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| Subject: Vasco Gonçalves «Um homem em Revolução» | |
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Author: Aula Magna da Universidade de Lisboa |
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Date Posted: 27/10/06 17:10:46 Vasco Gonçalves «Um homem em Revolução» Vasco Gonçalves Na homenagem ao general Vasco Gonçalves, no dia 21 pp., na Aula Magna da Universidade de Lisboa, a intervenção de fundo foi do Prof. José Barata Moura. Pelo seu significado, odiario.info publica na íntegra esse discurso, aclamado de pé pelas 2000 pessoas que ali se reuniram para expressar a sua admiração pelo grande estadista e soldado revolucionário. José Barata-Moura - 27.10.06 O discurso de Barata Moura na homenagem a Vasco Gonçalves 1. Estamos aqui reunidos hoje para homenagear Vasco Gonçalves. Se fosse apenas para isso que estamos aqui, já seria muito – e, certamente, muito merecido. Mas nós estamos aqui reunidos hoje também por uma outra razão. Porque pensamos e sentimos que o Portugal de Abril não é um episódio revoluto, não é um capítulo encerrado, não é uma galeria de esperanças desmaiadas. O Portugal de Abril, uma vez lançado às águas da história do nosso povo, é uma obra de muitos maios que continua a desafiar a imaginação, a lucidez, o trabalho, de um destino colectivo nosso que – apesar, dentro e para além de todas as vicissitudes desfavoráveis e contrárias – não abdicamos de escrever e de inscrever no corpo das realidades. É neste marco, é neste espírito, é com esta determinação e este horizonte de luta, que, com Vasco Gonçalves, comemoramos hoje aqui uma gesta, em que ele foi gesto e de que nós nos sentimos herdeiros de estaleiro em construção, não dissipadores, nem mal-agradecidos. 2. Vasco Gonçalves foi um «homem em revolução», e um homem da revolução. Vasco Gonçalves foi um «homem em revolução» – um «homem transformado pela acção, o ser humano que se transforma a si próprio ao mesmo tempo que a sociedade, o homem que pela luta, pelo trabalho organizado, pelo espírito de solidariedade e de sacrifício, dominando e superando o individualismo e o egoísmo, pelo exemplo, exerce uma eficaz e decisiva acção educadora». São palavras dele, num artigo de 1991, que ele, com a modéstia descomplexada que o caracterizava, não está obviamente a aplicar a si mesmo, mas onde fala, e de onde fala, uma experiência sincera de vida que nunca deixou de impregnar todo o seu pensamento e intervenção. Vasco Gonçalves – que não se considerava «um político», mas «um militar que tem ideias muito precisas sobre a vida da sua Pátria, e, por isso, não separa a política da moral» – foi um homem da revolução. Não apenas porque a preparou, com clarividência patriótica e com coragem cívica, junto com os seus camaradas do Movimento das Forças Armadas. Não apenas porque a ela se entregou de modo inteiro, integral e íntegro. Mas porque nela assumiu, nas suas fases mais críticas e criativas, destacadas responsabilidades de condução, nas vertentes político-militar e da governação. 3. Vasco Gonçalves foi o primeiro-ministro de Portugal à frente dos II, III, IV e V governos provisórios da República, durante cerca de 14 meses, entre meados de Julho de 1974 e os começos de Setembro de 1975. Foi chamado ao exercício do poder na saída de uma primeira crise grave do novo regime democrático. Conheceu e triunfou de outras crises de gravidade ainda maior (28 de Setembro, 11 de Março). «Uma revolução desenvolve-se em crise», explicava ele, «pretendemos é evitar que essas crises levem à ruptura». Foi, por sua vez, afastado, no momento crítico e doloroso, em que, de acordo com a sua formulação, a questão se colocava «entre aqueles que querem exercer o poder no sentido de ajudarem o Povo a tomar o seu destino em mãos e aqueles que pretendendo o poder em nome do Povo querem perpetuar a sua exploração». Durante os governos de Vasco Gonçalves, deram-se os avanços mais significativos num processo revolucionário, de antemão e de entrada, anti¬fascista e anti-colonialista, mas que, com clara firmeza, perspectivava as transformações necessárias num sentido de, do mesmo passo, corresponder efectivamente aos anseios de melhoria de condição, de desenvolvimento económico e social, de maioridade esclarecida, do povo português. Lançaram-se, assim, as bases da institucionalização e do enraizamento do regime democrático, com a instauração de amplas liberdades, garantias e direitos políticos, cívicos, culturais, sindicais e laborais. Em condições internas e externas de extrema delicadeza, procedeu-se à descolonização, já com o nítido propósito estratégico de que «temos pátrias de expressão lusíada a criar». Deram-se passos para uma reentrada digna de Portugal no concerto normal das nações, com inteiro respeito pelos legítimos acordos internacionais firmados (designadamente, no quadro da ONU e da OTAN). Destruíram-se os esteios do capitalismo monopolista de Estado e dos grandes grupos económicos, tendo-se nacionalizado a banca, os seguros, os sectores básicos da produção, as principais empresas de transportes e comunicações, dando origem à criação de um sector público de peso determinante na economia, na regulação dos mercados e no comércio externo. Realizou-se a Reforma Agrária, aprovou-se uma nova lei do arrendamento rural, e devolveram-se os terrenos baldios às populações vizinhas. Melhoraram-se e dignificaram-se substancialmente as condições de vida dos trabalhadores, em geral, e de vastas camadas sociais. Promoveram-se transformações progressistas no ensino, na cultura, no desporto, na saúde, com uma forte respiração e cunho democratizadores. 