resulta das ideias (essas são
>subjectivas e como tal contestáveis). A autoridade
>resulta da forma. Desde logo, como ouvi algumas vezes,
>uma tese deve ter aspecto de tese. Começa com o peso:
>uns bons cinco quilos são o mínimo aconselhável.
>Segue-se uma boa organização sistemática. Em Direito,
>p. e., aconselho a seguinte estrutura: 1) introdução;
>2) introdução ao Direito (com referência a elementos
>de Filosofia, História, Economia e Ciência Política);
>3) excurso sobre a importância da definição do objecto
>da tese; 4) definição do objecto da tese (remissão da
>sua análise para momento posterior); 5) excurso sobre
>a importância do instituto jurídico objecto de estudo;
>6) introdução ao instituto jurídico estudado; 7)
>história do instituto jurídico; 8) distinção de todos
>os institutos jurídicos similares; 9) estudo desses
>outros institutos; 10) classificação do instituto; 11)
>categorias e tipos que o compõem; 12) distinção de
>categorias e tipos similares; 13) distinção entre
>categorias e tipos (tipos de categorias e categorias
>de tipos); 14) último capítulo: análise do instituto
>jurídico em causa (remissão para segundo volume a
>publicar logo que os nossos trabalhos científicos -
>leia-se preparação de pareceres - nos permitirem).
>
>Segue-se a linguagem. Deve procurar-se ser o menos
>claro possível (a clareza é geralmente entendida como
>um sinal de pouca profundidade intelectual). Ex.: a
>afirmação «existe, neste caso, um conflito de direitos
>fundamentais» deve ser substituída por «as jurisdições
>dos espaços de liberdade normativamente concretizados
>nas posições jurídicas subjectivas constitucionalmente
>garantidas estão, neste caso, numa situação de
>concorrência normativa na prossecução dos objectivos
>constitucionalmente consagrados».
>
>Particular atenção deve ser dada às notas de rodapé e
>bibliografia (é por aqui que muitos membros de júris
>de tese iniciam - e, em muitos casos, terminam - a sua
>leitura). O texto em notas de rodapé deve exceder o
>texto do corpo da tese (tal circunstância demonstra
>que a erudição do candidato excede em muito as
>fronteiras do tema estudado). Por fim, a bibliografia
>deve conter todas as obras consultadas (por consulta
>entende-se a consulta do título em qualquer base de
>dados existente) e incluir referências a obras nunca
>antes citadas (de preferência, mas não
>necessariamente, relacionadas com o tema da tese).
>
>Pouco sério? Apenas uma ligeira provocação para
>recordar que nem sempre o facto das coisas serem
>tratadas de forma muito séria é sinal de grande
>seriedade. O importante não devia ser o título mas a
>tese. Isto vale para os doutores e outros títulos. Em
>vez de comparar títulos devemos é trocar ideias.

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