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| Subject: CUBA SÍ. POR QUE NO? | |
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Author: Hélio Campagnucio |
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Date Posted: 13/07/06 16:05:01 Após longos anos de espera e expectativa fui a Cuba, pela primeira vez, para participar do IV Encontro Internacional de Pais de Alunos da ELAM, que se realizou de 4 a 6 de fevereiro, em Havana, na própria Escuela Latinoamericana de Medicina. Mas, além de representar a nossa Associação de Pais, a APAC, naquele evento, não podia deixar de aproveitar a oportunidade para conhecer um pouco de Cuba, do seu povo e de sua cultura. E, mais do que isto, precisava ver Cuba com os meus próprios olhos que, até então, só conhecia através de livros, pelo relato de amigos e pela imprensa. Embarquei para Havana na expectativa de rever minha filha que lá estuda. E de buscar respostas para perguntas que, até aquele momento, nenhum livro tinham respondido. Como um país que sofre o mais longo e cruel bloqueio do mundo conseguiu sobreviver à queda do bloco socialista, seu grande parceiro político e econômico? Como vive um povo que detém índices sociais iguais ou superiores a muitos países do primeiro mundo, mas que tem uma renda média anual que corresponde à metade da renda média do brasileiro? Que encantos têm esse país que atrai mais turistas que o Brasil? Como um país que perdeu mais da metade de seus seis mil médicos logo após o triunfo da Revolução tem hoje, 40 anos depois, quase 70 mil médicos atendendo os seus 11 milhões de habitantes e outros 15 mil médicos atuando em 40 países e ainda prepara 10 mil, provenientes de 24 países latino-americanos, no Projeto ELAM? Enfim, as perguntas eram muitas. E para buscar essas respostas lá fui eu para a ilha socialista. Logo na chegada no Aeroporto Internacional José Martí (um dos onze aeroportos internacionais de Cuba) começamos a perceber que Cuba é um país diferente. Na saída do aeroporto um outdoor chama a atenção e emociona qualquer visitante. Bem visível ele anuncia: “Esta noite, milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”. E é verdade. Nos 17 dias que lá estive não vi qualquer criança abandonada ou pedindo esmolas nas ruas. E nem adultos. Para um morador de qualquer país da América latina isto já causa um grande impacto. Que o diga, por exemplo, um morador de qualquer cidade brasileira, argentina e uruguaia após anos de neoliberalismo. Ao contrário, o que se vê em Cuba são crianças uniformizadas nas escolas ou nas atividades extraclasse caminhando pelas ruas, acompanhadas de seus “maestros”. Em cada quadra residencial ou quarteirão existe pelo menos uma escolinha, além de um consultório médico comunitário e um Comitê de Defesa da Revolução – CDR. VISITANDO UMA ESCOLA – A EDUCAÇÃO EM CUBA No entanto, precisava visitar uma dessas escolas. Ao caminhar em Habana Vieja, na Calle Obispo, uma das mais famosas ruas do centro histórico, muito freqüentada pelos turistas e onde se localiza o Hotel que abrigava Hemingway, encontrei uma de portas abertas, com o nome de um dos heróis nacionais: José Martí. Parecia um convite. Uma feliz coincidência. Uma pequena e velha casa onde há cerca de quatro salas de aulas e não mais do que cem crianças. Em poucos minutos de conversa com as professoras comecei a encontrar algumas respostas de como Cuba conseguiu acabar praticamente com o analfabetismo em menos de um ano (antes da revolução o índice era de 30% da população) e por que, ao lado da saúde, cultura e esportes, a educação é reconhecida mundialmente por sua excelência. A motivação daquelas professoras, a consciência de sua responsabilidade social e a percepção de que são peças importantes no processo revolucionário do país – que não se esgotou na derrubada do Ditador Batista – e na formação daquelas crianças, reforçaram minha convicção de que educação não se faz apenas com prédios bonitos. Registra-se que o salário de um professor em Cuba pode variar em torno de 200 a 400 pesos, o que não lhe garante um padrão de vida superior aos dos professores dos demais países latino-americanos. E comentar sobre os salários em Cuba é complexo, pois existem duas moedas correntes: o peso cubano e o dólar. Oficialmente um dólar norte-americano vale 26 pesos cubanos nas casas de câmbio do governo e existem produtos que só estão disponíveis com preços cotados em dólar. Entretanto, o trabalhador cubano pode adquirir boa parte dos produtos essenciais em pesos a preços subsidiados pelo Estado, inclusive energia