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Subject: Um rosto para o inimigo


Author:
Correia da Fonseca
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Date Posted: 20/05/05 22:41:40

Um rosto para o inimigo

Correia da Fonseca, Avante, 19/05/05

O tema daquela emissão do «Prós e Contras» era a «Corrupção – inimigo sem rosto», mas a RTP, esforçadíssima como sempre, lá conseguiu arranjar um rosto: o de Isaltino Afonso de Morais, o presidente da Câmara de Oeiras que Durão Barroso conseguiu um dia convencer a «subir» a ministro, coisa que o autarca não queria, ao que consta.

Por mim, lembro-me de ele ter dito um dia que um presidente de câmara tem mais poderes que um ministro, o que não é difícil de acreditar, mas o facto é que cedeu.

E o resultado disso, a médio prazo, foi o que na segunda-feira se viu: a RTP exibiu-o perante o País inteiro como exemplo concreto da corrupção que era o tema do seu programa.

Que Isaltino Morais tenha aceite essa situação, é atribuível ao desejo de se defender publicamente das acusações que lhe têm sido feitas pelos media enquanto a própria Justiça não avança formalmente com a sua própria acusação.

Quanto às motivações da própria RTP, a questão é um pouco mais complicada. Há, é claro, o vivo desejo de cumprir o seu dever: bem se sabe que a RTP é doidinha por informar com isenção, pluralismo e objectividade (não confundir com abjectividade, que é uma outra característica, menos nobre, em que por vezes ela parece incorrer).

Mas os pessimistas, e bem se sabe que sempre os há, poderão imaginar que ao colocar Isaltino Morais na efectiva posição de exemplo de corrupção a RTP fez, de caminho, um precioso frete ao dr. Marques Mendes.

Na verdade, os cidadãos telespectadores que sabem destas coisas muito por alto e muito por alto formam convencimentos, tão alto que por vezes mais parecem andar na estratosfera, ter-se-ão apercebido naquela noite de que o dr. Mendes estava cheio de razão ao afastar Isaltino da candidatura PSD às próximas autárquicas.

Há, é claro, aquele princípio, a que ninguém liga, da presunção de inocência que deve defender o nome e a dignidade de qualquer suspeito, mas toda a gente disse, ali, no «Prós e Contras», que isso da presunção de inocência é chão que nunca deu uvas.

Quanto ao dr. Marques Mendes, recordo com enlevo como Fátima Campos Ferreira se espevitou quando Isaltino se permitiu arranhar muito ao de leve o seu bem-amado líder. Não sei se a reacção da jornalista é muito significativa, mas não sou tão optimista que a considere de todo irrelevante.

Os corruptores, coitadinhos

Mas além do julgamento telepopular do dr. Isaltino, houve no programa um outro aspecto que muito me interessou e que, aliás, me parece bem mais importante.

Julgava eu, ingénuo e desinformado, que o crime de corrupção implicava, digamos, duas pontas, e que não haveria abissal distância ética, pelo menos essa, entre um dos lados, o do corrupto, e o outro lado, o do corruptor.

Veio, porém, Francisco Van Zeller e arrasou a minha ignorância, sobre ela edificando um apreciável grau de conhecimento: disse ele que os empresários corruptos (de que ele aliás nem quer ouvir falar, como sublinhou) são uns infelizes, uns tristes, uns desesperados, porque, como o outro de saudosa memória, só querem que os deixem trabalhar.

Pelos vistos, os dinheiros que eles esportulam nos actos de corrupção, e naturalmente os crimes que eles configuram, são actos de patriotismo, é certo que forçados pelas circunstâncias, mas patriotismo.

O que eles querem, abençoe-os os céus, é que o País se desenvolva, avance, e nem sei como não saiu da sua intervenção um apelo aos governos para que os corruptores sejam agraciados em cada 10 de Junho.

Não hei-de ter sido eu o único a sentir-me tocado pelo desinteresse que anima os corruptores. Uma coisa, porém, me parece certa, e dela aliás já tinha uma nítida noção: a chamada opinião pública já está suficientemente educada para separar o trigo, que são os corruptores, do joio, que são os corruptos.

Claro sinal desse facto é estar generalizada a convicção de que os políticos (e por inevitável arrasto a democracia que os trouxe à tona da evidência, pois em verdade já existiam políticos e corruptos durante o fascismo, mas ninguém podia dar por eles) estão pessoalmente vistos pela generalidade das gentes, mas os senhores empresários, sobretudo os grandes, são olhados com admiração e respeito, promovidos pelos media à invejável condição de heróis do nosso tempo.

E, quanto à corrupção, referida como «inimigo sem rosto», passou a ter rosto graças a este «Prós e Contras»: tem barbas e óculos. Se as alegrias não o excitam muito, o dr. Marques Mendes há-de ter dormido uma noite descansadinha.

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