| Subject: A esquerda que Ganha |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 1/03/05 14:58:41
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "A “esquerda” que ganhou e a esquerda que" on 1/03/05 8:45:39
É apesar de tudo consolador saber que a esquerda que ganhou não é uma esquerda do "centrão" ,mas sim que é uma esquerda comprometida com a sua própria história, e que no quadro das possibilidades que se ofereceram e com toda a herança que transporta , resulta ser o PCP que melhor interpreta e assume aquilo que em fins do sec.XIX constituio a mais ambiciosa construção teórica, e a mais aperfeiçoada , dos caminhos a trilhar pela Humanidade, visando uma nova sociedade sem exploração.
O PCP não podia, porém , ao longo dos anos,ter-se colocado acima das próprias contingências sociais e, ao arrepio do movimento comunista internacional ,apontar e reiterar as vias mais correctas e funcionar como consciência crítica dos erros, desvios e crimes cometidos em nome da construção do socialismo.
O PCP desempenha um papel importante,pese o voluntarismo e o espontaneismo de muitos dos seus detractores que, ao criticarem-no não ocultam esse tipo de deformações.
O capitalismo é um sistema , um modo de produção que levou a humanidade a patamares de crescimento económico ,cientifico e técnico inimagináveis.Paralelamente, desenvolve contradições no seu seio que irão acelerar , em muito , as condições objectivas para a sua superação ,a par da esmagadora polarização de uma miséria e de uma exploração de áreas do globo em contraste com a gritante concentração das riquezas em cada vez menos mãos.
Todavia, socorrendo-me de Marx , A humanidade só se colocam os problemas que ela está em condições de resolver...
>A “esquerda” que ganhou e a esquerda que
>perdeu
>
>
>
>Muito se tem comemorado a retumbante “vitória da
>esquerda”.
>Sem querer ser desmancha-prazeres sempre vos digo que
>seria prudente moderar os ímpetos e passo a explicar
>por quê.
>
>A melhor distinção direita-esquerda que conheço é:
>todos dizem desejar o bem público mas para a direita
>ele é alcançável sem acabar com o capitalismo e para a
>esquerda é imprescindível a transformação radical do
>sistema. É portanto à luz desta definição que eu
>avalio os resultados de 20 de Fevereiro.
>
>A pergunta que deve ser formulada é: havia no dia 20
>de Fevereiro mais portugueses convencidos da
>necessidade da superação do capitalismo, dispostos a
>propiciar a emergência de uma nova forma de produzir
>em sociedade, do que no dia 20 de Janeiro ?
>Aposto que não.
>Até penso que grande parte dos votantes dos partidos
>de esquerda nem sequer associam o PSD e o CDS ao
>governo Santana/Portas que tão claramente mostraram
>rejeitar. Grande parte dos dirigentes do PSD saem até
>prestigiados pela mão da esquerda desta curta
>experiência “santanista” (lembramos Pacheco Pereira,
>Marcelo, Cavaco, Manuela Ferreira Leite, António
>Borges e muitos outros) e constituem-se como perigosos
>inimigos futuros.
>
>A culpa disto tem que ser atribuída àqueles que, por
>sofreguidão do poder, concentraram todos os trunfos
>eleitorais na exploração, até à náusea, das
>“peripécias santanistas”, tirando partido de uma fama
>longamente construída do “play-boy” e explorando a
>tendência portuguesa para a inveja (como explica
>Fernando Gil).
>
>A exploração fácil do “santanismo” foi, pelo sim pelo
>não, complementada pelo elenco habitual de “medidas
>sociais” em que cada partido tenta sempre superar os
>concorrentes esmerando-se no “caderno reivindicativo”
>(Sócrates considerou Bagão populista por baixar as
>taxas de IRS mas considera responsável prometer “tirar
>300.000 idosos da miséria” e a “criação de 150.000
>postos de trabalho”).
>
>Alguns dirão que sem este oportunismo a esquerda não
>teria vencido as eleições mas cabe perguntar se esta
>vitória serve para alguma coisa. Cabe perguntar se
>vencer sem um claro programa de transformações
>progressistas não redundará, como no passado, numa
>nova machadada na esperança que os portugueses
>deveriam depositar na esquerda (a desilusão que
>percorre a sociedade brasileira na sequência da
>eleição de Lula da Silva é ilustrativa deste perigo).
>
>Quando falo de transformações progressistas estou a
>pensar na definição de esquerda apresentada mais
>acima, numa mudança de paradigma sócio-económico, e
>não do “Estado Social” que é hoje, por falta de
>imaginação, a bandeira de todos os partidos à esquerda
>do PSD. Temos em Portugal um partido que se chama
>“social-democrata”, o PSD, mas aqueles que realmente
>defendem a social-democracia, entendida como
>“capitalismo+estado social”, são o PS, o PCP e o BE.
>
>Por muito que invoquem o “marxismo-leninismo” ou as
>“propostas fracturantes” quer o PCP quer o BE (do PS
>nem vale a pena falar) têm vindo a capitular perante o
>modelo da social-democracia. Desapareceram as
>referências à superação do capitalismo que é cada vez
>mais contestado com base nas injustiças da
>redistribuição e não por constituir um empecilho para
>o desenvolvimento da espécie humana.
>Trata-se mais de “cuidar dos pobrezinhos” do que de
>abrir caminho para um novo patamar da humanidade em
>que os “pobrezinhos” sejam um anacronismo.
>
>Para aqueles que duvidem do que eu digo deixo um
>desafio: imaginem que a maioria absoluta tinha sido
>dada não ao Sócrates mas ao Louçã, ou ao Jerónimo e
>pensem, no vosso íntimo, se eles realmente estão
>preparados, se têm vindo a criar as condições
>políticas para transformar profundamente a nossa
>sociedade.
>
>Em suma: venceu a “esquerda” que temos e perdeu a
>esquerda que devíamos ter.
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