4. Em todo este contexto de crise económica e política, de libertação de forças e de energias sociais, de intensa participação das massas populares, a problemática de uma transição pacífica, democrática e pluralista para o socialismo veio ganhando uma acuidade crescente. Não por imposição doutrinária abstracta; não por imitação servil de modelos pré-concebidos e importados; não por decisionismo voluntarista de cima para baixo levianamente arbitrado. Mas porque a revolução se processava no quadro de uma estreita aliança Povo-MFA; porque «as revoluções não se fazem com ensaios gerais, é o próprio desenvolvimento histórico que nos ensina os ritmos»; porque «cada dificuldade que se nos depara, depois de vencida, é um passo em frente que damos. Nós avançamos combatendo os nossos inimigos». Vasco Gonçalves Para Vasco Gonçalves, no plano político directo, a chamada «opção pelo socialismo» – tomada e sufragada pelos órgãos do poder ao tempo competentes, inscrita nos textos programáticos da generalidade dos partidos (designadamente, de todos os que tinham assento no Governo), e beneficiando de largo apoio popular – não era uma «brincadeira» sem consequências, ou um lugar retórico amiúde revisitado para treino e deleite do «verbo afiam brado». Muito pelo contrário: a «opção pelo socialismo», como elemento norteador da transição, era para levar a sério, e para realizar – num quadro, sempre movente, de unidade, de consciência, e de participação populares. Aliás, Vasco Gonçalves estava ciente e convicto de que a liquidação do poder económico dos grupos monopolistas e do latifúndio era um passo imprescindível para a consolidação de uma autêntica democracia política num contexto em que as ameaças de retrocesso estavam longe de dissipar-se, em que diferentes sabotagens internas e externas da economia multiplicavam efeitos gravosos, em que era imperioso constituir uma base material susceptível de acorrer a diversificadas e legítimas aspirações sociais. Como ele próprio refere, as conquistas democráticas e as transformações estruturais «não eram mais que as respostas às necessidades prementes de defender a Revolução, de promover o desenvolvimento, de vencer o nosso atraso económico-social e político, de criar condições para a satisfação de justas necessidades populares básicas». 5. Nos termos concretos que uma acção política responsável nunca pode dispensar – «a nossa luta desenvolve-se em torno do que “é” e não do que gostaríamos que fosse» –, Vasco Gonçalves deu corajosa e calorosamente o melhor de si. Com uma abnegação sempre em demanda da lucidez. Com um entusiasmo, nunca fingido e contagiante. Perfeitamente compenetrado de que, como escreverá em 1994: «Quando as condições objectivas estão criadas, as condições subjectivas passam a ser decisivas». E Vasco Gonçalves não recusou o seu concurso pessoal, a sua entrega, a esta dimensão abertamente prática de transformar as realidades, sem nunca deixar de ter em conta a complexidade do seu tecido ou a dureza das suas contradições. Homem simples, por generosidade natural e por consciência cívica, sabia, pela sua vasta cultura reflectida e diversidade de interesses, que «a simplicidade é aquilo que é mais difícil na construção de tudo». Homem de verdade e da verdade, que desassombradamente recusava os esconsos da politiquice e não temia aberta e publicamente aprender e explicar-se, conheceu dolorosamente na carne – objecto que foi de tanta e de tamanha calúnia – que «para além do carácter revolucionário da verdade não podemos ignorar que a mentira é uma das grandes armas da contra-revolução». Revolucionário impoluto, que nunca esteve agarrado a posições ou lugares, mas tão-só ligado «a uma Revolução que não queremos ver recuar e muito menos perder», sabia com uma firmeza tranquila, mas não desencantada, que «a transformação do velho no novo não é fácil. É dura, custa e é preciso que haja gerações que se empenhem nela». 