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| Subject: Cruel é o tempo | |
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Author: Miguel Sousa Tavares |
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Date Posted: 28/01/06 19:25:56 PEÇO desculpa por começar por me citar, para mais ainda em escrito publicado noutro lado: no «Público», em Agosto deste ano, no dia seguinte à apresentação pública da candidatura presidencial de Mário Soares. Mas às vezes é necessário relembrar o princípio para melhor se fundamentar o final. Escrevi então: «Não sei que ‘amplos sectores da sociedade’ terão convencido Mário Soares a esquecer o ‘bom senso’ de que ele próprio falava meses atrás e a lançar-se numa aventura que, tudo o indica, terminará de forma inglória e porá termo, enfim e da forma mais injusta, a um percurso político como não há nenhum outro em Portugal... A candidatura de Soares não vem renovar nem regenerar nada. Pelo contrário, vem dizer às pessoas que não há saída nos anos mais próximos. Não havia necessidade de voltar para nos dizer isto». Contados os votos, domingo passado, devo confessar que, ao contrário de quase todos, o que me surpreendeu, apesar de tudo, foi as coisas não terem acabado ainda pior: momentos houve, durante a campanha, em que temi que Mário Soares ficasse algures na fasquia dos 10%. Mas não era preciso ser grande adivinho para ter percebido desde o início que, com mais ou menos percentagem, o resultado final seria sempre devastador. O que me espantou, sim, é que o célebre «instinto político» de Mário Soares tenha estado totalmente ausente, quando ele anunciou ao país que era o único capaz de evitar «o passeio triunfal de Cavaco Silva» e por isso se candidatava. E revolta-me até que, tal como disse Pacheco Pereira, na hora em que ele precisou de amigos, não tenha havido um único com coragem para lhe dizer que caminhava para o desastre. E que acabaria afinal, como acabou, a tornar certa a vitória de Cavaco Silva à primeira volta. Mais penoso que tudo foi o sentimento de comiseração que ele inspirou no final da campanha e que de todo não merecia nem vai bem com ele. Vê-lo, abandonado pelo partido que o empurrou para a frente, a percorrer em desespero aldeias, vilas e vilórias, na expectativa absurda de fazer ressuscitar a história e conseguir, por uma última vez, levantar de nenhures a mágica «vaga de fundo» que só existia na sua obstinada cegueira e na sua infantil precipitação de Agosto passado. Vê-lo naquela constrangente procura de quem se lembrasse ainda que «Soares é fixe!», como um actor sem palco ou um rei sem súbditos, vê-lo naquele espadeirar à toa do debate com Cavaco, tudo isso foi penoso, tudo isso foi tragicamente inútil. De facto, não havia necessidade alguma. Na noite das eleições, houve quem falasse da «injustiça» dos portugueses para com Soares, quem se queixasse dos «atrasados mentais» dos eleitores. O Vasco Pulido, que começou por desancar Soares quando ele se candidatou, acabou a chorar de arrependimento. A Clara Ferreira Alves, no final de um texto de homenagem a Soares que toda a gente séria poderia assinar por baixo, terminou a anunciar que «o tempo que vivemos é medíocre, os punhais brilham na sombra de César». É tudo lindo, mas não é disso que se trata e agora já é tarde para lágrimas e lamentos. Não houve punhais nem cizânias, nem traições ou injustiças. Houve simplesmente o tal bom senso, que, tendo desertado de Mário Soares e do seu séquito, foi tranquilamente relembrado pelos destinatários naturais da política: as pessoas, como diz Cavaco Silva. Talvez seja conveniente lembrar que esta eleição presidencial não foi e não podia ser, nem acessoriamente, um referendo à pessoa de Mário Soares. Não se perguntava aos portugueses se eles ainda gostavam de Mário Soares, se ainda lhe estavam reconhecidos pelo seu passado e serviços prestados ao país. Se a questão fosse essa, Soares tinha ganho e tinha esmagado. Mas o que se lhes perguntava era se sentiam uma necessidade imperiosa no regresso de Soares ao poder, tal como ele próprio dizia sentir, para salvação do país. E os portugueses responderam que não. Obrigado pela disponibilidade, mas não há necessidade. Tão simples quanto isto. Este desnecessário epílogo na carreira de um grande homem não é virgem, tal como já foi lembrado. Churchill foi definitivamente dispensado pelos ingleses quando, pela terceira vez no pós-guerra, se candidatou a primeiro-ministro e quando todos já o imaginavam entretido para sempre a escrever as memórias e a pintar no Funchal ou em Marraquexe. E De Gaulle foi mandado descansar de vez para Colombey, quando decidiu promover mais um dos cíclicos referendos que gostava de fazer para, como escreveu Jean Daniel, «nos perguntar se ainda gostamos dele». Nenhum perdeu o seu imenso lugar na história pelo facto de a terem encerrado com uma derrota. Mas escusavam de ter amargurado os seus finais de vida com o sentimento de terem sido vítimas de uma ingratidão que, afinal, nunca existiu. E escusavam de nos ter deixado a pensar se o poder é mesmo uma adição sem cura. Em 1987, o «Soares é fixe!» correspondia exactamente à ideia daquilo que a maioria dos portugueses queria de um Presidente da República: que fosse um democrata tranquilo, um homem sem questões pendentes com a liberdade e com a vida, com o país e com o mundo. Alguém que pusesse fim ao longo ciclo das presidências militares e que devolvesse a civilidade, a simplicidade e a naturalidade democrática ao cargo. Soares fez tudo isso, de uma forma natural e exemplar. Saiu com o aplauso geral e de contas definitivamente saldadas - ele com os portugueses, os portugueses com ele. Ou assim pareceu: dez anos depois, a patética tentativa de regresso à cena mostrou que ele, afinal, não tinha as contas saldadas e que, por mais desfiles mundanos de esquerda que tenha feito entretanto e por mais conferências em que tenha estado, não conseguiu ler lucidamente os sinais do tempo que vivemos. O «Soares é fixe!» de 2006 tornou-se uma caricatura do original. Agora, no seu silêncio de Nafarros, deve estar a pensar como é que 50% dos portugueses preferiram a mensagem de Cavaco Silva e 20% preferiram a de Manuel Alegre - por mais vazia que tenha sido uma e mais confusa a outra. Mas bastaria ter perguntado a um verdadeiro amigo, sem pretensões a cortesão, e ele ter-lhe-ia dito que cruéis não são os eleitores, cruel é o tempo. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |