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Subject: O economicismo como insulto


Author:
Francisco Sarsfield Cabral (DN, 7 Outubro 2006)
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Date Posted: 7/10/06 18:42:46


Criticando o anunciado encerramento das fábricas da Johnson Controls em Nelas e Portalegre, um dirigente empresarial classificou-o de "medida economicista". E um membro do CDS/PP de Portalegre disse que "os problemas económicos não são razão nem fundamento para que se tomem medidas deste género" (DN, 27-9-06).

Não tenho opinião fundamentada sobre aquela decisão da Johnson. Naturalmente, lamento-a pelas suas dramáticas consequências (desemprego em zonas do interior onde escasseia a iniciativa empresarial). E o encerramento suscita-me acrescida preocupação por se tratar de unidades industriais já de alguma sofisticação produtiva.

Mas vale a pena reparar nessa acusação de economicismo. É que ela se repete entre nós, mas quase sempre erra o alvo.

Na maioria dos casos, lamenta-se que o Estado não ofereça este ou aquele serviço, não faça este ou aquele investimento, não dê esta ou aquela ajuda, apelidando de economicista o governante envolvido. No fundo, pretende- -se que o Estado gaste, sem olhar a custos.

Ora, ignorar custos seria fazer como se o dinheiro do Estado não fosse o dinheiro de todos nós, contribuintes. Ou como se os fundos públicos fossem inesgotáveis, não carecendo de ser rateados em função de certas prioridades.

Pelos vistos, a reacção contra este alegado economicismo agora também parte de defensores da economia de mercado. O que é curioso: dir-se-ia que um gestor empresarial deve decidir, antes de mais, em função da racionalidade económica privada.

Sem lucros, as empresas vão, ou deviam ir, à falência. O lucro não é tudo, claro - mas condiciona tudo. Só que, por cá, há quem pense de outra maneira.

Uma fábrica ameaça fechar? Reclama-se, então, mantê-la em funcionamento a qualquer preço, para evitar problemas de desemprego. Aliás, é também esse o verdadeiro motivo dos que não querem reduzir o número de funcionários públicos: é preciso dar emprego às pessoas, ponto final. Desde há décadas que em Portugal se mantêm artificialmente a funcionar empresas inviáveis e serviços públicos inúteis. É um enorme desperdício de recursos, assim impedidos de ser aplicados de maneira mais produtiva.

Invocar, a torto e a direito, o economicismo desta maneira poderá ser popular, mas é irrealista e engana as pessoas. No mundo finito em que vivemos, os meios são escassos e fazer umas coisas implica sempre desistir de outras. Ignorar esta realidade elementar leva ao desastre. Os que acusam os outros de economicistas arrogam-se frequentemente, embora de forma implícita, uma superioridade moral: eles estão acima desse reino do egoísmo e do "vil metal". Afinal, mais não fazem do que ignorar a realidade em seu proveito. Alguém, que não eles, terá de pagar o que eles reclamam.

Por isso, até na perspectiva da justiça social importa ter a noção dos custos reais, ainda que não visíveis a olho nu. Por exemplo, quando se julga que os serviços gratuitos do Estado ficam "de borla" para a colectividade. Por muito que se seja insultado de economicista, a honestidade exige fazer contas.

O economicismo a evitar é outra coisa. Trata-se daquela concepção que reduz o mundo à mera dimensão económica. Ignorar tal dimensão é uma fantasia perigosa. Torná-la dominante ou até única é degradar a condição humana.

O mercado é excelente mas não é tudo. Há valores essenciais que estão fora da sua esfera. E o cálculo económico não dá conta, longe disso, de toda a realidade humana.

Depois, acentua-se a tendência para o poder económico se sobrepor ao poder político. A globalização reduz a força dos Estados e pouco se tem avançado para a enquadrar politicamente à escala internacional.

Assim se vai esvaziando de conteúdo a democracia. Os gestores económicos respondem perante os seus accionistas, não tendo de prestar contas aos cidadãos. Se os empresários não encontram pela frente poderes públicos fortes, predomina a vontade de alguns sobre a vontade da maioria. É a grande ameaça economicista do séc. XXI.

E temos, ainda, a mais antiga, mas sempre presente, perversão tecnocrática aplicada ao campo económico: apresentar sob uma capa pretensamente objectiva, científica e ideologicamente neutra conclusões que, afinal, são políticas.

É uma forma muito comum de dissimular opções ideológicas.

Há, pois, um economicismo que vale a pena combater. Mas não aquele de que mais se fala entre nós.

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