6. Bertolt Brecht, num texto de 1935 sobre as dificuldades que envolvem um escrever da verdade, adianta uma afirmação aparentemente perturbadora: «Para dizer que os bons não foram vencidos porque eram bons, mas porque eram fracos – para isso, é preciso coragem». Vasco Gonçalves pertence àquela classe dos fortes que, sem culpabilizações deslocadas nem desculpas acomodatícias, tem a hombridade de não dissimular determinados reconhecimentos: «O processo revolucionário não era politicamente pacífico, mas, pelo contrário, caracterizado por fortes enfrentamentos de interesses políticos, sociais, económicos e culturais. E a verdade é que não existia um poder revolucionário capaz de consolidar as conquistas democráticas. Somente revolucionários nos órgãos do poder político-militar e do poder político.». A história continuou, e continua. Lavrada sempre pelo trabalho dos humanos, pela sua capacidade de antecipar e de materializar os possíveis, pelo seu anseio de produzir e realizar uma humanidade mais justa, mais rica, mais fraterna. Mas a história continuou, e continua, desenhando itinerários dentro de condições determinadas que transcendem o sentir imediato dos seus diversificados agentes directos. Condições determinadas essas que, porque não são fatais nem inelutáveis, têm elas próprias, por sua vez, que ser humanamente modeladas e transformadas. O tempo presente, à escala global, caracteriza-se, em termos de dominância não irresistida, por uma cavalgada cega da lógica capitalista do mercado mundial de extensão planetária, respaldada na influência e no poderio político-militar de uma unilateralidade imperialista. Esta desfilada exibe, sem pruridos de maior, o respectivo cortejo triunfal de guerras e de misérias, despudoradamente assente num cavamento e multiplicação de assimetrias entre Estados e dentro dos Estados – hipocritamente descritas na enfunada e mistificatória propaganda oficial e oficiosa (que tantas mentes seduz e formata) como a única via, a única alternativa, o único caminho («natural» e inquestionável) que ao género humano é dado trilhar. Na ordem interna, o rebatimento destes desígnios de universal dominação sem ornamentos aporta a uma série de ofensivas sistemáticas e programadas contra tudo aquilo (e contra os restos de tudo aquilo) que objectivamente pode constituir uma base material, social e de esperança para a construção de formas realmente novas de produzir e de reproduzir o viver colectivo. A contra-revolução portuguesa – nos seus mais variegados, sofisticados e requentados figurinos – inscreveu-se, e inscreve-se, numa diligente e untuosa cópia de amanuense destes ditados alheios. 7. No meio destas torrentes de conformação sibilina e musculadamente induzida, e contra uma impetuosidade de águas que ganha velocidade e poder de arrastamento à medida que prolonga a sua marcha sem freio, Abril permanece levantado, de pé, resiste – não como uma memória saudosa que se reverencia, não como um sonho perdido que nos acalenta o coração resfriado, não como uma teimosia sanguínea de que se esqueceram as razões verdadeiras: mas, sim, como um objectivo de luta que, em condições transformadas e buscando uma transformação das condições, não capitula, não desiste, não se entrega: trabalha. A liberdade, dizia Vasco Gonçalves, é «ser capaz de construir o próprio destino pelas suas próprias mãos»; uma exigência desta radicalidade e alcance não pode permanecer ideologia vã e vazia; daí uma outra afirmação forte: «Nós desejamos que o Povo Português seja um sujeito activo da sua própria História». Para que esta força colectiva – de inteligência, de sentimento, de estratégia, e de concretização – possa ser formada, intervindo como factor subjectivo de iniciativa, mas também transformando prévias condições materiais de envolvência e de partida, é preciso esclarecer, ganhar e organizar as pessoas. Não acima ou ao lado das contradições reais, mas dentro e de dentro dessas mesmas contradições. «Papel decisivo, neste trabalho de consciencialização e mobilização das pessoas», escreve Vasco Gonçalves, «têm de desempenhar a disponibilidade para a acção, a generosidade e o espírito de sacrifício, o esforço inteligente e esclarecido, a moral e a ética dos mais conscientes dos legítimos interesses e aspirações populares e nacionais». O caminho não é fácil, não é simples (nem de delinear, nem de percorrer), não tem o êxito assegurado ou oferecido imediatamente em cada pequeno ou grande combate. Como ainda Vasco Gonçalves alerta: «Só a luta, sobre a base de problemas concretos, procurando mobilizar as consciências e os corações, estimular a disponibilidade para a acção ao longo da qual se promoverá a participação e a intervenção populares, em todos os domínios da vida da sociedade, conduzirá o homem a ser sujeito do seu próprio destino». Os Militares de Abril – que de aqui comovidamente saúdo – deram «o braço armado à Revolução», num momento histórico crucial que souberam surpreender e forjar. Saibamos nós dar as mãos, o saber, e a determinação prática para que do povo, e com o povo, se reacenda a chama de uma efectiva transformação social do nosso destino colectivo, à luz e à altura dos desígnios de uma humanidade emancipada e solidária. Homenageando Vasco Gonçalves, lembramos, e agradecemos, na pessoa dele, a todos quantos – em posição de destaque, ou anonimamente – combateram e combatem por esta boa causa de humanidade. Homenageando Vasco Gonçalves, não estamos a saldar contas com o passado. Homenageando Vasco Gonçalves, companheiro de uma mesma marcha que nos ultrapassa, estamos a fazer um balanço que nos remete e lança aos horizontes do por-vir. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
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| Re: Vasco Gonçalves «Um homem em Revolução» | carlos santos | 27/10/06 22:41:43 |