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Subject: A praga do cavaquismo


Author:
Nuno Brederode Santos
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Date Posted: 8/11/05 18:58:48

Revista Expresso, 21 de Outubro de 1995
A praga do cavaquismo

Nuno Brederode Santos


O cavaquismo nasceu com Cavaco.

Como vírus, é claro, pois a praga é mais tardia.

Como vírus, nasceu de parto normal uma criatura que, por razões que me escapam, tinha contas a pedir a Deus, ao cosmos, ao destino e aos outros.

Como praga, foi no Congresso da Figueira da Foz, onde julgou que lhe bastava exigir o apoio de Freitas do Amaral à Presidência e afinal bastou-lhe renegar o apoio de Freitas do Amaral à mesma para ser eleito (após o que, naturalmente, repescou esse apoio; e, depois de ele se frustar nas urnas, enjeitou-o com a mesma naturalidade e mandou o candidato mourejar para custear as dívidas de uma campanha que, perdida, logo tratou de classificar como pessoal e alheia).

Trouxe então para a política, não – como tanto se disse – um estilo novo, mas a inegável novidade de uma falta de estilo.

Organizou o seu massacre do Dia de São Valentim e procedeu à ordeira liquidação de toda a oposição interna no partido.

Depois, à política exercida na sua tradicional dimensão de humanas grandezas e misérias, impôs, com a capacidade de inovação dos leigos e estreantes, a sua simbiose muito pessoal de autoritarismo, populismo e tecnocracia.

Não nego que o levou longe, por uns tempos. Só lembro que longe está o inferno também. Atirou-se, de dentes cerrados, à porca da política, e assim se tornou o chefe natural dos descamisados, como sempre enquadrados pelos estratos inferiores da pequena burguesia. Era previsível que, à saída, os descamisados ficariam como estavam (um tanto mais presos, mais drogados, mais excluídos e mais hostis ao sistema), enquanto que a pequena burguesia arrivista a que apelou tem hoje mais carros, mais empregos, mais gravatas.

O autoritarismo serviu-lhe para incutir confiança na durabilidade do seu poder e para transmitir a noção de que, quem a tais tropas se não juntasse, ficaria inexoravelmente preterido. Mas a metodologia do governo radicaria essencialmente na sempre difícil mistura de populismoe tecnocracia. Difícil, porque aquele é espontaneamente sanguíneo e agressivo e esta é fleumática e sobranceira.

A ideia era pôr a tecnocracia na mó de cima durante a governação em cruzeiro e recorrer ao populismo nos tropeços da governação e na mobilização para as eleições.

Duas ideologias que recusam confessar-se como tal, mas que, em qualquer confronto, se odeiam entre si. A mistura provou as dificuldades: é recordar as inúmeras obras ou iniciativas tecnocráticas que puseram o “lumpen” em estado de sítio ou as inúmeras situações de dificuldade que levaram o chefe a esquecer as regras da “civitas” e, apelando directamente às massas pela televisão, consagrava outros órgãos do Estado como bodes expiatórios, pondo-lhes ao pescoço chocalhos do tamanho dos carrilhões de Mafra. O poder – até para poder conter esta aliança duradouramente impossível em democracia – via-o como Bossuet, enquanto delegação do Além, que o voto mais não faz do que tornar sonoro. À míngua da mais elementar utopia cívica, nunca se dirigiu ao indivíduo mas sempre à multidão mais abúlica, que entretanto mandou numerar: “Cavaco tem o instinto tribal do populismo e algum conhecimento vivido da tecnocracia”, escrevi eu aqui há sete anos, num texto onde tentava explicar que esta aliança de poder só era possível – porque escamoteável – enquanto fôssemos largamente recebedores da União Europeia.

Não podia então adivinhar o prazo. E ele também não.

Só que, mal a situação se clarificou, o herói de duas maiorias absolutas (num regime que manifestamente a não facilita) olhou atentamente o terreno e percebeu que terceira não haveria. Era uma nódoa de azeite no seu “curriculum”, e ele rejeitou-a. Os cenários eram então, para ele (como admito que para mim), uma maioria relativa do PSD ou uma escassa maioria relativa do PS. Nada propenso a deter-se na ponderação dos problemas dos outros, concebeu os dois tabus.

Primeiro, viu as fissuras e tensões da sua delicada sociologia eleitoral e concluiu que tinha de se afastar pessoalmente do partido. Foi Nogueira o sacrificado. Depois, criou o tabu das presidenciais, por duas e sólidas razões: só depois de 1 de Outubro se saberia se o cenário era propício às suas aspirações de presidencializar a “praxis” constitucional portuguesa (mesmo tendo várias vezes defendido, no passado, a necessidade de reduzir os poderes dessa “força de bloqueio” que era o actual Presidente) e, por outro lado, se os resultados fossem abaixo das suas piores previsões e ele não se quisesse meter em avesturas arriscadas, importava dar ao PSD alguns dias para distribuir as culpas do insucesso. Chegou a data: os resultados foram muito abaixo das suas piores previsões e Nogueira resolveu isso em minutos, declarando-se responsável por eles, enquanto toda a gente recordava ainda que elas seriam sobretudo um teste à governação: ao mesmo tempo, na São Caetano como em todo o país laranja, sentiu, olhando os seus, a serenidade com que Cláudia Schiffer passearia semi-nua à meia noite no Bronx.

“Les jeux sont faits”. Depois do tabu, com que assassinou o partido, o homem não tem outro remédio senão ir às presidenciais precisamente no cenário em que não queria: o de uma quase-quase maioria absoluta socialista.

E a ter de trocar argumentos. Porque é exactamente o quase-quase que traz para o campo dos adversários o argumento da estabilidade, já que o claríssimo mandato popular carece agora, mais do que nunca, de um Presidente sereno, com um relacionamento fácil com o Governo e capaz de uma isenção que é o último atributo que o mais louco dos loucos reconhecerá em Cavaco. Em suma, enquanto ele tenta desesperadamente decorar Augusto Gil para a emergência de um debate de ressaibos humanistas, já sente que Nogueira o agarrou pelo mais ingrato dos sítios e que, se perder em Janeiro, está feita a demonstração de que foi ele próprio quem perdeu também em Outubro.

Napoleão, ainda que falando de instituições e não de pessoas, disse que “só se destrói o que se substitui”.
A grande oportunidade de sepultar solidamente o cavaquismo é derrotar Cavaco outra vez em Janeiro.

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Capaz de uma isenção que é o último atributo que o mais louco dos loucos reconhecerá em Cavaco.Margarida 8/11/05 20:19:50


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