elétrica, água, gás e o transporte público. O mesmo entusiasmo que senti naquelas professoras cubanas pude constatar no contato com os mestres e funcionários da Escola Latinoamericana de Medicina. É incrível como uma idéia concebida pelo Comandante Fidel tornou-se um projeto nacional. Ao conversarmos com aqueles que trabalham na ELAM, desde o Reitor até o pessoal da limpeza, entendemos como um povo consegue superar tantas dificuldades pela força dos ideais e o pelo verdadeiro papel exercido por um líder. Podemos afirmar que Fidel não é uma unanimidade em Cuba, mas mesmo a minoria que não concorda com algumas de suas posições reconhece os avanços sociais conquistados nas últimas décadas e a conquista, após quatro séculos dominados pelos espanhóis e pelos norte-americanos, da liberdade e da autodeterminação de seu país. AS DIFICULDADES ECONÔMICAS Na verdade o povo cubano passa por um grande aperto econômico, pois além de enfrentar o bloqueio econômico dos Estados Unidos, a situação se agravou após o desmanche do bloco socialista. Durante três décadas Cuba concentrou o seu comércio no bloco socialista onde a moeda forte era o rublo. Praticamente a totalidade das exportações cubanas eram para os países do leste europeu que recebiam os seus produtos, basicamente o açúcar, e enviavam para a ilha derivados de petróleo, alimentos e outros produtos essenciais. Naquela época o peso cubano correspondia a um dólar norte-americano e a portabilidade do dólar era proibida. Após a queda do bloco socialista, Cuba viveu três longos anos de ajustes em sua economia, no início da década de 1990. Foi o chamado período especial em que muitos, inclusive cubanos, apostavam que o regime de Fidel não sobreviveria à crise que então se instalara na ilha. Segundo relatos de alguns cubanos, com os quais tive oportunidade de conversar, esses anos foram terríveis. Logo no início dessa tempestade um dólar chegou a valer mais de cem pesos cubanos, o transporte público entrou em colapso pois o país não tinha fornecimento de petróleo, muitos produtos básicos, antes importados dos países do leste europeu, não eram encontrados para consumo e o país continuava a enfrentar o bloqueio econômico que o penaliza há 45 anos, sem acesso a créditos e financiamentos internacionais. Algumas medidas como a liberalização do dólar como meio de pagamento, a flexibilização para investimentos externos (especialmente europeus na área do turismo e em parceria com o Governo cubano), a transformação de fazendas coletivas em cooperativas e uma modesta abertura para pequenos negócios no setor de serviços amenizaram os efeitos nefastos da crise econômica. A grande virada da economia cubana, que a partir de 1994 retomou o crescimento econômico, deu-se com a abertura ao turismo, hoje a grande fonte de divisas do país que, no ano de 2000, chegou a receber cerca de dois milhões de visitantes, mais do que o nosso país. Explorando a riqueza cultural do país, a simpatia e amizade de seu povo, as belezas arquitetônicas de Havana e as lindíssimas praias de Varadero (que se localiza na Província de Matanzas a 120 kilometros de Havana), Cuba é hoje uma das melhores opções turísticas do mundo. A liberalização das transações em dólar e a abertura ao turismo, no entanto trouxeram, além da redenção para a combalida economia cubana, efeitos sociais indesejáveis. Junto aos milhões de turistas aparecem nas ruas de Havana prostitutas, que. como em todas as demais partes do mundo, negociam algumas horas de prazer em troca de alguns dólares. Esse fato causa grande constrangimento ao cubano, pois, embora comum nos demais países, inclusive no Brasil onde a prostituição, inclusive infantil, é uma vergonha para a nossa sociedade, é um sinal de que seqüelas da crise foram deixadas no contexto social do país. Mas, em minha opinião, um grande efeito dessa liberalização econômica necessária foi a reestruturação social e salarial em Cuba, que trouxe benefícios e também problemas. Boa parte da economia cubana e dos trabalhadores cubanos vivem em função do turismo. Como os demais, esses trabalhadores recebem seus salários em pesos cubanos e tem todos os direitos à assistência médica, odontológica e hospitalar gratuitas, a escola em todos os níveis para seus filhos, transporte e energia subsidiados e produtos essenciais – controlados pela libreta – fornecidos pelo Estado. No entanto, algo em especial os diferem dos demais cubanos. Por trabalharem na área do turismo eles tem acesso às “propinas” em dólar, o que lhes proporciona acesso mais fácil a alguns produtos vendidos na