Author:
Vasco Pulido Valente
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Date Posted: 29/08/05 16:22:03
Terça-feira, Jerónimo de Sousa anunciou a sua candidatura à Presidência da República; no dia 31, quarta-feira, Soares também anuncia a dele. Falta o Bloco, que por enquanto não abriu a boca, mas que arranja com certeza alguém. A trapalhada começou. Em primeiro lugar, não se percebe bem que espécie de campanha Jerónimo de Sousa tenciona fazer. O público dele está a ferro e fogo contra o Governo do PS, e Jerónimo de Sousa com certeza que sabe isso. O que lhe põe um problema. Se for duro demais com Sócrates, não ajuda Soares (que afinal tem uma história ambígua e agora o apoio do PS) e, mesmo para comunistas, torna um pouco ilógica a sua presumível desistência a favor de um homem que irá inevitavelmente dar força ao governo. Se ignorar Sócrates, passa ao lado do que no fundo preocupa a gente do PC. Claro que há outra saída: reduzir a coisa à demolição de Cavaco com o argumento de que a direita em Belém vai ser (para os "trabalhadores") ainda pior do que Sócrates. Infelizmente (para Jerónimo de Sousa) hoje o "cavaquismo" parece um idílio e Cavaco conserva, até para o "povo de esquerda", uma reputação de seriedade e competência; um ponto fundamental, quando já se anda a contar os tostões. Obrigado pela tradição a exibir a sua independência, o PC corre agora o perigo de em vez de "mobilizar", "desmobilizar" o seu voto a favor de Soares.
Além disto, a candidatura de Jerónimo de Sousa arrasta outro mal para Soares: a candidatura do Bloco. A própria sobrevivência do Bloco exige que ele marque claramente a sua fronteira com o PS e o PC. Não lhe chega entrar no coro geral de vociferações contra Cavaco. Precisa de se distinguir e só se pode distinguir radicalizando a campanha. Ou seja, atacando Sócrates doa a que doer e avançando para um terreno onde nem Soares, nem o PC (para não falar do PS) o querem acompanhar: o casamento de homossexuais, por exemplo. Com toda a sua argúcia, Soares não percebeu que o Bloco não se importa nada que ele perca, desde que o exercício lhe sirva para alguma autopropaganda e para se reafirmar, num grande palco, como "esquerda da esquerda", a única "verdadeira, genuína e autêntica esquerda".
Carregado com a impopularidade do Governo, a ambivalência do PC e o oportunismo do Bloco, Soares resolveu escolher um amigo que ninguém conhece para mandatário nacional, o venerando Vasco Vieira de Almeida, uns meses ministro em 1974. É uma confissão.
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