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Subject: Só mais uma semana


Author:
Miguel Sousa Tavares
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Date Posted: 14/01/06 16:21:16
In reply to: Fernando Penim Redondo 's message, "Cavaco vai ganhar. Porquê ?" on 3/01/06 18:55:11


A PRIMEIRA conclusão a extrair destas presidenciais é que a campanha é desnecessariamente longa. Parece impossível, mas ainda falta uma semana para acabar, quando já nada, rigorosamente nada, permanece por dizer, explicar ou compreender. Estamos em campanha eleitoral praticamente desde o Verão, num desperdício de tempo, energias e dinheiro para os candidatos e saturação para os eleitores. Mas, enfim, eles lá sabem porque tem de ser assim.

A segunda conclusão é que, a fazer fé nas sondagens, não obstante a extensão da campanha e os esforços conjugados de quatro candidatos de esquerda (peço desculpa, mas não levo a sério as crónicas candidaturas de Garcia Pereira a eleições de toda a espécie), o desfecho eleitoral do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano ou há dez anos: Cavaco Silva ganha. E ganha à primeira volta - o que significa que vai ter, não só os votos do centro e da direita, mas também parte dos votos da esquerda: talvez um terço dos votos socialistas e outro tanto dos votos comunistas.

Independentemente do desfecho real, é justo dizer que Cavaco fez a melhor campanha, tendo em vista o resultado final pretendido. Enquanto que os outros, particularmente o Partido Socialista e Mário Soares, fizeram o que podiam para lhe facilitar a vitória. Ao contrário do que se possa dizer, não penso que a campanha de Cavaco Silva fosse fácil de gerir. A vantagem com que ele partia - fruto de ser o único candidato natural e assumido de há muito, com ou sem o jogo do «tabu», que lhe é tão a peito - era uma vantagem que também, naturalmente, só poderia ir-se diluindo ao longo da campanha (por isso mesmo é que ele entrou em campanha tão tarde quanto pôde). Porque não tem talento para os debates nem vocação para o contraditório, porque não tem ideias claras ou conhecidas sobre Portugal, a Europa ou o mundo, porque não tem à-vontade nos contactos de rua nem nenhuma qualificação específica para essas funções de contornos constitucionais fluidos que são as de Presidente da República - tal como a elas nos habituaram Soares e Sampaio. O essencial da sua estratégia era, pois, um exercício diário de controlo de danos. E Cavaco saiu-se na perfeição. Depois de dois meses a ouvi-lo diariamente, sabemos o mesmo das suas intenções ou vocação presidencial que sabíamos antes, mas, em contrapartida, vimos um político que, há dez anos, deixara uma imagem de autoritarismo e arrogância, revelar insuspeitos dotes de contenção e humildade. E isso foi particularmente evidente na forma como aceitou e enfrentou todos os debates, com todos os candidatos e, sobretudo, o debate final, em que Soares perdeu as estribeiras e Cavaco arrostou com todas as provocações, em pose de estadista e de Presidente. Quando o fundo da discussão era a «estabilidade» que cada um poderia garantir ao país, Cavaco Silva limitou-se a aproveitar serenamente o «hara-kiri» do adversário.

Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã disputaram, obviamente um campeonato à parte. O primeiro explorou, uma vez mais, a sua simpatia. É, de facto, uma pessoa de uma simpatia desarmante, o tipo de pessoa com quem apetece ir almoçar e ficar horas à conversa. Não sei durante quanto tempo é que «o colectivo» vai achar graça a isto, mas, por enquanto, Jerónimo de Sousa representa toda a margem de progressão do PCP fora do seu eleitorado cativo. Francisco Louçã revelou-se, para mim, uma agradável surpresa. Foi, de longe, o melhor e o mais bem preparado candidato nos debates e, sobretudo, abandonou a sua habitual e insuportável pose de pregador evangélico da esquerda e foi capaz de conduzir uma campanha sem as habituais ideias prontas-a-vestir, tão caras à «esquerda Lux-Bairro Alto». Merece, sem dúvida, ultrapassar a fatídica barreira político-financeira dos 5%.

Manuel Alegre também foi um caso à parte: era muito melhor candidato do que a campanha que fez. As sondagens dão-no agora, e contra todas as expectativas, a recuperar o segundo lugar que parecia ter perdido definitivamente para Mário Soares, e, ele próprio, animado pela reversão das sondagens, parece ter ganho novo fôlego. Mas, ou muito me engano, ou já é tarde para recuperar dos erros cometidos e forçar o que seria uma impensável segunda volta. Começou muito bem, na forma como lançou a sua candidatura, na forma como soube ler os «sinais do tempo» - esse descontentamento dos eleitores com o sufoco partidário, esse desnorte do país perante coisas essenciais, como a forma de fazer política, o horizonte de viabilidade e a própria identidade nacional. Mas não soube traduzir esses sinais e essa leitura num discurso coerente e continuado, que mostrasse às pessoas que resultava de ponderação antiga e não de circunstâncias do momento. Percebeu que havia um «no man’s land» por explorar, mas não soube atravessá-lo. Sentiu os eleitores, mas não conseguiu que eles o sentissem.

E, enfim, Mário Soares. A sua tarefa, à partida, era simultaneamente simples e tremenda: conseguir explicar porque estava de volta, quando ninguém conseguia entender a necessidade para tal. Falhou em toda a linha, e falhou logo desde o constrangedor discurso de apresentação da candidatura, em que, das marchas contra a Guerra do Iraque, passando pela sua preocupação com os homossexuais, não houve nada a que não recorresse para nos garantir que continuava vivo, activo e «moderno». A campanha, todavia, mostrou-nos um candidato obcecado com o passado - e particularmente com o passado de Cavaco Silva - e que, quanto ao futuro, apenas nos jurou que, em Belém, nada iria fazer porque nada podia fazer. E assim todos poderíamos dormir descansados.

Claro que eu também admiro a vitalidade e a paciência de Mário Soares, pela enésima vez em campanha por todas as feiras e boticas deste país, escutando as queixas de sempre da mesma gente de sempre. Mas, com franqueza, não acho que o esforço faça sentido nem que o espectáculo seja exultante. Seguramente que, tendo Mário Soares enterrado o seu «basta de política!», haveria melhores oportunidades em que aproveitar o seu mérito e disponibilidade ao serviço do país. Estamos a falar de quem foi o melhor Presidente da República da democracia portuguesa, de quem contribuiu decisivamente para que tivéssemos a liberdade e a Europa, de quem é ainda o português mais prestigiado no estrangeiro. Mário Soares merecia ter tido melhores amigos, na hora em que precisou de conselheiros e só encontrou cortesãos.

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Subject Author Date
Redondo com dor de cornoLampedusa15/01/06 1:35:46


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