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Subject: Os erros de Soares


Author:
ANTÓNIO BARRETO
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Date Posted: 6/11/05 17:07:12

Todos os portugueses, maiores de 25 anos, têm o direito de se candidatar a Presidente da República. Até Mário Soares. Livre ou condicionada; individual ou partidária; racional ou emotiva; é sempre, em última instância, uma decisão pessoal tomada no exercício de um direito indiscutível. Os motivos podem ser vários. O sentido de dever, vaidoso ou não, é dos mais invocados pelos próprios. De igual modo, a ideia, mais narcisista, de que o país atravessa uma grande crise e de que a candidatura é necessária (para salvar o país, pois claro!) é das mais frequentes. Há evidentemente candidatos sem qualquer esperança de vencer e que desejam fazer figura, negociar os seus votos para a segunda volta ou contar os eleitores de um partido: mesmo nesses casos, o direito é inquestionável. E até a decisão de alguém que se sente maçado, sem nada de glorioso para fazer, não pode ser posta em causa. As polémicas actuais sobre as candidaturas presidenciais, nomeadamente a de Soares, que se resumem a saber se alguém deveria ou não candidatar-se, são ridículas. O que interessa é discutir a racionalidade da decisão, a intenção do candidato, o conteúdo do seu programa político, a confiança que ele merece, a sua capacidade para fazer o que pretende ou o que é necessário e os meios de que disporá para agir.

Porque é a mais veterana, a candidatura de Mário Soares tem merecido mais discussão e atenção do que qualquer outra. Mas também por ele ser quem é. Pela sua história pessoal. Por já ter sido Presidente durante dez anos. Por ser a candidatura mais inesperada. E por vir do mais experiente de todos os políticos portugueses. É por causa deste último facto que são surpreendentes os erros da sua candidatura, isto é, os erros já cometidos na sua campanha. Apresentou a candidatura depois de ter afirmado, de modo consistente, durante dois ou três anos, que não o faria de modo algum. Que não queria. Que "bastava de política". Que a sua candidatura seria "uma loucura". Chegou a garantir que apoiaria Alegre, Guterres ou Vitorino. É incalculável o prejuízo que essas suas afirmações, seguidas de uma mudança radical de atitude, vão causar à candidatura. É uma questão de confiança e de crença na palavra dada, atributos essenciais do reconhecimento e da identificação políticas.

Ao justificar a sua mudança de opinião e de intenções, Mário Soares invocou factos e fenómenos tão díspares que acabou por revelar uma inesperada desorientação. Ou, quem sabe, um sentimento de culpa ou vergonha, algo que se esperaria em qualquer cidadão menos nele. Ao estabelecer que mudara de opinião porque tinham "mudado as circunstâncias", utilizou um lugar comum bem conhecido e próprio de todas as pessoas que, por boas ou más razões, tentam desdizer-se. Todavia, foi a enumeração das circunstâncias que deitou tudo a perder. Mencionou já, em poucas semanas de campanha, as "dificuldades europeias"; o "aumento do preço do petróleo"; o "pessimismo latente" na Europa e em Portugal; a "globalização neo-liberal"; o "desvario na sociedade portuguesa"; o receio de que Cavaco Silva ganhe sem luta; a inexistência de um candidato socialista e da esquerda forte; e, finalmente, o facto de o Partido Socialista o ter apoiado. Parece que este último foi o factor decisivo.
É estranho ver um político tão competente, como Soares, dizer disparates. Com excepção das razões paroquiais (Cavaco, os socialistas, a esquerda...), todas as outras não passam de referências dramáticas com objectivo de dar energia e densidade a uma campanha que as não tem. Nem Mário Soares, nem Portugal, têm qualquer capacidade para fazer o que quer que seja relativamente à Europa ou ao petróleo; muito menos quanto à globalização e ao pensamento neo-liberal.

