Author:
Vasco Pulido Valente
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 16/07/05 18:09:58
A crise do regime
Vasco Pulido Valente
Ainda em surdina, mas muito claramente, voltou outra velha ideia: a da inviabilidade de Portugal. Como de costume a pátria inteira espera um salvador
Terça-feira passada, o Banco de Portugal anunciou tristemente ao público que está tudo pior. Afinal, este ano a economia portuguesa só deverá crescer 0,5 por cento, em vez de 1,6 por cento, e para o ano 1,2 por cento em vez de 1,4. Constâncio também admitiu que até podemos não crescer em 2005. Com um bocadinho de azar, a recessão não tarda aí. O sr. Presidente da República, num incomparável acto de estadista, declarou algures que não queria ouvir falar de “crise”, presumindo talvez que a fazia assim desaparecer. Infelizmente para ele, não vai ouvir falar de mais nada. O tom geral é tenebroso, quase desesperado. A palavra “abismo” e a palavra “catástrofe” começam a reaparecer por aqui e por ali e, ainda em surdina, mas muito claramente, voltou outra velha ideia: a da inviabilidade de Portugal.
Isto faz parte do folclore indígena e, no fundo, não impressiona ninguém, porque, como de costume, a pátria inteira espera um salvador. Com a vantagem que, neste caso, já conhece o homem e a data do seu próximo advento: Aníbal Cavaco Silva, Janeiro ou Fevereiro de 2006. Cavaco seguiu sem um erro ou tropeço as normas do género. Não desceu ao campo comum e conspurcante da política. Deixou que o desejassem sem encorajar, nem prometer. E, de quando em quando, exibiu discretamente a sua superior sabedoria. Haja ou não haja à esquerda (e, de facto, não há) alguém capaz de competir com ele, será sempre eleito com uma extraordinária maioria. O pior é depois.
O Presidente da República não governa e Cavaco não tem um partido, nem nunca foi particularmente hábil a gerir o PSD, de que aliás não gostava. Claro que a remoção de Sócrates não custará muito. Mesmo sem eleições de percurso que o desautorizem (e, nesse ponto, o calendário não o prejudica), se a crise persistir, Sócrates não dura quatro anos. Se as coisas não mudarem drasticamente em tempo útil (2007, no máximo), e só por milagre mudarão, qualquer pretexto ou distúrbio servirá para dissolver a Assembleia. Com uma diferença. Nessa altura, não se tratará de tirar o PS para repor o PSD, um sobe-e-desce que os portugueses com certeza não levariam a sério. Mas de escolher entre o Presidente e a Assembleia, entre Cavaco e os partidos. Mais precisamente, entre Cavaco e os velhos partidos. Porque ele com certeza fundaria um novo, para uso próprio. É o que resta. Se o regime não resolver a crise, a crise acaba com o regime.
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
|