Author:
Jerónimo de Sousa
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Date Posted: 10/05/05 20:03:11
In reply to:
Observador Comunista.
's message, "O internacionalismo do PCP!" on 10/05/05 19:35:10
Jerónimo de Sousa, no Colóquio sobre "Defesa do Sector Têxtil e Vestuário", em Guimarães, em 07-05-05
"(...) Não são a China, o Paquistão ou a Índia os responsáveis pela perpetuação do nosso atraso, das nossas actuais dificuldades e problemas.
Os seus Estados defenderam e defendem os seus interesses nacionais e o dos seus povos, tarefa que em momentos decisivos da nossa história recente, os governos de Portugal abdicaram de realizar.
Não são os outros que podem ser responsabilizados pelas desastrosas políticas macroeconómicas neoliberais, monetaristas e parasitárias que se concretizaram nos últimos anos no nosso país, mas os governos de Portugal que de forma subserviente claudicaram na defesa dos nossos interesses trocando a defesa dos sectores produtivos nacionais por uns milhões de euros que desapareceram sem vantagens como água na areia.
Não é a China a responsável pela ligeireza e leviandade com que foram tratadas as negociações em vários momentos no âmbito da Organização Mundial do Comércio, mas sim os governos do PSD e do PS, quer no acordo ATV, quer relativamente às inadmissíveis cedências de liberalização unilateral decididas pela União Europeia, orientações que servilmente aceitaram.
Não podemos culpar terceiros, mas sim o governo português, quando em 2001, sem debate nacional, sem diálogo com o sector e sem uma avaliação das consequências e condições em que a China entra na Organização Mundial do Comércio se passa um cheque em branco a Bruxelas para negociar, permitindo que se trocassem os interesses da nossa indústria têxtil e do vestuário pelos interesses dos grandes grupos económicos e dos países mais fortes que comem em dois carrinhos, na colocação dos seus produtos sem concorrência em todo o mundo e com a deslocalização das suas indústrias sugando as vantagens dos salários baixos.
Poderemos, porventura, culpar alguém se não os nossos responsáveis nacionais e a sua desastrosa política pela passiva aceitação de um euro supervalorizado que acentuou todas as dificuldades e a competitividade no mercado interno e externo do nosso sector têxtil e vestuário e de todos os sectores exportadores portugueses?
A nova cruzada que está em marcha que faz da China o grande inimigo de onde se quer fazer crer que vêm todos os males serve apenas para tentar esconder as responsabilidades de uma politica nacional de resignação.
O discurso da responsabilização da China, agora em voga não pode servir também para escamotear a acção predadora das grandes multinacionais do sector têxtil que são quem efectivamente ganha com a liberalização do comércio mundial.
A constante deslocalização da produção dos têxteis em busca de regiões com baixos custos da mão-de-obra (ou seja dos salários), leva a que estes gigantes do retalho têxtil, as grandes marcas mundiais cujas lojas e armazéns estão nas principais capitais do mundo, vendam a preços astronómicos produções miseravelmente pagas aos seus efectivos produtores.
Se analisarmos o exemplo que Chossudovsky apresenta no seu livro A Globalização da Pobreza, em 1992 a produção de uma dúzia de camisas produzidas numa fábrica do Bangladesh, 71,8% do preço de venda dessas camisas num grande armazém dos Estados Unidos, correspondia aos ganhos dos distribuidores nos EUA. Dos 292,60 dólares que essa dúzia de camisas custava ao consumidor americano, apenas 5 dólares correspondiam a salários dos operários têxteis, e 3 dólares ao lucro do indústrial do Bangladesh.
Este exemplo é demonstrativo em como ainda antes da liberalização do comércio têxtil mundial, os verdadeiros interessados nesta política comercial são os grandes grupos que detêm as marcas que de facto aniquilam as indústrias têxteis, e em especial os seus operários em qualquer parte do mundo.
Esta referência é importante para responsabilizarmos quem efectivamente deve ser responsabilizado, e não aqueles que confrontados com as regras do jogo capitalista, na fase actual, encontram na produção têxtil uma forma de garantirem algum sustento para o seu povo." (...)
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