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| Subject: Jerónimo de Sousa: Candidato à presidência da república: | |
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Author: Pedro Catarino |
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Date Posted: 19/12/05 12:41:50 In reply to: Candidatura de Jerónimo de Sousa 's message, "a propósito de declarações de dirigentes do PS" on 17/12/05 23:19:38 2005-12-18 - 00:00:00 Jerónimo de Sousa: Candidato à presidência da república Não vou transportar o programa do PCP Pedro Catarino, Correio da Manhã, 18/12/05 Filho de camponeses que nos anos 40 se tornaram operários, teve de ser adulto muito antes do tempo previsto. Casado, duas filhas, benfiquista, quase à nascença, herdou da mãe a têmpera da superstição. Tem razão. Não tenho nem uma lasca de dúvida. Ele tem razão. Existem coisas e gestos, sentimentos e acções que não vêm pespegados nos manuais; vêm, literalmente, de dentro. A frase sai-lhe em jacto e fica sentida. “Isso não se inventa.” “Isso” chama-se simpatia. A que ele transmite. Uma afeição que exala inatamente, não importa o cronómetro que a entrevista vaticina, tão imune à gulosa época eleitoral. Esta é a descrição repentina e implacável do pretendente à Presidência da República, proposto pelo Partido Comunista Português. Jerónimo Carvalho de Sousa, o primeiro secretário-geral comunista que vai a eleições presidenciais, nasceu em Santa Iria da Azóia, em 1947, no mesmo mês da Revolução de Abril. O dia foi o 13. A sua vida estalou prematuramente. Filho de camponeses que nos anos 40 se tornaram operários, este candidato que, em 1996, competiu com o idêntico escrutínio, teve de ser adulto muito antes do tempo previsto. A adolescência, afinal, não foi feita, unicamente, para a pura inconsciência. Aos catorze anos já afinava máquinas na MEC, uma fábrica metalúrgica. Os estudos chegaram ao 4.º ano do Curso Industrial. A actividade contra o Antigo Regime iniciou-a quando, ainda jovem, dirigiu de traqueia decidida e destemida a Colectividade ‘1.º de Agosto’, de Santa Iria. Durante a década de 60, integrou diversos grupos de cultura e de teatro. Em 1969, a Guerra Colonial esperava-o no regimento de Lanceiros 2 e na Guiné. Jerónimo preferiu cumprir o serviço militar obrigatório a desertar. Não que concordasse com a contenda, não que aplaudisse as tropas portuguesas em África mas, enquanto lá estava poderia contagiar o recado: a guerra era infinitamente injusta. Regressou vivo em 1971. No ano seguinte, os trabalhadores da MEC nomearam-no delegado para fazer parte da lista unitária que, logo em 1973, recuperou o Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa. Imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, a convicção impulsiona-o a filiar-se no Partido Comunista Português. A reminiscência da sua forte costela proletária não fractura, segue indissolúvel com entusiasmo: faz parte da Comissão de Trabalhadores da MEC, sendo sucessivamente eleito até 1993. Em 1975 participa no movimento das Comissões de Trabalhadores do distrito de Lisboa, onde desempenha as funções de Coordenador. No IX Congresso do PCP datado de 1979, é eleito para o Comité Central. Ingressa na Comissão Política do partido, no ano de 1992. No período entre 1976 e 1993, foi deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. Há três anos regressou à bancada parlamentar. Jerónimo Carvalho de Sousa, contrariamente aos seus antecessores, não esconde o bilhete de identidade: casado, duas filhas, benfiquista, quase à nascença herdou da mãe a têmpera da superstição e não se acanha de bater três vezes na madeira para distanciar o que lhe desagrada. Garante que, se for eleito no próximo 22 de Janeiro, não será um Chefe de Estado comunista. Será o Presidente da República de todos os portugueses. É o que nos diz entre cigarros, com mãos que se agitam e que furam o fumo. - É a estreia de um secretário-geral do PCP nas eleições presidenciais. Porquê? - Quisemos dar um sinal forte de uma candidatura que, naturalmente, responsabilizaria todo o colectivo partidário. O meu camarada Carlos Carvalhas, quando desempenhava o cargo de secretário-geral adjunto, também chegou a ser candidato. - O facto é que nem Álvaro Cunhal foi candidato a Belém... - Foram escolhidos outros! Para esta batalha o escolhido fui eu. - Não acha que a sua imagem, digamos mais aberta, tenha contribuído para, neste momento, ser a terceira força política nacional, e o PCP aposte na sua candidatura? - Admito que a minha autenticidade, a minha origem operária, tenha dado uma contribuição positiva para muita gente olhar de forma diferente para nós. O preconceito da sociedade portuguesa era muito forte. Por razões históricas e acontecimentos diversos. Creio que contou com um factor surpresa. A generalidade dos comentadores políticos e jornalistas, quando fui indicado para secretário-geral do partido, fizeram um retrato muito diferente do que sou. Talvez pelo tal preconceito da minha origem operária. Depois, vinha sempre a chapa de duro, de “ortodoxo”. Julgo que, através da autenticidade, convicções e coerência, com grande ligação à vida, às pessoas, à afectividade, também conta. Muitos desses comentadores e jornalistas ficaram surpreendidos. - Contrariamente ao seus antecessores, a