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| Subject: Revolução Russa de 1905 | |
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Author: João Aguiar |
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Date Posted: 27/11/05 16:46:08 Acerca da Revolução de 1905 Há 100 anos atrás ocorreu o ensaio geral da onda revolucionária que iria varrer a História do século XX: a Revolução Russa de 1905. Esta primeira revolução, de facto, foi o culminar de todo um longo processo de luta operária e camponesa no Império Russo. Como Rosa Luxemburg muito bem analisou: «a Revolução que rebentou em Janeiro de 1905 foi buscar a sua influência directa à gigantesca greve geral que se deu em Bacu, no Caúcaso, em Dezembro de 1904. Estes eventos de Bacu, por sua vez, foram a última e poderosa ramificação das tremendas greves e manifestações que atravessaram todo o sul da Rússia em 1903 e 1904, que tiveram como prólogo a greve de massas de Batum em Março de 1902. Esta foi, portanto, o reavivar de outras grandes greves e movimentações da classe trabalhadora que em 1896 e 1897 tinha levado a cabo a estrondosa greve dos trabalhadores têxteis de São Petersburgo». Assim, a 22 de Janeiro de 1905 (de acordo com o calendário ocidental), uma manifestação de operários de Petrogrado, encabeçada pelo padre Gapon foi barbaramente reprimida, levando ao estalar da revolta operária latente. O interessante deste facto foi o seu papel no desmistificar da verdadeira face opressora e profundamente ditatorial do poder czarista. Até então, a classe operária russa tinha-se deixado levar pela comiseração dos agentes do czar e por apelos de misericórdia dirigidos à família real. Isso mesmo pode ser visto na petição dirigida ao czar, redigida por Gapon em nome dos operários de Petrogrado: «Majestade! Nós, operários da cidade de São Petersburgo, nossas mulheres, nossos filhos e nossos velhos pais inválidos, viemos a V. Majestade procurar justiça e protecção (...) somos compelidos cada vez mais para o abismo da miséria, da ausência de direito, da ignorância. O despotismo e a arbitrariedade nos esmagam, e estamos nos afogando. O que nós pedimos é pouca coisa. Só pedimos aquilo sem o qual a vida não é vida, mas prisão de forçados e tortura infinita. Nosso primeiro pedido era que nossos patrões examinassem, junto connosco, as nossas necessidades; mas mesmo isso nos foi recusado, recusaram-nos o direito de falar de nossas necessidades, achando que a lei não nos reconhece este direito. Eis o que está diante de nós, Majestade, e o que nos concentrou junto aos muros de seu palácio. É aqui que estamos procurando nossa última salvação. Não recuse protecção ao seu povo; tire-o do túmulo do arbitrário, da miséria, da ignorância». Assiste-se, portanto, a uma posição de apelo desesperado à benevolência do czar, como “pai” do povo russo. Contudo, a crise do sistema de exploração existente na Rússia czarista não permitia mais a concessão de conquistas aos trabalhadores russos. Logo, o cair da máscara assassina do regime foi inevitável. Simultaneamente, a classe operária russa estava longe de estar nas mãos da ideologia filantropista. Pelo contrário, já tinha um largo património de luta reivindicativa e já estavam em grande fermentação germes de solidariedade e unidade de classe – a argamassa dos trabalhadores contra o poder do capital. Como dizia Lenine acerca destes acontecimentos, «é interessante observar que a greve dos 12000 trabalhadores da usina Putilov, que se deu no dia 3 de Janeiro foi marcada em nome da solidariedade proletária com o despedimento de outros quatro trabalhadores da empresa» (Lenine, Greve económica e greve política). A partir desta data as greves e motins proliferaram por toda a Rússia. As revoltas do povo trabalhador pobre e esfomeado, mas consciente da sua tarefa histórica de derrubar as grilhetas da opressão e da exploração, levaram à criação de sovietes – orgãos de organização social onde impera a democracia operária. Com efeito, em Outubro de 1905 surge o soviete de Petrogrado – que grande papel iria ter na Revolução Socialista de 1917 – a partir da união de trabalhadores dos correios, dos ferroviários, das oficinas gráficas e da usina Putilov. Os bolcheviques face a estes acontecimentos, como grande organização revolucionária que era, compreendeu o que estava em causa e actuou nos sovietes em ordem a dar-lhes uma orientação política coerente com os ideias comunistas e a educar política e ideologicamente as massas. Com o evoluir da dinâmica revolucionária o confronto dos trabalhadores russos com o poder de Estado foi colocado na ordem do dia.