| Subject: Duas tácticas sem estratégia nenhuma (I) |
Author:
Paulo Fidalgo
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Date Posted: 3/03/05 23:20:43
(in www.comunistas.info, 3/3/05)
Duas tácticas sem estratégia nenhuma (I)
por Paulo Fidalgo
São duas as correntes no campo comunista, entendido como o campo que aspira à superação revolucionária do capitalismo. Distribuem-se os seus membros pelo PCP, por uma importante corrente no BE e por grupos mais dispersos, como o movimento da Renovação Comunista.
Não se entende aqui revolucionário como o derrube da velha ordem por via violenta versus a conquista eleitoral do poder. Retém-se contudo uma noção de que as reformas estruturais a conquistar estão apontadas à superação da ordem vigente. Recusa-se portanto a linha Bernstein do “capitalismo reformável” adoptada pela social-democracia no início do século XX.
Uma delas tem no PCP um expoente. Nele se fixou, desde há anos, uma noção de automatismo da história. Manter o legado do movimento operário até que o momento messiânico da história inevitavelmente reapareça e exerça o seu papel “objectivo” tem sido boa parte da postura do PCP. É portanto a hegemonia de um ponto de vista unilateral em que a construção do futuro é o produto mecânico de forças exteriores à noção de sujeito histórico. Independente da vontade das mulheres e dos homens que agem e ganham progressiva compreensão acerca das tarefas que a situação exige.
A noção automática da acção das forças “cegas” da história desvaloriza, como é evidente, a construção de um programa de transição para o governo, o Estado e a economia, considerando de resto os objectivos intermédios como preocupação imediatista que se opõe aos verdadeiros desígnios alcançáveis apenas a longo prazo. Veja-se a propósito o discurso acusador de Jerónimo de Sousa de que o BE, ao contrário do PCP, não seria “um corredor de fundo”.
A atitude de “unilateralidade” que interpreta a história como jogo mecânico de forças objectivas é, parafraseando Lenine em o “Que fazer”, uma modalidade de culto da espontaneidade, porque se desvaloriza a acção quotidiana planificada, consciente, desligando-a do objectivo de longo prazo. É no fundo pensar-se que a história empurra espontaneamente para uma direcção determinada qualquer que seja a actuação na conjuntura.
A fuga à conjuntura é contudo irrealista e obriga por vezes a adaptações de emergência. Foi por isso que o discurso eleitoral do PCP acabou por admitir acordos “pontuais” nas últimas eleições, fora aliás de qualquer consideração congressual ou do discurso nos anos do governo Guterres. Isto caso resultasse das eleições um governo de maioria relativa do PS, situação que acabou por não se verificar, talvez para sorte do próprio PCP. Recusou porém, reiteradamente, qualquer acordo estruturado sob o argumento tácito de não hipotecar a sua liberdade de oposição.
Pode especular-se que a direcção do PCP, caso tivesse de negociar com o PS em maioria relativa, aceitaria navegar à vista nos acordos pontuais, sem que porém estivesse definido previamente qualquer plano para ganhar força para a transição. Ora, uma tal circunstância traria consigo o risco enorme do tacticismo e do oportunismo.
Os limites e a impotência gerada pela “unilateralidade” dita objectiva, metafísica, desencadearam em Portugal uma resposta contrária no campo comunista, mas igualmente unilateral. E que constitui a segunda corrente por nós enumerada. Trata-se de privilegiar a acção na conjuntura, nas causas, socorrendo-me aqui de uma terminologia atribuída pelos media aos dirigentes do BE, onde se visaria acumular força e ganhar uma consciência de alternativa com base na luta por objectivos concretos imediatos, mas sem o equacionamento mais de fundo das condições da transição, da táctica relativamente ao governo, ao Estado e à economia.
O acerto de intervir com foco na conjuntura está de resto inquestionavelmente demonstrado pelo espectacular crescimento do BE nos últimos anos, fruto exactamente da sua capacidade para actuar num campo deixado em aberto pela omissão do PCP.
No essencial, os cultores do foco na conjuntura, mostram pouco interesse nas questões ideológicas “de fundo”, segundo uma expressão de um activista do BE. No recente ciclo eleitoral, acabaram por igualmente ceder ao discurso dos acordos “pontuais” e da ênfase nas políticas concretas, sem que alguma vez tivessem enunciado um plano mais geral de transformação. Relegam a sua definição para um horizonte intangível, como se a história espontaneamente se encarregasse de mostrar um dia o caminho. Poderemos dizer por isso que houve igualmente sorte para o BE no facto do PS não ter ficado em maioria relativa. Ao citarmos o BE não queremos classificá-lo como formação comunista no seu todo, mas como organização onde actuam muitos dos que se batem pelo ideal comunista.
Em resumo, a linha dos “corredores de fundo”, bem como a linha dos que apostam na “arte” da conjuntura, acabam por ser faces opostas da mesma moeda do espontaneísmo e conduzir a um défice de planificação da acção política com vista à transição da economia e da sociedade portuguesas para um sistema onde os trabalhadores alcancem o controlo do produto do seu trabalho.
A incipiência de que dão mostras ambas as concepções, suscita um papel redobrado para os que procuram abrir caminho para a renovação do comunismo em Portugal. A construção da teoria da transição em Portugal é tanto mais urgente quanto o capitalismo acumula insucessos e cresce a olhos visto o campo da esquerda à esquerda do PS. Para que a aritmética eleitoral se transforme em força material de transformação importa pois definir os passos a dar.
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