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Subject: O coro da primavera e o governo da aspirina


Author:
Bruno Dias
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Date Posted: 18/03/05 23:14:07

Assento Parlamentar (CDU)
por Bruno Dias
(Membro da Direcção Regional de Setúbal e do Comité Central do PCP)

O coro da primavera e o governo da aspirina


Diz o velho ditado que uma andorinha não faz a Primavera. Mas se é verdade que o calendário dos equinócios não se compadece com minudências, também só nos faltava agora que nos viessem anunciar o tempo novo que aí vem, com uma avestruz a dar à asa – ou neste caso, a enfiar a cabeça na areia.

Uma coisa é certa: as populações deste distrito já sofreram demasiado com as políticas de direita de sucessivos governos. E o sinal de mudança que foi dado no passado dia 20 de Fevereiro, no distrito de Setúbal como em todo o país, é absolutamente inequívoco. Nunca na História da democracia portuguesa os partidos da direita tiveram uma votação tão baixa.


Poucas vezes a vontade de “mudar de vida” terá sido tão claramente expressa em actos eleitorais. E essa vontade, essa exigência, não pode ser ignorada por este novo Governo. Cá estaremos para ver – e analisar, e debater, de forma responsável e construtiva – o Programa de Governo que será dentro de dias apresentado ao país. Mas a verdade é que vamos observando sinais que são pouco ou nada tranquilizadores.


É aliás sintomática a polémica que se instalou nestes dias acerca do “discurso da aspirina”, como se arriscam a ficar para a História as palavras de José Sócrates na sua tomada de posse como Primeiro Ministro. Sem que se caia na armadilha de nos ficarmos pelos considerandos em vez de irmos aos finalmentes, sempre convém ir registando que, enquanto a comunicação social dominante se apressou a relatar uma suposta cruzada anti-lóbi (sendo aqui o lóbi o das farmácias), ninguém se lembrou entretanto de pedir umas palavrinhas a essa agremiação tão desinteressada e generosa que é a indústria farmacêutica (os tais que fabricam os famosos medicamentos de venda livre, e que ainda devem estar a rir à gargalhada). Mas o essencial não é isso.


O essencial – e sintomático, digo eu – é que neste país das desigualdades e da pobreza, do desemprego e da precariedade, do insucesso escolar, da falta de médicos, temos um Governo cujas primeiras palavras são justamente para abordar o problema estrutural da democratização da aspirina! Mesmo sem tirar conclusões precipitadas, não será preocupante essa previsão de uma tão grande dor de cabeça para os portugueses?


Porque será?


Será porque os dirigentes do PS (e diga-se de passagem, também os do BE) se recusam a apresentar uma proposta concreta que revogue o Código do Trabalho nas suas normas mais gravosas, insistindo antes numa “comissão” que deixe em lume brando uma discussão lá para as calendas?


Será porque os dirigentes do PS (e diga-se de passagem, também os do BE) se recusam a reconhecer o papel e a responsabilidade do Parlamento na necessidade urgentíssima de alterar a lei para acabar com o aborto clandestino e com os julgamentos de mulheres por aborto, distanciando a questão lá para depois de um referendo?


Será porque os dirigentes do PS (e diga-se de passagem, também os do BE) se recusam a encarar de frente as medidas concretas que respondam à ameaça que se abate, mais perigosa que nunca, sobre o futuro do sector têxtil nacional - que também aqui no distrito de Setúbal tem vivido tempos tão amargos? E recusando nomeadamente o accionamento das cláusulas de salvaguarda previstas na Organização Mundial do Comércio, chegando mesmo a defender (aqui já apenas o BE) que o problema se resolve com a mudança social na China – e já agora também na Índia, e também no Paquistão, e porque não em toda a Ásia?


Realmente, a começar assim, os sinais são os melhores. E não venham com aquele argumento estafado de «o PCP não pode querer que o seu programa se sobreponha ao dos outros», etc, etc. Pois claro que não – o que queremos é discutir os problemas concretos do país e do distrito, e as melhores soluções para lhes dar resposta. O que nunca abdicaremos é de honrar os compromissos que assumimos com o povo.


Por isso apresentamos e defendemos propostas, medidas concretas, que correspondam de facto a uma mudança de política, que se demonstrou tão claramente necessária para o país. Porque os problemas do país não se resolvem seguramente com mais do mesmo – nem sequer com aspirinas.


Neste mês de Março em que se inicia uma nova etapa política para o país, em que, como dizia o Zeca, «da matinal canção, ouvem-se já os clamores», importa reter, agora e sempre, essa ideia que traz em si própria uma semente de mudança: vale a pena lutar. Foi dessa ideia que nasceu, em Março, o Partido Comunista Português. Há 84 anos. E a luta continua.

in http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=889

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