moeda norte-americana. Assim, um carregador de malas, uma camareira ou um atendente de Hotel no final do mês, computados os seus salários em pesos e as gorjetas em dólar, podem ter um poder de compra superior a um médico ou outros profissionais de nível superior altamente qualificados. Não é difícil, pois, mesmo com todo o planejamento típico de um governo socialista, encontrarmos profissionais de nível superior trabalhando em hotéis e nas demais atividades no atendimento a turistas. Aliás, os postos de trabalho ligados ao turismo são os mais procurados e desejados na ilha. Este é um problema e um desafio a ser solucionado pelo Governo cubano. CONHECENDO UM POUCO DE HAVANA Ao caminharmos em Havana constatamos uma grande preocupação do povo, através de trabalhos voluntários, e do Estado em manter a cidade limpa e bem cuidada. Essa preocupação se verifica tanto na parte história da cidade (Habana Vieja, tombada em 1982 pela Unesco como Patrimônio da Humanidade) quanto na outra parte onde se destacam os bairros de Vedado e Miramar. Se em Habana Vieja vemos ruas estreitas e casas muito antigas, algumas em ruínas e outras sendo recuperadas pelo Governo, na parte “nobre” da cidade temos ruas largas e com verdadeiros palacetes construídos nas décadas de 1940 e 1950. Uma das mais belas dessas ruas é a Quinta Avenida, em Miramar. No bairro de Vedado e na parte histórica da cidade vemos que Havana hoje é um grande canteiro de obras e o governo tenta recuperar, em ritmo acelerado, boa parte das casas, algumas em péssimo estado de conservação. Mais do que os prédios velhos e históricos e dos automóveis americanos, muitos bem conservados, da década de 1940 e 1950, o que nos faz viajar no tempo, temos que falar sobre a alma da cidade: o seu povo sempre alegre, que gosta de expressar seu carinho e admiração pelos brasileiros e registrar que adoram as nossas novelas, que nos leva a entender as palavras de Hemingway: “Amo esse país e sinto-me como se estivesse em casa”. E quem vai a Cuba não pode deixar de caminhar no malecón – um calçadão que começa no bairro de Vedado, passa em frente do Escritório de Negócios dos EUA, estrategicamente localizado ao lado de uma praça onde se concentram as manifestações contra aquele país, e termina praticamente dentro de Havana Vieja – curtindo a brisa do mar e a bela paisagem do casario histórico e seus detalhes arquitetônicos. Mas se você não quiser caminhar, mesmo assim não deixe de percorrê-lo a bordo de um dos inúmeros coco-táxis, ao preço de 1 dólar a cada 2 kilometros. É um prazer único e indescritível. Outro programa imperdível é saborear os deliciosos sorvetes da “Copélia”, o único lugar do mundo onde se pode comer cinco bolas de sorvete por menos de 1 dólar e que fica em frente ao mais famoso cinema da capital: o Iara. E pertinho dali um dos monumentos de Havana: o Hotel Habana Libre que foi inaugurado em 1959, pouco antes do triunfo da Revolução, com o nome de Habana Hilton, e que foi a primeira sede do Governo revolucionário de Fidel Castro. Ali, além da beleza e sofisticação internas, encontram-se registrados momentos importantes da história cubana. Mas é em Habana Vieja onde nos deparamos com as melhores surpresas. Ao caminhar por suas estreitas ruas é comum assistirmos a shows relâmpagos da mais pura e contagiante salsa, dos saltimbancos (trupe de artistas e dançarinos que se apresentam nas ruas com roupas coloridas e pernas-de-pau) e de figuras pitorescas como velhos dançarinos que se exibem para os turistas e velhas cubanas que, sentadas nas portas de suas casas, saboreiam grandes e largos charutos cubanos. Mais importante do que saborear um congri (arroz com feijão cozidos juntos) com carne de porco e beber um mojito é se alimentar um pouco da diversidade cultural do lugar. Ali mesmo em Habana Vieja pode-se conhecer o Museu de Arte Moderna e o Museu da Revolução, que conta toda a história cubana, desde a época dos primitivos índios, que habitavam a ilha antes da chegada dos espanhóis, até os dias atuais. Como quem vai a Roma quer ver o papa, eu não poderia deixar de contemplar um espetáculo do famoso balé cubano. Para quem quer conhecer a ilha a dica é conseguir um exemplar da Cartelera Cultural, distribuída todas as quintas-feiras nas portas dos museus e teatros. Por sorte estava programada a apresentação do Balé Espanhol de Cuba no Teatro Nacional, outro belíssimo prédio. Ao preço de 20 dólares para os turistas e de 4 pesos para os cubanos pode-se assistir a um espetáculo de balé simplesmente inesquecível. E, praticamente ao lado, encontra-se