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Subject: Um Jardim a sério


Author:
António Vilarigues
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Date Posted: 3/03/05 11:58:29

Um Jardim a sério

António Vilarigues*, Público, 03/03/05

Jardim é aquilo a que se chama um animal político - que, como creio ter demonstrado, deve ser levado a sério,
muito a sério mesmo. Ainda vamos assistir a novas
desempenhos seus, antes que abandone a ribalta. Mas...

Estou siderado! Fiz uma sondagem entre familiares, amigos e conhecidos e cheguei à conclusão de que pertenço a uma imensa minoria: a dos que levam Alberto João Jardim a sério. Para a maioria ele não passa de um pândego.

Penso que se enganam. Mais. Alberto João merece ser um estudo de caso em qualquer universidade. Quanto mais não seja porque as suas 37 vitórias eleitorais não são fruto do acaso. Bem pelo contrário.

Tudo começou nos anos 70, no pós 25 de Abril. Foi a época do apoio mais ou menos claro por parte de Jardim e dos seus apaniguados às actividades separatistas na Madeira como arma de pressão e chantagem sobre a situação política nacional.

Foi a época da intolerância, das perseguições, do bombismo, das interdições profissionais - quem fosse de esquerda não era admitido na administração pública madeirense. Foi a época da colocação de muitos ex-fascistas nas oresidências e nas vereações das câmaras e das juntas de freguesia. Nesta fase foram lançadas as bases da criação de uma clientela política, dependente em termos económicos e de emprego, que viria a exercer uma actividade caciqueira sobre a população.

Os anos 80 viram surgir em todo o seu esplendor o Jardim dito anti-regime. Nas sucessivas revisões constitucionais Jardim assumiu-se sempre como o porta-voz das posições mais "radicais" da direita. Objectivamente, funcionou como a tropa de choque que permitia ao PPD/PSD aparecer com uma posição mais mitigada nas negociações com o PS e daí retirar os devidos dividendos. Nestes anos consolida-se o domínio total da comunicação social, bem como a política de favores e de compadrio. Assiste-se na Madeira ao esbanjamento dos dinheiros públicos em investimentos não produtivos, mas que enchem o olho. Ano após ano verificam-se sucessivas coberturas do défice da região (que chega a atingir o dobro do PIB da Madeira) pelo governo da República. Mas é também nos anos 80 que se procede à electrificação, à abertura de estradas, à construção de equipamentos sociais. Jardim, através duma exemplar política populista, manipula como ninguém os sentimentos regionalistas da população madeirense.

Anos 90 e é o auge dos fundos europeus. A administração pública, no seu sentido mais lato, torna-se o principal empregador (35%) da Região Autónoma da Madeira. Jardim mantém a "chama acesa". Guerra (que já vinha de longe) com sucessivos ministros da República. Desrespeito permanente pelos outros órgãos de soberania. Utilização da necessidade dos votos dos deputados da Madeira na Assembleia da República para fazer aprovar o Orçamento como arma para continuar a usufruir do mesmo. Perdão da dívida pelo Governo de Guterres, mas choques mais ou menos agudos com um Cavaco Silva centralizador. Mantém-se a lei eleitoral não proporcional que vigora nas eleições regionais desde 1976. Continua a saga do "adeus que me vou embora", mas regressa sempre para mais um mandato.

Século XXI. A clientela política está instalada. A comunicação social, salvo raras excepções, está controlada. A situação financeira é mais desafogada, com novo perdão da dívida, desta vez pelo Governo de Durão Barroso. Mantêm-se as tendências para o exercício absoluto e autoritário do poder por parte de Alberto João Jardim e seus amigos. Prossegue o populismo extremo.

Jardim é aquilo a que se chama "um animal político" - que, como creio ter demonstrado, deve ser levado a sério, muito a sério mesmo. Ainda vamos assistir a novas desempenhos seus, antes que abandone a ribalta. Mas...

Primeiros sinais de declínio. Fruto do trabalho persistente de esclarecimento de décadas, cresce a consciência social entre a população da Madeira. Consciência de que é inegável que com a autonomia se modificou radicalmente a vida da região. De que a autonomia constitucional é uma conquista de Abril que se reveste de características inovadoras face ao tradicional Estado fortemente centralizado e centralizador. De que cada vez mais se impõe o desenvolvimento de uma nova fase do exercício da autonomia, visando valorizá-la e credibilizá-la em todas as suas vertentes, tornando-a eficaz no cumprimento das suas funções de combater e vencer as desigualdades sociais e as assimetrias locais, e de resolver os problemas específicos das populações da região autónoma.

E não há Carnavais nem festas do PSD capazes de contrariar este movimento.

*Especialista em sistemas de informação

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