Author:
Filipe Rodrigues da Silva
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Date Posted: 14/06/05 18:29:40
In reply to:
Secretariado do Comité Central do PCP
's message, "Sobre o falecimento de Eugénio de Andrade" on 14/06/05 13:32:59
Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal
Filipe Rodrigues da Silva, diário digital
«É todo um mundo confuso». Assim começava «Os Amantes Sem Dinheiro», de Eugénio de Andrade, possivelmente - que me desculpem, entre outros, os defensores de Pessoa - o maior poeta português de sempre.
Eugénio de Andrade - a expressão artística de José Fontinhas - seguiu ao longo da sua vida três coordenadas na obra poética: o Homem, a terra e a palavra. E aí brilhou com o seu lirismo primordial e puro, fruto de uma harmonia e musicalidade intensas, resultando numa escrita sensual e metafórica.
O seu desaparecimento aos 82 anos constitui uma perda enorme para a língua portuguesa e a cultura nacional. Não houve muitos homens em Portugal com o seu talento, a sua genialidade e sensibilidade. E de certeza não aparecerão muitos na nossa história.
Quis o destino que o dia do seu desaparecimento deste mundo coincidisse com o da morte de Álvaro Cunhal, este com 91 anos. Goste-se ou não da figura, comunista ou não, ninguém no seu perfeito juízo pode ficar indiferente a este ícone histórico português e à sua contribuição para a introdução da democracia no nosso país.
Cunhal foi dos maiores portugueses de sempre. Maior na grandeza, no patriotismo, no intelecto, na resistência, na luta, no labor. Da política à cultura. Defendeu sempre as suas ideias e princípios sem se ajoelhar. Concorde-se ou não com os mesmos ou com as suas aplicações, essa natureza é algo que deve ser passado para as gerações futuras. À sua maneira e com a sua fé, mesmo sendo ultrapassado pelas mutações sociais da Perestroika e o sentido renovador do comunismo, também ele tentou tornar este mundo menos confuso. Tal como Eugénio de Andrade. O poeta que um dia escreveu:
«O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.
Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.
Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.»
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