Pior que tudo são as razões propriamente políticas. Soares apresentou-se como uma solução de recurso. Na ausência de outros, que chegou a nomear, teve de se mostrar disponível. A sua intenção de fazer "o pleno" da esquerda é desmentida pela existência de pelo menos cinco candidatos da mesma área; e sobretudo pela aparição de Manuel Alegre, cujos resultados nas primeiras sondagens são, para Soares, um verdadeiro pesadelo. Ao afirmar que se apresentava para que Cavaco Silva não aparecesse como vencedor designado, ou para evitar que a eleição deste fosse "um passeio pela Avenida", deu, ao seu suposto adversário, a benção que se dá aos vencedores antecipados. À população, deu inequívoco sinal de que estava convencido de que Cavaco ganharia.

Na verdade, Soares candidatou-se em nome de causas menores. Deixou-se ser escolhido, designado e convidado pelo partido. Para juntar as esquerdas. Para salvar a honra do PS. Para evitar a vitória anunciada de Cavaco. Numa só palavra, que ele tanto afeiçoa, para "resistir"! Esta última tonalidade, que nos remete imediatamente para os combates da República de há cem anos e dos democratas de há quarenta, revela a maior deficiência, não apenas estratégica, mas sobretudo fundamental, da campanha de Soares. Parece nada ter a oferecer a Portugal e aos portugueses, parece apenas oferecer-se à esquerda e aos socialistas. Prepara-se seguramente para desfiar os velhos argumentos do antifascismo, mitologia obsoleta sem qualquer relação com a realidade.

Ser de esquerda ou de direita, tentar unir uma ou outra, não chega para ser eleito ou exercer o cargo de Presidente da República. Soares poderia, por exemplo, mostrar o que a esquerda teria a oferecer aos portugueses a fim de lhes resolver alguns dos seus problemas e de os ajudar a ultrapassar as dificuldades actuais. Mas não. Oferece-se ele próprio. Sendo quem é, nem sequer esse oferecimento tem o valor de sacrifício, de dom último, mais adequado ao romantismo revolucionário ou à transcendência bíblica. Ele só quer que o PS e a esquerda ganhem. Acontece que todos os outros candidatos da esquerda já disseram mais, num parágrafo, sobre os seus programas nacionais para a esquerda, do que Soares em todas as suas declarações públicas dos últimos meses. Ganhar, simplesmente ganhar, não é um argumento político importante, sobretudo quando se não tem empregos, concursos, adjudicações, lugares e subsídios para distribuir. Ganhar, simplesmente ganhar, pode servir para o desporto, mas é de total inutilidade para a política, em especial quando um país vive numa das mais sérias crises da sua história contemporânea.

O método que vem adoptando, até agora, é desolador. Comporta-se como um "outsider", um candidato marginal. Pede debates, porque confia na sua reputação. Solicita debates urgentes, todos os debates, chega a inventar recusas dos outros candidatos a debater, pois acredita que, se conseguir "esmagar", na televisão, em directo, os seus adversários, tem a vitória garantida. Entretanto, nas entrevistas impressas e na que deu a Constança Cunha e Sá, na televisão, perdeu o essencial do seu tempo a falar de Cavaco Silva, a provocar Cavaco Silva e a denunciar Cavaco Silva. Parece um destes candidatos radicais à procura de interlocutor e rival, em busca de tempo de antena que lhe seria oferecido pelas querelas com o adversário. Transformou-se em candidato desesperado a agitar-se diante daquele que considera já o presumível vencedor.

Por sua vontade e decisão, Soa-res encabeça hoje um combate fora de tempo e fora da actualidade. Sem, aparentemente, argumentos políticos nacionais pesados, busca uma campanha de luta pessoal. Ora com Alegre, ora com Cavaco. Corre o risco de apenas obter, como resposta, o silêncio. Corre o risco de ficar sozinho na arena. À procura de adversário. E, com ele, a esquerda e o seu partido.

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Subject Author Date
O CircoVASCO PULIDO VALENTE 6/11/05 17:24:23


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