sua vida não é segredo. Sabemos que é casado, que tem duas filhas, que os seus pais eram camponeses... - Cada pessoa decide, julgo que são opções do foro pessoal. A minha mulher, que é militante do PCP, foi funcionária da Câmara de Loures, quando pode, aparece ao meu lado, e já deu entrevistas. Mas não tenho a concepção de me fazer acompanhar pela primeira-dama. Se toda a gente da minha terra conhecia a minha vida, pessoal, familiar e partidária, porque razão escondê-la?! Quem não deve não teme! - Até se sabe que é do Benfica... - Ferrenho e desde pequeno! - Quanto tempo foi operário? - Dos 14 até aos 29 anos. - Quando entrou na política deixou de o ser? - Embora não estando na produção, de manhã era operário na fábrica, na MEC, uma fábrica em Santa Iria da Azóia, e à tarde ia aos trabalhos da Assembleia Constituinte. Com o aumento das responsabilidades, com o envolvimento das tarefas do partido e no plano parlamentar, acabei por sair, mas, mantive sempre um vínculo laboral, e não só contratual, mas de ligação aos trabalhadores. Fiz parte da comissão de trabalhadores da empresa onde trabalhava e fui dirigente sindical dos metalúrgicos. Sempre mantive e mantenho ainda, uma ligação muito estreita com o movimento sindical e com os operários. - Estas eleições estarão resolvidas, relativamente ao vencedor? - Nada se encontra fechado, nada está arrumado. Falta muito esclarecimento, mobilização. - Já o ouvimos afirmar, e por diversas vezes, que está convicto da existência de uma segunda volta. É algo em que acredita, ou que quer? - Querer é sempre uma condição... no entanto não se poderá admitir que tenhamos chegado ao fim da linha. O povo é soberano, só o povo decidirá. As sondagens serão de certeza alteradas. No dia 22 de Janeiro veremos que estas sondagens não estavam certas. O nosso objectivo é forçar o candidato da direita à segunda volta. - Fala-se que essa hipotética segunda ronda será disputada entre Cavaco Silva/Mário Soares, ou Cavaco Silva/Manuel Alegre, mas ninguém fala Cavaco/Jerónimo... - Não há vitórias antecipadas. Há cinco candidatos. Obviamente que existe uma referência, relativamente às sondagens, que terão, com certeza, algum rigor científico. Mas, a vida já provou, já houve muitas eleições presidenciais que demonstraram que essa mesma vida pode dar muita volta! - Acha que Alegre poderá tirar-lhe votos? - Não estou preocupado com a fuga de potenciais eleitores da minha candidatura para a de Manuel Alegre. - Não gostou que ele dissesse que dormiria descansado, no caso de Cavaco Silva ganhar as eleições. - Eu não sei como é que Manuel Alegre poderá dormir descansado! Mas claro que não vejo, se Cavaco Silva tomar posse, que possa haver um qualquer golpe antidemocrático. - Como será um Presidente da República Portuguesa comunista? - Um Presidente que não iria transportar o projecto e o programa do partido para a Presidência da República. O programa, o pacto, seria aquilo que eu considero o grande compromisso ético político: jurar, defender e fazer cumprir a Constituição. - Então não seria um Presidente comunista... - Seria um Presidente eleito pelos portugueses, e que teria de, obrigatoriamente, respeitar e fazer obedecer a Constituição, mas não presidir em conformidade com o projecto do partido. - Falou na Guerra Colonial. Esteve lá. Nunca pensou em desertar? - Não, porque na minha concepção, a deserção não era o melhor caminho. Estando lá podia passar a mensagem aos meus camaradas de armas, que estávamos numa guerra injusta. - Um soldado numa guerra tem de cumprir regras... - Aceitei as regras que me eram impostas, mas sempre nesta perspectiva: dar a ouvir a minha voz de que aquela guerra era profundamente injusta. Felizmente, nunca fui confrontado diante de uma situação que podia ser dramática, em caso de um conflito com uma arma na mão. - Qual foi a sua actuação? - Fui da polícia militar, mas após dois, três meses, tendo em conta esta postura de jovem irreverente, fui enviado para a fronteira do Senegal, em condições quase suicidárias. Um pequeno grupo de jovens da polícia militar, sem nenhuma precaução, sem nenhuma viatura, sem nenhum rádio. Durante 49 dias ficámos com a mesma roupa no corpo, que se ia desfazendo. Este soldado teve que assumir a responsabilidade da tropa, já que muitos adoeceram com paludismo. - É verdade que é supersticioso? - Na casa dos meus pais, por sermos uma família operária, havia traços de tradição do nosso povo e usávamos expressões e gestos. Coisas que às vezes dá para colorir uma situação, não com o sentido da superstição... acho que não faz mal bater três vezes na madeira... era um gesto que a minha mãe fazia: que o diabo seja cego, surdo e mudo, e dava as três pancadas - Bate na madeira quando lhe dizem que o Cavaco Silva irá ganhar? - Eu prefiro fazer a intervenção para que ele não ganhe do que fazer este gesto. QUESTIONÁRIO DOMINGO - Um País: Portugal. - Uma pessoa: O meu neto. - Um livro: ‘Engrenagem’, de Soeiro Pereira Gomes. - Uma música: Carlos paredes. - Um lema: Com toda a confiança! - Um clube: Benfica. - Um prato: Bom peixe grelhado. - Um filme: ‘Chove em Santiago’. Miriam Assor [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Por um jornalismo com memória | José Carlos Abrantes | 19/12/05 13:29:45 |