Author:
Vasco Pulido Valente
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Date Posted: 24/06/05 8:38:43
Nada mostra melhor o absurdo da "construção" de Bruxelas do que a sentença do comissário Almunia. No sossego do seu escritório, bem longe da pegajosa realidade portuguesa, o comissário declarou a política de Sócrates "rigorosa e racional", mas no conjunto insatisfatória. A "dimensão do défice" previsto para 2005 é "tão elevada" que ele decidiu agir "sem demora" e abrir um "procedimento" punitivo. Não vale a pena entrar em pormenores sobre as recomendações de Almunia, que não excedem a retórica do costume. Basta dizer que ele quer uma redução drástica das despesas. Não traz novidade nenhuma. Sócrates também quer o mesmo e não há por aí economista que no fundo discorde. Só a gente mais ligada ao Partido Socialista, et pour cause, mantém por agora uma certa reserva.
A receita de reduzir a despesa, que parece evidente de um restaurante de Lisboa ou de conferência em Bruxelas, põe ou, se preferirem, pede, exige, implora uma pergunta: como? Almunia não se pronuncia e aqui a resposta fica sempre pela ambiguidade: serviços a suprimir ou a "emagrecer". Ninguém nunca aponta o dedo a um serviço específico, pela razão lusitana e compreensível de que já sabe o resultado: grande gritaria, grande indignação e o mundo inteiro a explicar a necessidade absoluta e excelso mérito do serviço em causa. Pontificar não custa, custa fazer. Tanto mais quando se trata de Portugal, de uma sociedade dominada pelo Estado e de uma cultura política estatista como não existe outra na Europa, até em França. Não era difícil perceber que as "medidas" de Sócrates não iriam longe. Não se muda a natureza de um país com "medidas". Infelizmente, fora as "medidas", não alvoreceu ainda uma única ideia do cérebro dos peritos.
Entretanto, os professores começaram a sua guerra, que vai fatalmente durar. Os polícias, 10 mil, saíram à rua, uma coisa manifestamente perigosa. E falta ainda o resto, que não é pouco. Claro que, por si, a "agitação social" não leva longe. Mas pode tornar impraticável a vida do Governo, se por sistema dirigir o voto contra quem tenta "reformar" o Estado e a favor de quem o tenta conservar. Se o PS perder por muito nas locais, particularmente em Lisboa e no Porto, e Cavaco for eleito por 60 ou 70 por cento, Sócrates não dura quatro anos. E Portugal fica ingovernável. O comissário Almunia com certeza que não suspeita disso.
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