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Subject: A Unidade de Esquerda e a Candidatura de Manuel Alegre


Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 17/01/06 10:19:23

A UNIDADE DA ESQUERDA E A CANDIDATURA DE MANUEL ALEGRE


Desde o dia 25 de Abril que uma das preocupações maiores do PCP foi encontrar à esquerda um interlocutor que permitisse a adesão à Revolução de amplas camadas intermédias, que reforçassem o campo democrático e permitissem o desmantelamento do Estado fascista, então derrotado, e o início de um movimento de transformação social considerado indispensável para permitir o desenvolvimento democrático e nacional do país. Daí que tenha insistido na manutenção do MDP-CDE, movimento semi-legal do tempo do fascismo, como frente unitária dos democratas contra a direita. O PS de Mário Soares compreendendo a intenção do PCP e tendo em vista uma estratégia diferente: o reforço do partido, a ligação ao amigo americano e a futura integração na CEE, defende a dissolução do MDP, com o argumento de que já não se justificava a manutenção de uma frente antifascista e que naquele momento cada partido deveria seguir o seu percurso.
A história dos anos de brasa da Revolução e do pós 25 de Novembro ilustram significativamente a preocupação de unidade do PCP e a sua indispensabilidade para a manutenção das conquistas revolucionárias e a oposição sistemática do PS de Mário Soares a esse desiderato. O PCP chegou a afixar cartazes, numa das primeiras eleições para a Assembleia da República, onde se defendia a eleição de uma maioria de esquerda.
É evidente que o PCP não está isento de culpas, a sua fidelidade canina à União Soviética, os exemplos históricos de Leste, de eliminação dos partidos sociais-democratas, o desejo incontido de tudo controlar, não permitiam apaziguar os medos e os receios legítimos da esquerda não comunista. Mas, no essencial, não foi isso que motivou o PS de Mário Soares, mas o seu incontestável atlantismo e o seu acantonamento a uma visão puramente política da democracia. É evidente que isto teve repercussões inevitáveis na votação de camadas intermédias na direita e a incapacidade de defender, do ponto de vista social, as mais expressivas conquistas revolucionárias.
A última grande tentativa para relançar esta política de unidade foi sem dúvida o incentivo à formação do PRD e o apoio à candidatura presidencial de Salgado Zenha, apresentada por este partido. O PCP, reconhecendo a existência no campo democrático de eleitores que não se sentiam representada pelo PS de Mário Soares, que nessa altura participava activamente no Bloco Central, defende a criação de um novo espaço político que as pudesse representar, contribuindo e saudando o aparecimento do novo partido, inspirado em Ramalho Enes, hoje um activo apoiante de Cavaco Silva. Saiu-se mal desta operação, não só porque o PRD veio a desaparecer ingloriamente, como o candidato que apoiavam teve menos votos que Mário Soares. O PCP decide então que na segunda volta os comunistas "engolissem um sapo" e votassem naquele que, por decisão de Congresso anterior, tinham resolvido não apoiar.
É evidente que tudo isto é história passada, no entanto, na presente situação tem uma actualidade indiscutível. Pela primeira vez, e com um peso significativo, alguém, Manuel Alegre, que se mantém fiel ao PS e com apoio de militantes e de grande número eleitores dessa área política, afronta a Direcção do PS e apresenta-se ao eleitorado disposto a quebrar a lógica do aparelho. Este facto novo, não foi percepcionado pela Direcção do PCP, nem pela do Bloco de Esquerda, qualquer delas mais interessada em contar os votos, do que compreender a importância desta candidatura, afadigando-se no seu combate e considerando displicentemente aquela candidatura e a de Mário Soares como as duas faces da mesma moeda. Ignoram assim a possibilidade de, no futuro, ser possível criar com a esquerda do PS um movimento unitário de massas, que rompa com o bloco central dos interesses, representados na actual sociedade portuguesa pelo PS de Sócrates e pelo PSD de Cavaco e Marques Mendes,.
Não está garantido que o movimento de Manuel Alegre continue para além das eleições, mas a hostilidade que as Direcções daqueles dois Partidos votam a esta candidatura, aliados ao PS oficial, poderá conduzir à sua dissolução e desaparecimento, quando era de todo interesse para a esquerda, que um movimento, que eleitoralmente, só por si, à acreditar nas sondagens, irá ter mais votos que aqueles dois partidos juntos, se mantenha para lá das eleições presidenciais.
Hoje a necessidade de romper com a lógica dos aparelhos de poder no PS, ligados aos "interesses" e aos grupos económicos, e a participação na luta política de amplas camadas intermédias e dos serviços, que sendo representadas pelo PS, sentem-se sempre posteriormente traídas por este, são condições indispensáveis para que se verifique uma verdadeira ruptura democrática que facilite a criação de um bloco progressista e de esquerda.
Lisboa, 15 de Janeiro de 2006

Jorge Nascimento Fernandes

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Subject Author Date
Concordo com as conclusõesFernando Penim Redondo17/01/06 11:21:58
Construir a Unidadepaulo fidalgo17/01/06 13:12:14
A acreditar nas sondagens…Margarida17/01/06 23:52:43


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