| Subject: verbo "radical" do costume? |
Author:
paulo fidalgo
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Date Posted: 6/03/05 12:09:38
In reply to:
Alexandra Inácio
's message, "Re: Jerónimo de Sousa equipara BE ao PS" on 6/03/05 11:17:46
acho um total erro de avaliação essa de insistir que o BE é a continuação do "radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista", bem como acho totalmente contraproducente dizer que BE=PS. Pode vociferar-se acerca deste ou daquele rótulo para sublinhar a nossa - do PCP - indentidade/especificidade, mas isso só resulta se os rótulos forem verdadeiros.
Para dizer que não se concorda com a opção de revisão parlamentar, em comissão, do código, basta enunciar os argumentos para tal e não é preciso explorar o avanço do verbo para construir uma fantasia política.
Pelos vistos, o argumento do PCP, para propor outra solução - um projecto de lei que irá ser agendado quando for, sem cuidar da sua viabilidade, pelo menos aparentemente, destina-se a mostrar ao povo que o PC é um categórico defensor de uma solução e que os outros não serão (uma tese por demonstrar).
Acho é que os comunistas nunca empreenderam batalhas para mostrar ou reafirmar posiçoes, mas sim para resolver problemas.
Ora, no que ao código diz respeito, há uma importante parte do PS que deseja a sua revisão, em pontos fulcrais, há uma posição nesse sentido da UGT e da CGTP, os patrões estão aos gritos por causa dessa reclamação; o PS disse na campanha que ia fazer uma revisão antecipada do código; é uma evidência que o código bagão foi uma razão para a derrota da direita e a vitória da esquerda. Como não há governo de esquerda, com a esquerda, então o caminho não é gerar uma solução parlamentar? Eu acho que a iniciativa do BE faz sentido, tanto quanto leio na imprensa. Se é mais demorada, é-o por quantos meses? E terá ou não maior viabilidade de resultar numa alteração efectiva ou não. Em comparação com a iniciativa identitária de um PCP que se preocupa apenas em mostrar como é muito proletário.
Ora, a esta conduta "radical" do PCP, que privilegia mais o verbo do projecto-lei, do que a mundança real da lei é que se aplicam os celebérrimos ensinamentos do livro de Álvaro Cunhal "O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista" obra aliás injustamente esquecida...
Um segundo plano está na curiosa tática de dizer que o BE = PS, depois de, durante os governo Guterres, andar com a tecla PS=PSD, uma infelicíssima e esquerdíssima táctica funesta, tacitamente "revista" nesta campanha eleitoral.
Eu acho quer o BE tem um cometimento anticapitalista mais indefinido do que o PCP, e está portanto em muitos aspectos, e até sociologicamente, num meio caminho entre PS e PC. Mas aceitar diferenças e nuances é uma coisa. Colapsar tudo e meter tudo na mesma panela só serve para iludir e afrontar a consciência dos apoiantes do BE.
Um terceiro plano é a teoria dos acordos pontuais como eixo de actuação institucional, prometido na campanha pelo PCP e pelo BE e que eu acho erradíssima.
É uma evidência que com estas iniciativas, o PC quer mostrar frenesim parlamentar e isso nem é criticável. É mesmo desejável.
O que me preocupa é perceber se em vez do minimalismo dos acordos pontuais, vamos antes ter descordos constantes mascarados de cargas de ombro para erosionar o mais depressa possível a base de apoio do PS. Isso é mais uma vez a táctica do suco da barbatana.
O que a situação exige é a esquerda pedir ao PS para considerar um conjunto de problemas inadiáveis e desafiá-lo para um acordo "pontual" se não quisermos ferir o discurso anterior. Mas fazê-lo num espírito aberto e sinceramente empenhado numa solução.
Se o PS ignora e afronta a maioria de esquerda vitoriosa no País (e afronta sectores importantes do próprio PS), e forma um governo de "centro", a resposta só pode ser mostrar na prática como o governo está fragilizado por afinal assentar numa estreita faixa de gente de mentalidade conservadora.
Se é capaz de aceitar considerar um amplo desafio com o caderno reivindicativo da esquerda, isso poderia ser testado. Se se inclinar para recusar, fica no mínimo em maus lençois para explicar ao país com quem um governo tão centrista vai afinal governar... Este terceiro comentário ainda é fruto de uma reacção epidérmica de desagrado com o conhecimento do governo e nisto discordo completamente do Narciso citado noutro sítio no dotecome, mas admito ainda outros pontos de vista para definir uma linha...
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