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Subject: Quatro anos


Author:
Correia de Campos
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Date Posted: 11/03/05 22:39:17

Quatro anos é muito e pouco tempo, do mesmo passo.
Será muito tempo, tempo perdido, se no final, as mulheres condenadas pela procriação não desejada ou desiludidas pela não assistida, os doentes de cancro tardiamente diagnosticados e mediocremente tratados, os doentes mortalmente infectados nos hospitais que os deveriam recuperar, os imigrantes que não entendem os labirintos da burocracia sanitária, os doentes terminais, os portadores de deficiência mal assistida, os que dormem nas arcadas ou nos vãos de escada, os velhos sós que mendigam conversa e se plantam, de madrugada, à porta do centro de saúde, os velhos doentes e os doentes crónicos, cada vez mais velhos e cada vez mais doentes, a cargo de famílias desesperadas, sem meios nem apoios, empurrados do hospital para um domicílio inexistente, um divã numa marquise suburbana, ausentes cuidados. Sim, será tempo perdido, se continuarem a ser apenas tema de discurso, em vez de actores. Se o conhecimento, a inovação e a adequada tecnologia para a saúde continuarem a ser mal copiados, descuidados sem ambição ou meramente comprados ao estrangeiro. Se os interesses profissionais dos assistentes sobrelevarem o interesse dos assistidos, se a estratégia do crescimento em mais um mercado vencer a estratégia da equidade, se a desejável lógica de mercado em tudo o que o mercado faça melhor que o Estado deixar perverter a concorrência pela dominação, se não se contiver a hemorragia da despesa desnecessária, se não se conseguirem introduzir novos parceiros locais na relação de proximidade entre serviços de saúde e cidadãos-utentes, se não se conseguir, finalmente, passar a mensagem do nº 1 do artigo 64º da Constituição de que "todos têm direito à protecção da saúde, [mas todos têm] o dever de a defender e promover". Sim, daqui a quatro anos, nestas e noutras matérias, se tudo continuar como está, então foi tempo perdido, tempo a mais.
Mas quatro anos serão tempo a menos, tempo curto, tempo bem utilizado, se os cuidados primários florescerem paulatinamente, com profissionais suficientes, bem treinados e bem apoiados, tratamento urbano dos assistidos, se idosos e suas famílias encontrarem uma solução adequada a cada caso, sem descarte egoísta nem fardo insuportável, se os toxicodependentes forem agarrados pelo sistema de saúde em vez de pelo sistema de distribuição da droga, se os portadores de VIH e outras doenças transmissíveis souberem onde se tratar e como parar a cadeia de contágio, se hospitais e centros de saúde estiverem ligados entre si sem hegemonias nem recriminações. Se todos os hospitais souberem e puderem tratar bem o cancro, deixando para os mais especializados os casos mais complexos. Se todas as escolas disseminarem conhecimentos de saúde e sobretudo de vida saudável pelos seus alunos, criando nos adolescentes a noção de que o desporto sadio é tão "cool" como a 24 de Julho ou a Ribeira, que a entreajuda e a alegria de viver e o ar livre são pelo menos tão saborosos como a cervejada semanal e o maço diário, que beber com moderação em ocasiões festivas, designando um condutor rotativamente abstémio, é a melhor forma de não perder dolorosamente amigos e amigas na flor da vida.
Se no final dos próximos quatro anos, os nossos velhos vierem a ser mais bem acompanhados, os nossos doentes crónicos, nomeadamente de cancro e outras doenças de alta severidade, vierem a ser mais bem assistidos se, em cada ano, os ainda mais de mil mortos de acidentes de viação, os quase 500 de acidentes de trabalho, os quase mil de sida, as dezenas de milhares de mortos prematuros devido a doença cárdio e cérebro-vascular, a patologias respiratórias e digestivas evitáveis com exercício regular e redução do tabaco e álcool, os quase 80 mil atingidos por infecção hospitalar, dez por cento dos quais morrem, puderem deixar de contar nessa epidemia silenciosa, então sim, valeu a pena. Valeu a pena ver minguado o convívio com família, sobretudo pais, filhos e netos emergentes, alguns amigos a afastarem-se e novos amigos a seduzirem-nos, o colesterol, a arritmia, as articulações a emperrarem e a perda de memória a avançar em surdina, a conta bancária sem aumento ou em regressão, o corpo a envelhecer dez anos em quatro. Mesmo assim, terá valido a pena, ainda que se tenha interrompido o contacto com os fiéis leitores das sextas-feiras ímpares do PÚBLICO. Professor universitário

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