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Subject: As particularidades da luta democrática no Iraque


Author:
www.comunistas.info
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Date Posted: 19/10/05 8:47:55

Houzan Mahmoud: uma estrela na tarde de Lisboa



comentário de Paulo Fidalgo, 17/10/05





A ocupação americana do Iraque trouxe ao nosso imaginário o regresso do imperialismo clássico, da ocupação de colónias por potências rapaces que delapidam, sugam e oprimem, inclusive manu militare, os recursos naturais. Como antes sucedeu, em Angola ou Moçambique.



Daí que, quase automaticamente, a resposta da esquerda fosse a do combate pelo imediato fim da ocupação e uma por vezes irreflectida simpatia por toda e qualquer expressão de insurgência que usasse armas. Provavelmente pela memória das heróicas sublevações armadas dos povos argelino, vietnamita e de tantos outros.



De facto, entre a numerosa assistência à sessão que ouviu Houzan Mahmoud, no sábado 15/10/05, no museu República e Resistência, houve surpresa pela forma como os iraquianos vêm o problema da luta armada na situação concreta de hoje, no Iraque. A surpresa foi obviamente a de as forças progressistas considerarem que a luta armada de libertação, para muitos dos presentes uma receita tida como universal para todas as ocupações, não constituir, neste momento, e repete-se e sublinha-se, “neste momento”, uma prioridade.



O mais importante, disse a dirigente do partido dos trabalhadores comunistas do Iraque, é organizar as pessoas a montar um movimento amplo social e político que as proteja, que as abrigue do gangsterismo, dos grupos fascistas islâmicos e da arbitrariedade dos militares estrangeiros, num quadro de caos e de completo colapso do Estado.



Ao falar da prioridade da acção popular, legal e pacífica, ainda que orientada igualmente para a auto-defesa armada nos abrigos para perseguidos, suscitou a camarada numerosas perguntas. Como encarar o fim da ocupação por via pacífica? Como não «ocupar o espaço» da luta armada e deixá-lo livre às forças negras do fascismo islâmico? Para muitos dos presentes, a intervenção de Houzan, parecia de um pacifismo obstinado, quase evocando a linha do Congresso Nacional Indiano de Mahatma Ghandi, ou do Congresso Nacional Africano também de Ghandi e de Nelson Mandela, pelo menos até ao célebre incidente de Rivonia, em 1961.



Aliás, a evocação é de certo modo intuitiva na medida em que o formato político unitário adoptou no Iraque o nome de Congresso pela Liberdade do Iraque, um nome equivalente ao Congresso Nacional Indiano e ao Congresso Nacional da África do Sul.



A estas perplexidades, a camarada respondeu dizendo que os comunistas iraquianos não têm qualquer oposição «de princípio» à luta armada. Por isso não podem ser vistos como força pacifista à maneira de Ghandi, por exemplo. Apenas consideram, como força revolucionária e progressista que são, que a prioridade é montar uma organização social, sindical, e de auto-defesa que conquiste espaços de segurança e de perspectiva de vida às mais de 60% de mulheres e de homens que hoje nem atravessar a rua podem, com o mínimo de segurança.



A prioridade não é introduzir mais guerra onde o ambiente está afogado em caos, em gangsterismo e as forças negras andam à solta. A prioridade é organizar a vida colectiva.



Mas Houzan repetiu, incansável, que só o evoluir da situação ditará se e quando os iraquianos iniciarão uma fase armada de luta por um Iraque secular, democrático e independente.



Houzan manejou com maestria aqueles conceitos simples que sempre nos ensinaram que a táctica se determina pela situação concreta e que é errado pretender usar-se uma receita abstracta. Para a direcção iraquiana, devem os quadros ser prioritariamente orientados para organizar a luta popular. Seria de resto um desperdício utilizá-los para uma guerra mal compreendida pelos iraquianos quando o que estes ambicionam é acabar com a violência. E ainda por cima onde a via militar sacrificaria no imediato uma parte desses quadros sem conseguirem alcançar o fundamental: ajudar a gerar uma nova consciência política.



