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Houzan Mahmoud (in LUSA/RTP)
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Date Posted: 18/10/05 12:33:41
Projecto de Constituição é só "um pedaço de papel"
A activista iraquiana Houzan Mahmoud defendeu hoje em Lisboa que o referendo no Iraque pretende apenas legitimar "um pedaço de papel" a que chamam Constituição e encobrir o problema maior da ocupação norte-americana e do terrorismo islâmico.
Em entrevista à Agência Lusa no dia em que decorre a consulta popular no Iraque para o projecto de Constituição, a representante da Organização pela Liberdade das Mulheres do Iraque considera que o referendo "é apenas uma manobra para legitimar um poder que apenas serve os interesses dos Estados Unidos e não o povo iraquiano".
"Os norte-americanos colocaram no poder as forças mais reaccionárias, de extrema-direita, fundamentalistas e tribalistas, que antes eram marginalizadas pela nossa sociedade, que não tinham lugar nas nossas vidas. Agora querem dominar a sociedade e impor a Sharia (lei islâmica), que retira todos os direitos às mulheres", disse.
"Todas estas forças reaccionárias estão a obrigar os iraquianos a dar a sua impressão digital para comprometer o futuro do Iraque, legitimar a opressão. Não tem nada a ver com uma justa e legítima representatividade para elaborar a Constituição", considera a iraquiana, que deu hoje em Lisboa uma conferência sobre a situação no seu país, organizada pelo jornal Pravda.
"Enquanto o país estiver ocupado, enquanto não houver segurança, enquanto as pessoas viverem aterrorizadas, como se pode estar informado do que quer que seja, como é possível escolher livremente?", questiona.
Se estivesse hoje no Iraque, garante, "não votaria".
Esta defensora dos direitos das mulheres considera que "o povo devia ter uma palavra a dizer, um papel e uma intervenção directa em relação a tudo o que diz respeito à sua vida", mas lamenta que se esteja agora a assistir a "uma imposição de todos os procedimentos".
"Neste momento, em que decorre o referendo, o povo iraquiano não faz ideia do que está escrito naquele bocado de papel", reforça.
Houzan tem 32 anos e saiu do Iraque aos 24 para fugir da "opressão política e da opressão social sobre as mulheres". Quando regressou ao seu país, este ano, ficou "chocada" com o que viu.
"Fiquei chocada porque vi uma sociedade num caos total, aterrorizada. O Estado não existe e a sociedade é dominada por bandidos, por terroristas islâmicos, que estão a impor a utilização do véu às mulheres e punem as que não obedeçam à lei islâmica", lamenta.
A organização de que Houzan faz parte foi criada em Junho de 2003, pouco tempo depois do início da intervenção, para lutar pelo regresso do Iraque "de cariz progressista e socialista" e acabar com "o caos social, a ocupação e o terrorismo islâmico".
"Queremos que as pessoas tenham um controlo total sobre o seu destino. É preciso devolver à sociedade a dignidade humana, o respeito pelos direitos humanos, para que as pessoas possam ter liberdade, igualdade e não um Estado sectário, étnico", sublinha.
A activista recorda que, sob o regime de Saddam Hussein, "quase não havia liberdade política, não se podiam organizar manifestações ou greves. Era uma ditadura, mas as pessoas podiam sair à rua, ter uma vida normal. Ninguém podia simplesmente matar ou raptar ou violar outra".
Agora, lamenta, "tudo isto acontece todos os dias um pouco por todo o país, tanto por bandidos locais como pelas forças norte- americanas".
Houzan lamenta que as principais vítimas deste "novo regime" sejam as mulheres, que "são mortas por homens da sua própria família, em nome da defesa da +honra+, apenas porque se recusam, por exemplo a usar o véu".
"Querem introduzir a lei islâmica para que a opressão sobre as mulheres fique legalizada e institucionalizada e para que possam considerá-las como cidadãos de segunda, sem inteligência, basicamente, escravas", reforça.
Questionada sobre a possibilidade de um acordo entre xiitas, sunitas e curdos para garantir uma democracia estável depois da retirada das forças internacionais do país, Houzan considera que "a maioria do povo iraquiano não os quer no poder", destacando que "são apresentados à sociedade iraquiana com a máquina de guerra dos Estados Unidos a apoiá-los".
"Sempre estiveram divididos por valores étnicos e tribalistas e nunca vão chegar a lado nenhum, vão estar sempre em desacordo e em conflito. Há muito ódio entre eles", refere, defendendo, por isso, a "dissolução do actual governo", que "nunca conseguirá garantir ao povo iraquiano a paz e a liberdade a que tem direito".
Sobre o que pode fazer no estrangeiro pelas mulheres iraquianas, Houzan deu como exemplo o seu discurso, quinta-feira, no Parlamento Europeu, onde explicou a consequência deste referendo para as mulheres do seu país.
"Quero denunciar ao mais alto nível, a organizações de defesa dos direitos humanos, a brutalidade a que as mulheres iraquianas são sujeitas e mobilizar a opinião pública internacional contra o que está a acontecer", realça.
A nível local, a organização que representa abriu dois abrigos no Iraque, um em Bagdad e outro em Kirkuk, "que já salvaram muitas mulheres de crimes de honra, da violência dos fundamentalistas e das forças norte-americanas".
"É preciso marcar uma posição para que fique claro que não fazemos parte do que está a acontecer actualmente no Iraque, fazemos a diferença pela liberdade e pelo respeito pelos direitos humanos", diz.
Referindo-se à utilidade de organizações como esta, Houzan destaca que, se não existissem, "ninguém saberia o que se passa realmente no Iraque, porque os meios de comunicação social mundiais começaram por encarar a ocupação como um acto de libertação do povo iraquiano e ignoravam a realidade no terreno".
"Nós facultámos ao mundo uma informação diferente", reforça.
Quando questionada sobre se quer regressar definitivamente ao Iraque, é peremptória na resposta: "não".
"Tenho uma filha pequena que nasceu em Londres e não sabe nada sobre aquele país. Como mulher, não quero voltar para uma situação da qual fugi antes, da opressão política, da opressão social sobre as mulheres", sublinhou.
Garante que nunca usou o véu ou a burka (que cobre o corpo todo) e nunca os usará.
"Saí à procura de uma vida melhor, não quero voltar para uma vida pior. Porquê voltar para usar o véu, viver aterrorizada?", interroga.
No entanto, quer ser uma "voz activa" a favor das mulheres "retidas no Iraque".
"Sou a voz de muitas mulheres oprimidas, silenciadas e a quem foi retirado o direito de escolha", nota.
E, garante, as muitas ameaças de morte que já recebeu não a assustam.
VM.
Lusa/Fim
Agência LUSA
2005-10-15 18:20:02
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