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PEDRO ROLO DUARTE, Editorial, DN, 29/06/05
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Date Posted: 29/06/05 13:15:45
In reply to:
Comissão do PCP para a Luta e Movimento das Mulheres
's message, "A maioria parlamentar do PS nada alterou: aborto clandestino e julgamentos de mulheres continuam!" on 27/06/05 23:52:45
O calendário do aborto
Porque está em causa um drama que afecta dezenas de milhares de mulheres, o referendo sobre o aborto deveria ser feito fora do ambiente histérico das campanhas eleitorais, longe da guerra dos partidos
PEDRO ROLO DUARTE, Editorial, DN, 29/06/05
A decisão de José Sócrates de recuperar o tema do aborto e a possibilidade de um presumível referendo vir a ocorrer depois das eleições autárquicas, mas já em plena campanha presidencial, demonstram, uma vez mais, que em política não há lugar para ingenuidades nem espaço para manobras que não obedeçam a estratégias orquestradas. Efectivamente, tal cenário fará mergulhar o debate presidencial num confronto entre esquerda e direita sobre a interrupção voluntária da gravidez e não, como seria desejável, uma discussão séria sobre quem é a pessoa que merece ocupar a Presidência da República. Confortável estará, então, o candidato da esquerda - seja quem for - e condicionado ficará o candidato do centro-direita, por melhor que explique o "não". Como Cavaco Silva já fez. A estratégia serve, portanto, o PS e José Sócrates.
A questão, no entanto, vai muito para lá desta lógica minuciosa que a estratégia política determina. Em Portugal, o debate sobre a despenalização do aborto tem constituído, regra geral, arma de arremesso entre esquerda e direita, desvirtuando o fundo da questão, que é efectivamente de carácter individual, de consciência, e que não deve ser confundido com posições de cariz ideológico ou carreirismos partidários absurdos.
Pela delicadeza da matéria, pela sua relevância, e acima de tudo porque está em causa um drama social que afecta dezenas de milhares de mulheres, e por essa via boa parte das famílias portuguesas, o referendo sobre o aborto, e a discussão prévia que implica, deveria ser feito num período de tranquilidade e paz, fora do ambiente histérico das campanhas eleitorais, longe da guerra dos partidos ou dos candidatos à Presidência da República. Exige-se seriedade e senso num dossier que deveria merecer dos políticos o mais profundo respeito. A confirmar-se um calendário que enquadre o referendo num tempo de disputa eleitoral, uma vez mais fica hipotecada qualquer hipótese de chegarmos a um resultado sensato e representativo do sentir dos portugueses. Ou seja, uma vez mais se desrespeita a relevância do tema. Infelizmente, nada a que não estejamos já habituados num país onde tudo gira na órbita dos interesses partidários e dos seus estudados calendários.
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