Houzan repetiu com ênfase que o alvo do fascismo islâmico são as populações iraquianas, mulheres que não usam véu e são decapitadas ou apedrejadas até à morte em público. Eles quase nunca atacam as forças de ocupação e apenas o fazem como operação de marketing para que a CNN neles repare. Esse truque é cada vez mais nítido para os iraquianos mas ainda não foi compreendido inteiramente na frente mundial de solidariedade com o Iraque.



Por outro lado, as forças americanas confinam-se ao seu espaço e não enfrentam o fascismo islâmico mesmo que estejam à sua vista a massacrar civis. «Eles não se metem» disse Houzan. E nós diríamos que não será difícil imaginar um cenário em que os americanos em apuros decidam ir-se e entregar tudo aos fascistas islâmicos, na tentativa de perturbar a marcha dos iraquianos para a democracia. Mesmo que isso leve à ignomínia de fazer proliferar um novo Irão ou uma nova Arábia Saudita.



Na forma de lidar com os soldados americanos, Houzan foi de uma tocante humanidade para nos fazer ver que a juventude americana no Iraque é a representante dos mais pobres e excluídos da América. Dos que vão em procura de uma bolsa para acabar o liceu ou que querem escapar ao desemprego e enviar cheques de dollars para a mãe pobre em Nova Orleães.



Qual é então o sentido de alvejar nesta altura americanos, quando a luta pelo fim da ocupação carece de muito mais desenvolvimento no mundo e em especial nos Estados Unidos?



Houzan foi enfática ao dizer que os maiores apoiantes da causa do secularismo, da democracia e da igualdade étnica e de género no Iraque são as organizações progressistas americanas e canadianas.



Os abrigos seguros do Congresso pela liberdade do Iraque, em Bagdad e noutras cidades, estão a ser generosamente financiados por gente progressista americana e estão mesmo a ser organizados e geridos por americanas solidárias com a causa do Iraque e dos direitos das mulheres. Contra a política de Bush e de Tony Blair.



“Eu não posso ir aos EUA e dizer às numerosas mães com quem tenho oportunidade de falar, que o nosso objectivo é abater americanos, seus filhos queridos. O que nós pretendemos é que os americanos compreendam cada vez melhor que a ocupação piorou todos os problemas do Iraque e que o seu fim é necessário no imediato. Para um tal objectivo, as mães americanas sentem-se reconfortadas e encorajadas a lutar contra Bush.



É por outro lado uma evidência cada vez maior para a opinião pública americana que a ocupação do Iraque está num atoleiro, sem perspectivas de constituir um negócio sequer para as companhias americanas que viajam na esteira dos comboios blindados ou do governo fantoche apoiado pelos americanos.



É verdade que os recursos naturais do Iraque são apetecíveis, mas nestas condições de ausência de Estado e de aparelhagem administrativa na generalidade do território, não é de crer que um negócio capitalista efectivo se possa consolidar.



Por outro lado, uma objecção de peso às ideias feitas sobre imperialismo, embora de índole teórica, é a que Ellen Maiksens Wood, a comunista canadiana que discute em profundidade a análise actual do imperialismo, nos diz. E essa característica é a de que o capitalismo, hoje, não visa especialmente a montagem de esquemas clássicos de opressão e pilhagem de recursos naturais ou extrair tributos para as metrópoles. O que se percebe é o esforço para clonar o capitalismo e a respectiva forma Estado e fazer novos espaços de capitalismo subordinado.



“O capitalismo torna possível uma nova forma de dominação por meios puramente económicos, argumenta Ellen Meiksins Wood. Assim, até o mais vistoso falcão da Casa Branca preferirá exercer a hegemonia global desta forma, sem os sarilhos da opressão colonial. Porém, como Wood o demonstra poderosamente, o império económico do capital também criou um novo e ilimitado militarismo.



Ao evidenciar o contraste do novo imperialismo com as formas históricas dos impérios Romano e Espanhol, e ao delinear o desenvolvimento do imperialismo capitalista como originário na dominação da Irlanda pelo capitalismo inglês e do império britânico na América e na Índia, Wood mostra como o império capitalista actual, uma economia global administrada por muitos estados locais, fez nascer uma nova doutrina militar de guerra infindável, nos seus propósitos e tempo de evolução”. Eric Hobsbawm em comentário ao livro de Ellen Meiksins Wood “Império do Capital” New York, 2003.”



Ora, desse ponto de visto, o fracasso americano é por agora total, pois que o caos não é propriamente o terreno para surgir um capitalismo apadrinhado pela máquina militar americana. A inacção e a falta de qualquer estabilização do governo fantoche são o principal marcador da derrota estratégica americana no Iraque.



O que se trata agora é de gerar uma correlação de forças no mundo e no Iraque que leve ao fim da ocupação e ao mesmo tempo dê lugar ao secularismo, à democracia e aos direitos humanos, e de modo algum faça proliferar mais Irão ou mais Arábia Saudita.



Faz pois mais sentido montar um forte movimento político e social, legal e pacífico, do que encetar uma prolongadíssima luta armada com a mais poderosa máquina de guerra do mundo. Até porque a crise iraquiana, o caos e as investidas do fascismo islâmico, bem como o esforço dos iraquianos e dos democratas em todo o mundo para inverter a situação, são muito mais eficazes em enfraquecer essa mesma máquina militar e o seu sustento político.



No caso dos países militarmente envolvidos, a acção pela paz procurou gerar mobilização pela imediata retirada das forças que os respectivos governos tinham decidido envolver. Esse grande movimento mundial foi saudado pela camarada Houzan Mahmoud como importante contribuição para a estabilização do Iraque.



A camarada sublinhou a penosa situação humanitária no Iraque. Como é gritante a ausência de medicamentos, é ainda esmagadora a falta de acesso a electricidade e a água potável, como as mulheres que são enforcadas e decapitadas por fascistas islâmicos, diariamente, e como um médico não pode tratar doentes do sexo feminino e vice-versa.



O terrorismo islâmico, dos grupos de Moktad Al Sadr e da Alkaida, aterrorizam e chacinam prioritariamente civis iraquianos, em proporções incalculáveis, e muito superiores em quantidade, aos efeitos da opressão da coligação americana e da sua poderosa máquina de guerra. Por cada americano morto no Iraque, são chacinados 200 iraquianos em média, pelas forças negras do fascismo islâmico, sem que os americanos e ingleses façam o que quer que seja de útil.



A verdade, disse Houzan, é que não há Estado ou organização civil minimamente de pé, fora do arame farpado das casernas dos militares estrangeiros e de uma restrita zona «verde» que circunda o governo fantoche de Bagdad. Governo que não goza de qualquer soberania no terreno, que está devastado por compromissos inter-tribos, muitíssimo retrógrados, e onde a corrupção floresce ao lado da mais negra miséria do povo. A própria constituição «votada em referendum» no sábado não é conhecida dos potenciais eleitores e contém normas absurdas como a legalização da violência doméstica do marido sobre a esposa. São estes compromissos entre a máquina militar americana e o reaccionarismo tribal e religioso que estão em construção no Iraque de hoje. É esta a realidade que em primeiro lugar deve ser combatida por uma consciência política e popular que urge construir. Sem tréguas e sem desvios ao essencial como eventualmente poderia suceder com uma prematura aposta em guerras



Sublinhou Houzan como é prioritário lutar pelo fim a da ocupação, mas que ao mesmo tempo o povo deseja o regresso ao secularismo, a um ambiente não étnico de organização do Estado, da instrução e da saúde e sobretudo deseja recuperar a dignidade e os direitos da mulher que sob a ocupação retrocederam para uma profunda idade de obscurantismo.



Em flagrante e chocante contraste com o papel histórico prodigioso do Iraque para a civilização humana, onde muito do que hoje somos, começou aí a ser.



Os problemas do Iraque, de falta de democracia, de desigualdade de género, de choques étnicos e religiosos vêm de trás. Mas pioraram muitíssimo com a ocupação. Daí que a luta democrática internacional pelo fim da ocupação tem convergido adequadamente com o Congresso pela Liberdade do Iraque. Mas tem convergido menos na consciência internacional de como é importante a luta pelo secularismo, a democracia e a igualdade de género. A solidariedade internacional não tem permitido mobilizar recursos na mesma proporção para apoiar os abrigos seguros e a auto-organização iraquiana. Houzan foi peremptória: «nós não queremos ficar à mercê da tirania islâmica fascista e negra!». O Iraque só pode sair da idade negra em que está a viver se resolver ao mesmo tempo o problema de construir uma sociedade baseada na identidade humana, independentemente do género, da origem étnica e religiosa.

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