«O clímax da Revolução de 1905 deu-se na revolta de Moscovo em Dezembro desse ano. Durante nove dias, batalhões de rebeldes e de trabalhadores armados e organizados – não seriam mais de oito mil – lutaram pela deposição do governo do czar. Este não confiou na guarnição de Moscovo, que foi aprisionada nos quartéis, para derrotar os revoltosos, mas teve de se socorrer do Regimento Semenovsky de São Petersburgo» (Lenine, Leituras da Revolução de 1905). Com a derrota dos trabalhadores de Moscovo seguiu-se um período de contra-revolução direccionada para a erradicação do partido bolchevique e dos operários mais combativos. Da Revolução de 1905 podemos retirar as seguintes lições: · A revolução é um acto de ruptura com a dominação política, económica e cultural da burguesia e resulta de todo um longo processo de luta (de 1895 a 1905, sem falar das lutas nos campos desde a década de 40 e 50 do século XIX e das primeiras lutas operárias nos anos 70). Ou seja, a revolução não aparece do nada, mas é sempre o corolário, por um lado, da maturação da prática organizativa de luta e da evolução da consciência de classe proletária e, por outro lado, consequência da desestruturação do poder político dominante. · A luta comunista empreendida em 1905 assenta numa série de eixos que importa realçar: 1) a luta de classe proletária quando liberta e independente da influência da ideologia e das instituições burguesas cria o que Lenine chamou de dualidade de poderes: em oposição ao Estado em processo de desarticulação, aparecem orgãos que fundem o poder político e económico da classe trabalhadora: os sovietes; 2) esta dinâmica da classe não consegue derrubar o capitalismo por si só. Sem a intervenção determinada, consciente e organizada dos comunistas a maré revolucionária “espontânea”, mais tarde ou mais cedo, reflui e é derrotada. Sem a hegemonia do partido comunista no seio dos sovietes é impossível que a ordem capitalista seja derrubada. A muito menor influência dos bolcheviques nos sovietes em 1905 face à revolução de 1917 foi um dos factores decisivos para os diferentes resultados de ambas as revoluções; 3) sem uma situação de crise das várias estruturas de uma sociedade capitalista é aventureirismo dizer que as condições objectivas para a revolução estão maduras. Por outras palavras, sem a crescente incapacidade da máquina estatal assegurar a legitimidade da ordem burguesa, sem uma desorganização política das classes dominantes (neste caso, entre a burguesia, a nobreza e a burocracia estatal), sem a desestruturação do exército – coluna vertebral do Estado russo – e sem uma crise económica, com as terríveis consequências nas condições de vida que isso teve nas classes exploradas, a revolução não é possível. · O proletariado nunca é uma classe meramente passiva no panorama social e as derrotas que sofre nunca são definitivas. Assim, a Revolução de 1905 é a demonstração viva que a classe trabalhadora transporta sempre consigo um enorme potencial de acção revolucionária. Por outro lado, a derrota que foi alvo na sequência do levante de Moscovo (Dezembro de 1905) não foi o fim da luta de classe do operariado russo. Este, por intermédio do seu partido, soube retirar os ensinamentos necessários para corrigir erros e insuficiências e apontar princípios de acção e organização políticas que, num novo contexto revolucionário, permitissem a instauração do socialismo. Foi o que aconteceu a 7 de Novembro de 1917. Hoje, cabe aos comunistas portugueses organizados no seu Partido Comunista Português e a todos os nossos camaradas do resto do mundo, realizar o mesmo duplo trabalho de balanço – da Revolução de Outubro de 1917 (e seu prelúdio de 1905), da queda do socialismo no Leste, da Revolução de 25 de Abril de 1974 – e de prospectiva dos caminhos que poderão levar todos os trabalhadores, pobres e excluídos à construção de uma sociedade finalmente liberta da exploração do homem pelo homem: o socialismo e o comunismo. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Lições da História:quando não há burguesia capaz até as burocracias iluminadas servem... (NT) | Visitante de passagem | 27/11/05 20:31:14 |
| Re: Revolução Russa de 1905 | Um visitante | 28/11/05 18:57:20 |