o Capitólio, a réplica cubana do conhecido prédio norte-americano. Mas se depois de um belo espetáculo de balé a fome apertar, a menos de 1 kilometro fica o Bairro Chino, onde se come bem e barato, o que não é muito comum em Havana. Mas Havana tem ainda muito mais. a belíssima Plaza de la Revolucion, onde se cultuam os dois maiores heróis nacionais: José Martí e Che Guevara. E tem o seu maior patrimônio e o que mais encanta quem a conhece: a simpatia e amizade do povo cubano. OS CONTRATES DA ILHA Cuba é um lugar polêmico e cheio de contrates. Engana-se quem pensa que esses contrastes se limitam ao tráfego de carros antigos das décadas de 1940 e 1950 paralelamente a modelos sofisticados e atuais pelas ruas de Havana. Além da diversidade cultural, em Cuba pratica-se uma diversidade religiosa onde encontramos templos protestantes e católicos – a Catedral de Havana é linda e não pode deixar de ser visitada – e até sinagogas, que convivem com o culto a santeria, semelhante ao nosso candomblé. Distante algumas dezenas de milhas da maior potência econômica do mundo e, também, de uma das nações mais pobres do mundo, o Haiti, Cuba tem características próprias e o cubano, apesar de todas as dificuldades, uma maneira peculiar de viver, onde o mais importante não é o “ter” e sim o “ser”. Embalados pelo rum cubano, um néctar dos Deuses, podemos conversar com um cubano e sentir exatamente o que é amizade e desprendimento. E o verdadeiro sentido da solidariedade que é compartilhar não só as coisas materiais, mas, especialmente, os sentimentos. Com tantos contrastes culturais, Cuba é um país onde todos os cidadãos têm os seus direitos elementares garantidos pelo Estado. Assim, o salário do reitor de uma universidade, ou de um médico graduado não é tão distante do salário de um faxineiro ou de um operário da construção civil. Os filhos de todos eles freqüentam a mesma escola e são atendidos pelo mesmo médico. A alimentação básica, fornecida pelo Estado a preços subsidiados, é igual para todos. Mas por que alguns cubanos querem fugir do país se arriscando no perigoso mar do Caribe? Talvez encontremos a resposta analisando as razões para milhões de brasileiros migrarem legal e ilegalmente a outros países. Mas se alguns atletas cubanos buscam no exterior a riqueza que não teria em Cuba, muitos outros, como os jogadores de baiseball, e em Cuba é onde se pratica o melhor baiseball do mundo, ainda preferem ficar na ilha. O importante é que apesar da emigração de alguns médicos, artistas, cientistas e atletas, em Cuba não faltam médicos, artistas, cientistas e atletas. E, talvez, a resposta para essa pergunta seja tão ou mais importante do que procurar a explicação de alguns saírem do país. Após 17 dias inesquecíveis, nos quais conheci um país e um povo admiráveis, encontrei algumas respostas que procurava. Mas não todas! E se você acha que isto é uma desculpa para voltar à ilha....confesso: você tem razão! E se você também tem dúvidas e perguntas sobre Cuba faça como eu. Procure você mesmo essas respostas. Acredito que é difícil ir a Cuba e não querer voltar. Não só para rever a bela cidade, caminhar por suas ruas e voltar ao passado, mas para rever os amigos que inevitavelmente deixamos. Mesmo em poucos dias é possível deixar amigos em Cuba. Assim, terei de voltar a Cuba para rever amigos antigos, como o Adalberto, funcionário da Embaixada do Brasil e grande amigo dos estudantes brasileiros, e para ter uma “prosa” agradável com o nosso Embaixador Tilden. Mas gostaria de voltar para rever, também, os novos amigos que lá, como o Raul – o inspetor da ELAM que me acompanhou na visita à Escola -, a Maira, que mais do que uma trabalhadora que nos serviu ficou nossa amiga, e, dentre tantos outros, o Albino, um brasileiro que chegou a Cuba com doze anos de idade, há 40 anos, e cuja estória mereceria uma edição do Globo Repórter, ou, pelo menos, uma reportagem do Fantástico. Mas tenho que voltar a Cuba, pois é lá que está guardado o meu grande tesouro e de quem morro de saudades. E para quem me pergunta se vale a pena conhecer Cuba respondo: Cuba Si. Por queno? Brasília (DF), março de 2004. Hélio Campagnucio. Advogado, Economista, Secretário de Assuntos Educacionais, Culturais e Políticos da APAC Associação de Pais e Amigos dos Estudantes Brasileiros em Cuba e pai de Elaine Renata, estudante de medicina em Cuba. O autor pode ser contatato pelos e mails: heliocam@ig.com.br e heliocam@pop.com.br. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Cuba Livre | Anabela Fino "Avante" | 17/07/06 18:35:18 |