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| Subject: Re: Citação de Marx (Grundrisse) - III | |
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Author: Guilherme Statter |
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Date Posted: 2/02/06 12:17:09 In reply to: Fernando Penim Redondo 's message, "Citação de Marx (Grundrisse)" on 29/01/06 21:03:47 Regressando ainda ao tema do trabalho "produtivo" ou "improdutivo", começo por sublinhar que não tenho a mínima pretensão de ser aquilo que se poderia chamar de "marxiano". Isto no sentido em que se chama "queirosiano" a um especialista na obra literária de Eça de Queiroz, e "camiliano" a um especialista da obra literária de Camilo Castelo Branco. No que diz respeito à visão que cada um tem do marxismo, parece que há uns tantos de nós que procuram tentar interpretar melhor ou pior a realidade social e económica que nos rodeia e de fazemos parte (utilizando para isso ideias e conceitos introduzidos ou re-definidos por Marx tais como classe, valor, força-de-trabalho, exploração, taxa de exploração...) enquanto outros se dedicam ao estudo e interpretação daquilo que escreveu Karl Marx. Por outras palavras, enquanto que para alguns se trata de utilizar as ideias e ferramentas analíticas introduzidas por Karl Marx na História do Pensamento, para outros parece por vezes que se trata de discutir a mais correcta interpretação das "sagradas escritura do santíssimo profeta São Carlos de Tiers". Ou seja, aquilo que era suposto ser uma discussão sobre a realidade social e económica acaba por vezes por se transformar num exercício de crítica literária. A temática do trabalho "produtivo" e/ou "improdutivo" é a esse respeito bastante elucidativa. Já tive ocasião de referir o paradoxo da abordagem "dicotómica" (um trabalho ou é "produtivo" ou é "improdutivo") em contraponto com a abordagem "dialéctica". Um mesmo trabalho pode hoje e aqui ser "produtivo" e ser amanhã e ali "improdutivo". Um outro mesmo trabalho pode ser "produtivo" se visto de um determinado ângulo e ser "improdutivo" de visto de outro ângulo. O que poderia facilmente conduzir-nos à conclusão de uma relativa irrelevância do conceito. Um outro aspecto a considerar (e este julgo que mais importante para a discussão) é a contradição metodológica (ou tensão dialéctica) entre uma abordagem de tipo "individualista" e uma abordagem de tipo "holista". Muitos e diversos autores que têm escrito sobre isto. Numa coisa estão quase todos de acordo: Marx poderia estar errado "nisto" ou "naquilo", mas de certeza que não utilizava como método de análise o chamado "individualismo metodológico". Utilizava ou discutia sempre ideias como "classe" ou "dinâmica social". Não as motivações individuais deste ou daquele burguês capitalista. Isso tudo está bem implícito no conceito de que são as circunstâncias objectivas e materiais da vida social das pessoas que determinam a sua consciência e não a sua consciência quem determina a sociedade em que vivem. "It is not the consciousness of men that determines their being, but, on the contrary, their social being that determines their consciousness" na versão em Inglês (o Latim dos tempos modernos…). É por isso que eu repito de novo aquilo que já tive ocasião de aqui escrever, numa outra linha de argumentação: Só faz sentido, ou só é relevante, discutir o que quer que seja relativamente ao sistema capitalista – utilizando as ideias, conceitos e métodos de Marx – se considerarmos o sistema na sua totalidade social, histórica e geográfica. Utilizando como unidade analítica aquilo a que hoje (enfim desde há uns 30 anos) se chama de "abordagem do sistema-mundo". Como princípio de abordagem, devemos raciocinar em termos de que não são os trabalhadores ou grupos de trabalhadores A, B ou C, que são mais ou menos produtivos, é a sociedade como um todo que é mais ou menos produtiva. E a sociedade como um todo será tanto mais ou menos produtiva de acordo com os contributos de cada uma das partes componentes, sejam trabalhadores individuais, sejam grupos de trabalhadores. Por outras palavras, deve-se partir do TODO para as componentes individuais, em vez de partirmos dessas componentes individuais para o TODO (a esta última abordagem chamam os filósofos que se preocupam com essas coisas "individualismo metodológico", nos antípodas da abordagem marxista tradicional ou moderna...). Voltando à diferença na maneira de encarar a obra e o contributo de Karl Marx, aqueles que tendem a encarar essa obra como "as sagradas escrituras do santíssimo profeta São Carlos de Tiers" (em particular alguns marxistas de aviário) desatam logo a apedrejar quem tenha o atrevimento de se desviar dos "sagrados ensinamentos". Mas não deixa de ser engraçado ver como alguns pensadores mudam de posicionamento ideológico de acordo com as necessidades da argumentação. Lá nisso são dialécticos.... De que é que eu estou a falar? Do facto de alguns marxistas (citando, com toda a legitimidade, o próprio Karl Marx) dizerem que o "trabalho" de juízes, polícias e soldados não é um trabalho produtivo. Pois não. Pelo menos directamente. De facto não produzem nada. Mas depois vem o critério analítico (que não permite erros) de que - do ponto de vista do Capital só é produtivo o trabalho que produz "sobre-valor". Em primeiro lugar, subrepticiamente, saltámos da abordagem da colectividade como um todo para a abordagem individualista (cada trabalho individual). Do trabalho "abstracto" (de que Marx falava exaustivamente e é só essa categoria analítica que interessa às diversas formulações teóricas), para o trabalho "pessoal" ou concreto de cada trabalhador ou classe de trabalhador (que Marx descrevia também exaustivamente para exemplificar ou clarificar as suas elaborações teóricas) Em segundo lugar, e ainda mais subrepticiamente passámos também de uma abordagem do ponto de vista "positivista" (a sociedade como ela efectivamente é) para uma abordagem de um ponto de vista "normativo" (a sociedade como nós gostaríamos que fosse). Para a sociedade como um todo (seja qual fôr o período histórico ou a formação social considerada), o "trabalho" de policias e soldados é de facto muito pouco "produtivo" (no caso dos soldados até tende a ser predominantemente "destrutivo"). Mas para a formação social do capitalismo e sua regular reprodução – e sobretudo de um ponto de vista do Capital – o "trabalho" das polícias e exércitos todos até pode ser encarado como tendo um caracter particularmente "produtivo", fazendo os seus custos simplesmente parte dos "custos de produção" ou "frais de production" da sociedade capitalista como um todo. Apesar de serem normalmente classificados como "faux frais", eles só são "faux frais" de um ponto de vista de uma eventual sociedade socialista onde o seu "trabalho" seja efectivamente dispensável. Para mal dos nossos pecados os capitalistas não dispensam nem as polícias nem os exércitos. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Assobia pró lado, que faz de conta que ninguém nota... (NT) | Ex-militante (vendo que não distinguem o útil do produtivo) | 2/02/06 19:08:01 |