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Date Posted: 8/10/05 11:43:19
Fazer da 1ª volta das presidenciais o primeiro dia da alternativa!
por Paulo Fidalgo, 04/10/05
Há mais política do que a aparência de choques entre Alegre e a direcção do PS e do que as pretensões supostamente territoriais das candidaturas de base partidária à esquerda do PS.
O problema foi a direcção do PS interpretar os resultados das legislativas como autorizando um governo centrista quando o pêndulo político do país se desviou para a esquerda.
Toldou-se a partir daí o ambiente, com uma parte da esquerda a fazer oposição mais ou menos encarniçada ao governo do Partido Socialista. O governo de Sócrates foi e é o responsável pelo acentuar das divisões, ao recusar reformas e insistir numa recessão da economia pública para que a expansão e a acumulação privadas voltem a reanimar-se.
Perdeu assim base social de apoio, pode ter um resultado medíocre nas autárquicas e cresce a ameaça de uma saída presidencial conservadora que quererá um rápido regresso da direita ao poder, se não mesmo promover uma mudança musculada de regime. O governo de Sócrates, perdeu capital político e está já em lenta agonia.
Por isso, a batalha subjacente às presidenciais é a de saber quem fica em melhores condições para condicionar uma recomposição do governo.
Se cavalgar o descontentamento, a direita pode ficar mais próxima de pressionar políticas e de se constituir até em promessa de governo a prazo. Se as esquerdas do PS e fora do PS progredirem, poderão influenciar uma recomposição com esta maioria parlamentar ou não.
Sócrates está porém a tempo de se antecipar, operar uma tal recomposição e explorar novos acordos. Se procurar na esquerda a inspiração, poderá ainda escapar ao plano inclinado da derrota.
É com o pano de fundo da estagnação capitalista que se explicam as fissuras sociais por detrás da actual fragmentação de candidaturas presidenciais.
Bem que os analistas burgueses encartados procuram despolitizar as disputas, sublinhando os ilícitos da direcção do PS para com Manuel Alegre, da reactividade supostamente emotiva deste contra Mário Soares, ou mesmo o pendor territorial das candidaturas monocasta de Francisco Louça ou de Jerónimo de Sousa.
Em todos estes funestos episódios estaria tão só a velha pecha da vaidade humana e não propriamente uma batalha crucial, política, onde cada vez menos portuguesas e portugueses estão dispostos a sujeitar-se ao ajustamento económico exigido pelo capital.
Um problema táctico particular das próximas presidenciais é a questão da aritmética da dispersão favorecer uma vitória de Cavaco na primeira volta ou favorecer pelo contrário uma mobilização da esquerda, melhor representada assim na sua pluralidade para reconstituir na segunda volta aquilo que é a sua natureza maioritária no país.
Durante muito tempo, olhou-se a dispersão como confusionismo, incapacidade de avaliar com sentido da totalidade os problemas nacionais e, portanto, como um brinde a Cavaco para uma vitória ao primeiro round. Esta avaliação procurava gerar uma única candidatura alternativa, bem colocada, para disputar a sério a eleição também na primeira volta.
Mas a verdade é que a direcção do PS namorou demasiado tempo com a ideia de uma coabitação entre Cavaco e o governo de Sócrates. Aumentou assim a pulsão para se precipitarem candidaturas alternativas. Por outro lado, como se disse, o governo de Sócrates tornou-se o grande divisor à esquerda. Finalmente, a direcção do PS fomentou a dissidência interna pela forma como lidou com a selecção do seu candidato.
Foi assim que a aritmética da concentração redundou na dispersão. De facto, ao enlear-se pelo abraço do governo e do aparelho do socialista, o candidato oficial do PS deixou de funcionar como aglutinador, para gerar ele sim dispersão. Neste quadro, as várias candidaturas de esquerda podem preencher afinal um espaço de mobilização para quem se recusa numa primeira volta a sufragar Mário Soares por ver nele apenas a segregação de um aparelho governamental e partidário. E podem mobilizar para uma vitória na segunda volta, desde que fique claro o seu divórcio em relação ao governo de Sócrates na primeira.
A primeira volta das presidenciais pode constituir assim como oportunidade de afirmar uma alternativa às políticas actuais.
O desafio a lançar portanto às candidaturas de esquerda é a de saber como podem ajudar a construir uma alternativa. Não é que o seu fulcro esteja no magistério presidencial, mas os votos da esquerda deveriam servir para equacionar um novo rumo para Portugal. Que relance a perspectiva da expansão económica, do desenvolvimento e do aprofundamento da democracia. Em sintonia com um movimento europeu que pressiona também ele mudanças profundas com vista a uma nova ideia social. Só se ganha espaço e derrota a direita quando se clarificar como e em que condições viabilizará a esquerda uma nova solução para o país. Por detrás do debate presidencial é o espectro da governabilidade, à esquerda, que assombra a acção de Manuel Alegre, Francisco Louça e Jerónimo de Sousa.
Cavaco, na discussão substantiva do país que queremos, nada tem a dizer que não sejam receitas caducas. É mais do mesmo. O que será necessariamente pior.
Só a esquerda pode agarrar a inovação nas reformas, numa nova prática governativa que dê prosperidade e aumente a participação. Se o souber fazer, se encarar de frente o problema de uma solução progressista de governo, a 1ª volta das presidenciais poderá então funcionar como o primeiro dia da construção de uma alternativa.
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